O vínculo entre memória e poesia é antigo mas nem por isso alguma vez deixou de ser problemático. Impõe sempre repensamentos e um reposicionamento novos. De fato, a aliança que conjuga memória e poesia é remota, embora não necessite da procura absoluta de uma origem talvez definitivamente perdida. Poderíamos traçar, no entanto, alguns mapeamentos de inícios possíveis que nos ajudasse a captar a tensão sutil que se insinua no momento em que à memória procuramos dar uma forma, e uma forma tradicionalmente normatizada como a da poesia (sem entrar, aqui e agora, nos problemas diferenciais da lírica moderna).
O recuo não apareça motivado por uma teleológica procura de origens às avessas. De certo modo o que se sustenta é a persuasão de que é desde os começos –míticos- que se arrastam até o nosso tempo os nós nunca completamente destrançáveis desta relação complexa. Já na Teogonia de Hesíodo onde Mnemosyne é nomeada pela primeira vez, as musas por ela e por Zeus geradas proporcionam o esquecimento das dores e descanso nas tribulações (Mnemòsine, che quivi regnava sui campi Eleutèri:/ ed esse dànno oblio nei mali, e riposo dai crucci), o que motiva a invocação protocolar a elas na poesia grega arcaica. Mas é em outro terreno que se institui com força o eixo entre poesia e memória, uma vertente substancialmente outra do uso da memória em relação ao mito fundador da Teogonia, isto é, na mnemotécnica. Nela, a ars da memória – de acordo com a qual a ars deve ser entendida no sentido etimológico justamente de técnica- encontra na poesia uma forma de certo modo privilegiada para constituir o arquivo que é a função essencial da mnemotécnica (Assmann 2002: 29).
A poesia proporciona à memória um modo formular, pelo verso e pela rima, de conservação e transmissão do que modernamente chamaríamos a experiência que através de mecanismos sofisticados de repetição e variação confere uma forma -uma moldura- à matéria mnésica, fixando-a e configurando-a. A mnemotécnica então esclarece a conexão que se pode estabelecer entre retórica e memória a partir do elemento espacial, de acordo com a qual a memória é na retórica clássica um dos lugares para a articulação do discurso. A referência à mnemoténica e um outro mito que se relaciona ao surto dela como o de Simônide de Ceo (Cicero, De oratore) contribuem para esclarecer melhor outras conexões fundadoras como a da natureza cultual dos mortos que nela se inscreve, a possibilidade pela memória espacial do poeta de conferir os nomes às vítimas da catástrofe e portanto de podê-los enterrar e comemorar.
Portanto de localizar o morto e fazer o trabalho do luto, diríamos modernamente. É sempre a retórica romana que tece um novo fio entre memória e retórica, sobretudo pelo uso da imagem. Cícero, Quintiliano e a anônima Rhetorica ad Herennium elegem a memória como a quarta seção disciplinar da retórica de acordo com a qual para decorar um discurso é necessário construir uma combinação onde as imagens são colocadas em lugares (loci). E as imagens que alimentam a memória devem ser imagines agentes, ou seja, meios que provocam a recordação (Pethes, 2002: 349).
A poesia, assim, desde seus inícios, surgiria como uma forma mnemônica especializada que combinando som e imagem retém ou procura conter a dispersão e a perda do que de outro modo se dissolveria por inteiro. No mundo clássico esta afirmação possui algum sentido. Mas no momento em que a poesia se torna uma forma por excelência não mimética, aliás efetiva interrupção da mimese (Lacoue-Labarthe, 1986: 99) percebendo e não representando é claro que já a partir desta condição percebemos que a função da memória mudou substancialmente, de ars se tornou vis, do arquivo se passa para a recordação subjetiva (Assmann, 2002: 29).
Como pode ser pensada a relação entre a poesia como arquivo de “imagines agentes” e ao mesmo tempo forma intransitiva de um eu? São conciliáveis o aberto e o fechado das poéticas que se acumularam ao longo de uma vastíssima tradição? É verdade que a memória poética, mais relacionada com o campo da literatura, surgira de interseções entre ars poetica e ars reminiscendi estruturando uma enraizadíssima tradição, baseada na idéia de “formularidade” da praxe da citação, da “arte alusiva” (Conte 1974: 44-45) na época clássica e medieval. Mas, sobretudo, se diria agora, a memória poética articula em acordo, combinação, amálgama com a lírica moderna, configurações e formas efetivamente próprias que exigem sempre análises mais pausadas. Porque em jogo está o campo em que nós projetamos a idéia de memória poética.
Talvez por essas razões, e pela necessidade de uma síntese, seja mais oportuno pensar não só em termos teóricos na memória poética mas associar-lhe um caso que a torne mais imediatamente pensável. Este é oferecido por dois aspectos da memória poética que se associam à poesia da guerra colonial, um corpus textual muito amplo, ainda não delimitado, que provavelmente conserva rastos de experiências e memórias traumáticas como poucos outros documentos que se referem ao conflito. O objetivo destas considerações, de fato, é que a conjugação da memória poética com a lírica moderna, diria mais com a cultura não só erudita mas também de massa, repõe a poesia como um material fundamentador da memória contemporânea. Cujo efeito reconstitutivo, diga-se de passagem, remete justamente para as aporias do contexto pós 25 de Abril e a urgência de retecer uma memória comum largamente dilacerada e singularmente fragmentária.
No entanto, a questão é se uma reflexão sobre a memória poética tem possíveis elos em comum com a construção de uma memória cultural e sobretudo pública, considerando a tensão que marca a relação entre memória e poesia. O caso em jogo, o da poesia da guerra colonial aparentemente permite responder de modo positivo à pergunta. Define-se de fato uma dimensão cultural que cancioneiros que nasceram no âmago das Forças Armadas Portuguesas, projetam esta memória poética no âmbito dos quadros sociais da memória colectiva, assim como Maurice Halbwachs, Jan Assmann e Michael Pollak a discutem (Pollak 1989: 12-13). Por isso um eixo significativo com que articular a reflexão decorre do próprio século dos extremos, o século XX, onde a aporia da representação da experiência traumática se expôs de maneira dilacerante e o projeto de Aby Warburg que lhe foi por pouco anterior e remete diretamente para uma possibilidade de construir, a partir de imagens e de um excesso que pode ser traumático, uma memória comunitária que assimile a experiência singular e irredutível da dor. A memória “dos fantasmas”, como a define com uma figura interpretativa polivalente Georges Didi-Huberman (2006: 30) encontra no projeto de Aby Warburg, a partir de uma doutrina “energética” que remonta a seus estudos sobre a arte, em particular da Renascença como tempo “impuro”, vital e misto (Ibidem: 78), a possibilidade de fundar uma mneme social. As experiências traumáticas, assim como as orgiásticas, na mesma linha freudiana de Além do princípio do prazer, pela sua energia mnemônica, registam seu rastros na comunidade que as vive (Assmann, 2002: 411-412). Esta importante reconfiguração das relações entre trauma e memória coletiva, mediada por imagens (agentes, acrescentaríamos, de mediação da memória) que pode ser reativada inclusive na seqüência de contextos históricos variados, é denominada por Warburg “patrimônio de sofrimento” (Gedächtnis als Leidschatz) da humanidade (Ibidem: 411). Se assim for, na imaginação da memória poética, no seu ditado, é possível detectar uns rastros de um arquivo da dor que procura, às vezes com êxito outras vezes não, se tornar dizível. É este patrimônio que a leitura da poesia da guerra colonial tenta expor e valorizar. Pela contribuição que a sua reinscrição pode oferecer à memória comunitária.
(Continua)
Tendo aderido ao nosso blogue quando da sua constituição, o argonauta Roberto Vecchi apresenta hoje a sua primeira publicação.
Roberto Vecchi nasceu em Modena (Itália) e é professor associado de Literatura Portuguesa e Brasileira, e de História das Culturas de Língua Portuguesa na Universidade de Bolonha e professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Milão.
Em Bolonha, é professor do programa de doutoramento em Iberística, coordenador científico do Centro de Estudos Pós-Coloniais (CLOPEE) desta Universidade e coordenador da Cátedra Eduardo Lourenço.
No Brasil, é pesquisador do CNPq, e em Portugal é investigador associado do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, onde participa em investigações sobre a representação da guerra colonial.

