A POESIA UNIVERSITÁRIA E A GUERRA COLONIAL (1) – por Manuel G. Simões

No evoluir da história das ideias literárias, com frequência se polemizou sobre a função da literatura e, de modo ainda mais radical, particularmente da poesia. Chegou-se até à utopia da “poesia pura”, da autonomia do significante (vejam-se as propostas de alguns formalistas russos, Jakobson, por exemplo), sem avaliar que, deste modo, apenas se considera uma das potencialidades da palavra, por muito importante que seja o seu aspecto sonoro e musical. A esta posição anda geralmente associada a tese da arte apolítica, tese que me parece não menos utópica e contra a qual se manifesta um discurso poético que acaba por pôr em evidência a concepção ideal e historicamente plasmada pelo escritor, quer dizer, na sua complexidade, a essência das suas ideias dominantes.

 

Tendo em consideração o tecido social circunstante, o poeta deve agir com um ponto de vista novo sobre a palavra, não condicionando o núcleo semântico do texto mas proporcionando a produção de novas unidades de significado, usando a metáfora como modo de segmentar a substância do conteúdo, transformando-a numa nova forma (não é por acaso que Umberto Eco elegeu As Formas do Conteúdo como título de um seu conhecido ensaio). Deste modo podem-se alargar as potencialidades expressivas, não como exercício estético em si, mas como oficina onde se elabora um objecto (poético) que possa exprimir, através das potencialidades da linguagem, os grandes temas objecto da preocupação do homem nas suas relações com os outros e o mundo. O poder da literatura (poesia) é limitado, como se sabe, mas continua a ser um apreciável instrumento ontológico – “uma arma”, no dizer de Maiakovski -, veículo de ideias que o leitor recupera ou ressemantiza, actualizando o texto. De resto, “uma forma significante denota um significado. Mas ao mesmo tempo o destinatário humano acrescentará ao significado denotativo um significado ou alguns significados conotativos” (Eco, 1971: 149). Isto leva-nos a considerar obviamente a predisposição ideológica do destinatário, aquele património de saber que interage como catalizador semântico.

 

Este processo pressupõe a elaboração teórico-poética e a participação activa e crítica do escritor. De resto, esta foi a prática poética seguida por alguns dos poetas mais altos que já existiram – desde Homero a Dante, de Camões a Pessoa, de Lorca e Neruda a João Cabral de Melo Neto e tantos outros -, os quais se ocuparam, nas suas poéticas, como já disse o último (Melo Neto, 1998: 51-70), dos “temas da vida dos homens”, numa perspectiva que contempla a consciência ética da função comunicativa.

 

 Não é de estranhar, portanto, que esta consciência tenha marcado tão profundamente a produção literária da geração universitária dos anos sessenta, década percorrida por acontecimentos de importância extrema como o início da guerra colonial ou as diversas “crises académicas”, como, por exemplo, a de 1961-1962. Nascem então algumas publicações de âmbito estritamente universitário como Via Latina, Poemas Livres ou A Poesia Útil, de Coimbra; e Quadrante, Grafia ou Esteiro (revista cultural da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico), de Lisboa, que circularam mais ou menos “inobservadas” por parte da Censura, não obstante o desafio inovador ao código de auto-controle da criação literária, decerto porque a sua difusão atingia prevalentemente um público que, à partida, já ultrapassava o grau zero da pretensa inocuidade da informação oficial.

 

Poemas Livres 1 (Coimbra, 1962) inicia esse percurso que sutura a lírica e a crítica (social) ao modelo ideológico que lhe é subjacente, sem que se transcure o peso específico da palavra e a maneira como pode ser usada como instrumento, como signo totalizante da razão poética. E neste primeiro número, com algumas vozes significativas da esperança, da liberdade e da resistência, irrompe uma conhecida composição de Ferreira Guedes (n. 1933), então aluno da Faculdade de Direito de Lisboa, de título inocente (“Poema de agradecimento”) mas cujas estrofes introduzem uma reflexão que se pode ler como incitamento à recusa da guerra:

 

            Cala a espingarda, irmão

            é um companheiro que se perde

            em cada bala, como nós

            tão puro e jovem

            Cala a espingarda

            […]

            Cala a espingarda, irmão

            longe, tua noiva espera

            que lhe leves apenas

            uma flor nas mãos

            Cala a espingarda  (p.18).

 

 

O poema, de clara atmosfera pacifista (não por acaso dedicado a Bertrand Russell), depois inserido numa famosa antologia de poesia universitária (1964), de que se falará mais adiante, regista a perplexidade dos jovens perante uma guerra ainda um tanto nebulosa mas que prometia ser traumatizante, evidenciando sobretudo o motivo da ausência (“tua noiva espera”), que será um dos aspectos dominantes da poesia sobre a guerra colonial produzida antes de 1974.

 

(Continua)

1 Comment

  1. Aqui está um tema que me toca muito, pelos aspectos literários e pelo tempo (da minha adolescência e juventude, de coisas que vivi por dentro, ou muito de perto), tratado por quem sabe.Não vou perder nenhum “artigo”.Um obrigado especial pela escolha, Manuel Simões.Um abraço

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