Estado abastado, Trabalhadores assustados: A Carolina do Norte na economia mundial, por Edward Gresses – I. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.

Estado abastado, Trabalhadores assustados:

A Carolina do Norte na economia mundial

 

Edward Gresses

Director, Project on Trade and Global Markets

Progressive Policy Institute

 

Universidade de Coimbra

Coimbra, Portugal

 

5 de Novembro de 2007

 

Permitam-me que comece por agradecer à Faculdade de Economia e à Comissão Organizadora o convite que me fez para participar neste colóquio sobre a globalização. Agradeço também a oportunidade de participar nesta Universidade, famosa como centro de ensino e de investigação, de aprender com amigos e colegas europeus e de convosco partilhar a nossa experiência.

 

O filme que está no centro deste colóquio nitidamente ilustra parte da vida Americana que merece mais atenção, por parte dos investigadores estrangeiros sobre os Estados Unidos, do que aquela que frequentemente lhe é dada. O filme reflecte a experiência da América rural e das pequenas localidades — do modo de vida americano que está para além das grandes cidades, da experiência e da cultura que aqui existe, fora dos centros de entretenimento e das indústrias de alta tecnologia, à parte a política externa e outros assuntos e temas que chamam mais a atenção externa. O meu objectivo é dar alguma perspectiva sobre Cannon Mills e os seus trabalhadores, antes e depois dos acontecimentos narrados no filme — sobretudo, mostrar as mudanças que a economia global trouxe e impôs quer ao Estado quer à própria indústria. Mostraremos igualmente a resposta do Estado e do governo Nacional a estas mudanças, e as áreas em que essa resposta foi bem sucedida e assim como aquelas em que o não foi.

 

INTRODUÇÃO: os americanos debatem a economia global

 

Gostaria de começar por constatar que muitas vezes o termo “globalização” surge como um fenómeno radicalmente novo: uma questão do início do século XXI e talvez, também, da década de 90, a ascensão da China, redes de oferta globais as intrusões e as oportunidades da World Wide Web, etc. De certa forma isso é verdade — sobretudo quando pensamos sobre os efeitos dos novos meios e dos novos métodos de telecomunicações. Mas, nalguns aspectos, também não é assim. As questões sobre a forma como os Estados Unidos como um país rico poderiam enfrentar a concorrência que vem das nações mais pobres em rápido desenvolvimento, e sobre a forma como os trabalhadores e comunidades devem gerir a mudança, são tão antigas como os Estados Unidos, e também o são as emoções que estas questões suscitam.

 

Os Estados Unidos são um país independente desde há 231 anos. A experiência colonial estende-se para precisamente há 400 anos, e vem desde o tempo da fundação do Colonato de Jamestown na Virgínia, na Primavera de 1607, com o qual se fundou a colónia de Virgínia a 14 de Maio de 1607. Esta primeira colónia inglesa na América (aliás, não muito longe de Kannapolis, na Carolina do Norte) é uma velha história da economia mundial: a colónia aparece depois de um arranque difícil, capitalizando o novo interesse por parte de Inglaterra na produção de tabaco. Desde então que os Americanos têm debatido as questões da economia mundial.

 

Em 1792, Thomas Jefferson queixou-se (entre muitos outros assuntos) sobre a proibição imposta pela Espanha e por Portugal às trocas comerciais directas entre os EUA e os impérios latino-americanos[i]. Um ano antes, o seu colega e rival ideológico Alexander Hamilton escreveu o primeiro relatório oficial sobre o comércio, conhecido como o Relatório sobre as manufacturas.

 

Este último documento, apesar de ter sido escrito há muito tempo, é extremamente relevante para as questões que a indústria transformadora americana de hoje enfrenta — especialmente a indústria transformadora ligeira como, por exemplo, as empresas da indústria têxtil — na economia global de hoje. O relatório é a favor do papel do Estado na criação e desenvolvimento duma indústria transformadora. Sejam quais forem os méritos desta ideia, o ponto de partida de Hamilton — a crítica às alegações de que os salários elevados americanos tornavam as fábricas americanas inviáveis contra a concorrência feita pelos países de mais baixos salários, o que na época significava a Grã-Bretanha e a França — permanece relevante ainda agora, nos dias de hoje.

 

Considerando que “no campo dos salários, a comparação está certamente contra os Estados Unidos”, e que os altos salários — o “custo” — dos trabalhadores americanos é uma desvantagem, Hamilton insiste que não é uma desvantagem impossível, isto é, não é uma desvantagem inultrapassável. A existência de tecnologias recentemente inventadas assim como novas técnicas de produção, diz ele, podem reduzir os custos de produção global, permitindo aos americanos substituírem o trabalho humano por máquinas:

 

“Admitamos que a diferença de preço nos dois países do trabalho manual necessário para o fabrico de um determinado artigo é de dez, e que alguma capacidade mecânica pode ser introduzida em ambos os países, reduzindo o trabalho necessário para metade, é evidente que a diferença de custo da fabricação do artigo em questão nos dois países, na medida em que está relacionada com o custo do trabalho, será reduzido de dez para cinco, em consequência da introdução dessa capacidade mecânica, em consequência da introdução das máquinas.[ii]

 

 

Com efeito, Hamilton acredita que a América pode ser bem sucedida como fabricante, apesar dos seus elevados salários, ao produzir bens com menos trabalhadores do que os seus rivais. Nesta tese, vemos, 206 anos mais tarde, a recente experiência da indústria transformadora da América na economia global. Estamos a produzir mais, mas estamos a fazê-lo usando sucessivamente cada vez menos trabalhadores. Em geral, portanto, os receios de uma ampla desindustrialização estão ultrapassados. E quando nos encontramos fundamentalmente incapazes de competir em determinadas indústrias — mesmo naquelas muito importante para determinadas regiões — parece que novas invenções e novas indústrias surgem, algumas vezes com o apoio do governo, outras vezes não, e que substituem as antigas indústrias.

 

Mas as mudanças trazem sempre consigo elevados custos humanos — em deslocação de trabalhadores, perda de postos de trabalho, em elevados níveis de ansiedade para as pessoas cujos postos de trabalho são menos seguros e, em especial, traduzem-se em elevados custos financeiros para os trabalhadores americanos e para as suas famílias que não podem custear a perda de emprego. O Governo americano concede apoios e tem políticas de ajustamento, em particular através do Trade Adjustment Assistance, programa desenvolvido na década de 1960 por John F. Kennedy, que ajuda a suportar estes custos mas apenas para numa pequena parte e numa extensão relativamente incompleta.

 

A experiência da Carolina do Norte exemplifica dramaticamente este dilema e com especial vigor. O estado da Carolina do Norte, a nível de emprego, depende mais fortemente das fábricas da indústria transformadora do que os Estados Unidos como um todo. E as indústrias transformadoras emblemáticas na Carolina do Norte do século 20 — são fábricas de têxteis, vestuário, de mobiliário — são precisamente aquelas que enfrentam os maiores desafios vindos dos países asiáticos em desenvolvimento. Os seus esforços em se refazerem eles próprios e entrarem em novas áreas têm sido extraordinariamente bem sucedidos; os esforços dos governos estatal e nacional em ajudar os indivíduos, no entanto, têm sido muito menores. A experiência pode ser mais fortemente dramatizada pela experiência recente de Cannon Mills como o mostram os trabalhadores retratados no filme e a comunidade de Kannapolis.

 

I. A Carolina do Norte e sua industrialização

 

Em primeiro lugar, façamos algumas notas introdutórias, para aqueles que não estão intimamente ligados à nossa política e à nossa geografia.

 

A Carolina do Norte é um estado na costa atlântica dos Estados Unidos. Originalmente estabelecida como uma colónia britânica em 1655 — é assim nomeada pelo rei King Charles II da Inglaterra — e foi uma das 13 colónias originais que aderiram à formação dos Estados Unidos da América, em 1776. A norte, faz fronteira com o Estado da Virgínia, a oeste com o de Tennessee, e a sul, com a Carolina do Sul. O estado tem nove milhões de pessoas dispersas pelos seus 139,000 km quadrados de terra, tornando-se geograficamente um pouco maior, e demograficamente ligeiramente menor do que Portugal.

 

Em 2006, o seu PIB era de 374 biliões de dólares. Dado o actual baixo valor do dólar, este valor é cerca de 50% maior do que o da economia portuguesa, aproximadamente igual ao da Polónia, e ligeiramente atrás do da Bélgica. Neste valor, estão incluídos 74 biliões de dólares da indústria transformadora, ou seja, cerca de 19% do valor do PIB dos Estados Unidos. Para os EUA como um todo, a indústria transformadora representa 1,6 triliões de dólares e 12,9% do PIB. A Carolina do Norte também contabiliza 4 biliões de dólares na produção agrícola, 40 biliões de dólares no campo profissional e no domínio técnico, centrado numa área conhecida como a Research Triangle, em torno das universidades em Raleigh e em Durham (aproximadamente a160 quilómetrosde Kannapolis) e 17 biliões na indústria da informação. Devemos também informar que a Carolina do Norte tem também um centro cinematográfico, claramente classificado como o terceiro dos Estados Unidos atrás apenas da Califórnia e de Nova Iorque.

 

Assim, tal como a indústria transformadora constitui uma grande parcela na economia da Carolina do Norte bem maior do que a que constitui a indústria transformadora para os EUA como um todo, também são as fábricas que empregam a maior percentagem dos trabalhadores da Carolina do Norte. Neste Estado, há cerca de 550.000 trabalhadores fabris, o que representa 16% dos 4,1 milhões de trabalhadores do Estado da Carolina do Norte. Em comparação, os EUA como um todo têm 14 milhões de trabalhadores na indústria transformadora, ou seja, cerca de 11% dos 138 milhões de trabalhadores do país. Na indústria transformadora ligeira da Carolina do Norte estão especialmente grandes empregadores — as fábricas têxteis deste Estado, por exemplo, empregam um sexto dos trabalhadores têxteis da América.

 

Esta dependência da indústria não pode ser um fenómeno duradouro. Tal como a generalidade do Sul, a Carolina do Norte foi mais lenta a industrializar-se que a parte Norte e Ocidental dos Estados Unidos. Antes, o Estado contava com o escoamento dos seus produtos agrícolas para os mercados estrangeiros e, em especial, o tabaco. A sua industrialização data do início do século 20, quando a indústrias têxtil, nascida em Nova Iorquee na Nova Inglaterra começou a migrar em direcção às zonas de menores custos — dos Estados Unidos. Pietra Rivoli, uma economista professora e investigadora da indústria têxtil na Universidade de Georgetown, explica:

 

“As inundações de roupa barata de algodão que vêm hoje da China para os Estados Unidos são uma situação quase que inversa dos fluxos comerciais de há um século atrás. As fábricas de algodão foram as primeiras fábricas no sul da América e as ‘aldeias fabris’, que depressa se transformaram em cidades e diversificaram a economia do sul da América deslocaram os trabalhadores da agricultura e impulsionaram o desenvolvimento de indústrias auxiliares ou subsidiárias. Em pouco tempo, o Sul tinha desenvolvido uma boa capacidade de produção em produtos de qualidade e tinha invadido o mercado nacional, de alta de gama, de Nova Inglaterra. Porém, durante cinquenta anos que terminaram em 1930, as fábricas da Nova Inglaterra foram-se gradualmente protegendo e reaparecem no sul. Por meados dos anos 30, 75% das fábricas de bobines de fio da América estavam no Sul.”[iii]

 

Com a deslocação de investimentos da Nova Inglaterra para o Sul, a indústria dos têxteis e do vestuário tornaram-se empregadores muito importantes para muitos trabalhadores rurais e semi-rurais da Carolina do Norte. O complexo industrial de Kannapolis — primeiramente conhecido como Cannon Mills, depois como Fieldcrest-Cannon, finalmente como Pillowtex — foi o maior exemplo deste fluxo de indústria de norte para o sul. A sua história inicia-se precisamente há um século, com o lançamento da fábrica de James Cannon, em 1907, sendo esta a primeira fábrica de Kannapolis. Até ao seu encerramento, em 2003, era a fábrica que mais gente empregava na Carolina do Norte.

 

A indústria têxtil nasceu na Carolina do Norte, de facto, numa época de intenso debate sobre o comércio internacional. Antes da Primeira Guerra Mundial e da Depressão, apesar das elevadas tarifas americanas, o mundo da indústria era quase tão “globalizado”, como o é hoje, tendo como base o rácio do comércio internacional relativamente às estimativas do PIB mundial. Vê-se isto no ‘ilustre Ramires’, o herói do penúltimo romance de Eça de Queiroz, com a seu plantação em Moçambique, com o seu gabinete em mogno do sul da América, com o seu relógio chinês lacado, com os serviços de jantar em porcelana importados da Índia e do Japão. Os americanos são assim conduzidos para debates frequentemente intensos e emocionais sobre o comércio internacional, com os republicanos do nordeste e do Centro-Oeste — a dependerem dos grupos de pressão da indústria transformadora para a obtenção do suporte financeiro e organizacional — a defenderem tarifas elevadas, enquanto os democratas do sul, mais próximos dos interesses dos exportadores de produtos agrícolas defendiam tarifas baixas. Ida Tarbell num livro recente The Tariff in our Times utiliza todo um capítulo a descrever as políticas comerciais da época na indústria têxtil, citando o senador Aldrich do Maine (acerca de um debate sobre tarifas em 1908) no sentido em que a crítica das tarifas sobre algodão e têxteis em lã, situadas então entre 18% e 40%, eram “um ataque sobre a verdadeira cidadela da protecção e das linhas de defesa das indústrias americanas e dos trabalhadores americanos.”[iv]

 

Entre a Guerra Civil e a década de 30, Aldrich e os republicanos venceram a maioria destes argumentos. Na primeira metade do século 20, então, a indústria têxtil a Sul nasceu num mundo relativamente protegido, através de tarifas elevadas, bem como com elevados custos do transporte marítimo, sobretudo para as mercadorias volumosas, como os têxteis, e com o facto dos Estados vizinhos americanos serem relativamente subdesenvolvidos.

 

Se estas condições tiveram um grande efeito sobre os fluxos de investimento da indústria é muito difícil dizê-lo. Mas o que é certo é que nas últimas nove décadas, as fábricas de Kannapolis eram o centro da vida industrial da cidade, com uma população de 30.0000 pessoas, e também para a região de Babarrus County, com uma população de 131.000 pessoas.

 

Conhecido inicialmente como Cannon Mills pela sua família fundadora e, em seguida, como Fieldcrest-Cannon depois duma mudança de propriedade, em 1982, e finalmente como Pillowtex depois duma OPA, em 1997, até 2002, afábrica empregava 4.650 pessoas. Durante a década de 90, era a maior fábrica têxtil num conjunto de mais de 2.200 fábricas da Carolina do Norte em têxtil, vestuário e têxteis para o lar. Em conjunto, empregavam 286.000 pessoas, ou seja, cerca de um nono dos 2,6 milhões de trabalhadores do sector privado do Estado da Carolina[v].

(Continua)


[ii] Alexander Hamilton, Report on the Subject of Manufactures, reprinted in F.W. Taussig, State Papers and Speeches on the Tariff, Harvard University, 1892; reprinted by August Kelley, 1972, pg. 35. Itálicos no original.

[iii] Rivoli, Pietra, Travels of a T-shirt in the Global Economy, Wiley & Sons, NY, 2004 (edição portuguesa: As Viagens de Uma T-shirt no Mercado Global, Lisboa, Editorial Presença, 2006 (N. do T.)).

[iv] Tarbell, Ida, The Tariff In Our Times, MacMillan,NY, 1915.

 

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