(Continuação)
Crianças que aprendem com os outros. Mas, nós adultos, orgulhamo-nos de pensar e dizer quanto transferimos do nosso ego para os nossos filhos. Sem reparar o contexto dentro do qual esse outro, o filho, abaliza o nosso saber. De certeza há a idade onde os pais são a primeira e última palavra…. parece-me. Para pais e filhos,… parece-me. E o médico, e os primos, e os avós, e os filhos dos amigos, e esses mesmos adultos amigos dos pais? As histórias, os brinquedos, a música, a situação económica do lar comparada à economia das outras famílias, parentes, vizinhos e amigos? Não é destemido dizer que a aprendizagem é sempre social.
Não é destemido dizer que a criança, desde o dia do seu nascimento, é uma entidade social. Mal saem dos nossos corpos, esses pequenos são já um bebé social, porque pertencem ao mundo dos pais e das suas famílias. Vão vivendo com eles o pensar, o dizer, o sentir. As formas de agir entre milhares de pessoas a povoarem os dias da vida. É o adulto que tem a tendência a guardar a criança para si. Com amor, com orgulho, com um sentido estrito da disciplina, com um sentir estrito de posse sobre o pequeno. Posse que nasce do amor que um progenitor, isto é, um gerador de vida –, sente, pelos simples facto da legislação entregar a criação dos mais novos, aos seus adultos, desde que não abusados por violência doméstica.
A lei manda um estado de inocência nos menores de sete anos, uma responsabilidade até penal pelos delitos que os mais novos possam cometer, entendam ou não o que fazem. Posse que esses pequenos nos ensinam que não existe: apenas a obrigação do adulto indicar que o dinheiro dos outros, aos outros é que pertence. Medite o adulto como a criança é sabida, até ao ponto de reclamar pelo que a desgosta ou de gritar pelo que deseja e que o adulto estima não deve ser atingido ou, o adulto entenda, que há uma contenda, um debate entre ele e o mais novo, para impedir lesões corporais e emotivas. O papel dos pais é o de serem mestres da vida. É a outra oferta que a pequenada nos entrega: não serem mimados, mas docemente orientados e saberem ouvir com serenidade a agitada gritada que produz a frustração de querer atingir um objecto ou um presente, não obtido. Reflexões faladas de adultos para saber que o amor evidencia-se no amparo da pessoa pequena que tem os seus próprios objectivos retirados dos recursos do lar e da forma que os seus adultos os usam. A oferta é a paciência de sermos a trave mestre entre o social e o indivíduo que começa a entender.
3. Terceira lição: pai, quero saber.
Trave mestre. Transferência da experiência de vida. Explicador carinhoso da interacção com outros. Para começar, com a mesma família dentro da mesma casa, com os irmãos os melhores rivais que a vida entrega a um ser humano. Especialmente, se são irmãos de género e idades diferentes, ou mais preferidos pelos adultos a viverem por perto. O adulto deve entender não ser um modelo para o agir do pequeno, apenas uma indicação. A arrogância da vida adulta é agir como corrector de provas dos que estão a experimentar o quotidiano. Arrogância nascida dessa entrega, acima mencionada, que a lei faz dos mais novos, ou que o amor e a paixão entre dois, geram. O adulto dentro do lar é a pessoa mais amada e temida que um ser novo pode ter. Porque não ensina: corrige. Castiga. Desorienta. Diz amar e esquece. Queira o adulto ou não. Os seus objectivos de vida passam a ser mais importantes que educar a sua descendência de forma harmoniosa.
Educação estimada como dever e não como parte do objectivo da vida adulta. Objectivo complexo ao envolver o entendimento do contexto dentro do qual os seres gerados e criados, vivem. Contexto estendido para além do lar e reflectido dentro do lar. Apenas com esta lição, a criança, já adulta, é capaz de dizer depois como é importante saber o sentimento do outro e respeitar esse sentimento para não ferir. Apenas uma criança orientada e não possuída, é capaz de ser um adulto jovem que ensina ao adulto maduro a importância de não falar demais, de não dizer o que a outra pessoa não entende. Lição difícil de aprender: é bem mais fácil, tenho observado, gritar, bater, ignorar, fechar-se nos deveres do trabalho fora de casa, com a justificação de ser esse o trabalho que alimenta a descendência.
(Continuação)

