38 – BLOGOCONTOS – Taxi driver – por Rui Além

Rui Além descreve-nos em “Taxi driver” um diálogo com um taxista – usou 3353 caracteres:

 

O taxista estava falador, como sempre são os que me calham.

 

Começou certamente pelo seu tópico preferido: “Já viu esta pouca vergonha? Malandragem! Um Salazar não chega. São precisos dez!” – gesticulava, e ao mesmo tempo que manifestamente se exibia, exalava também aquela ânsia pedinte de aprovação que quase somos forçados a conceder, por pena.

 

Era porém demais. Contrariei-o: “Mas o senhor viveu no tempo de Salazar?” Encolheu os ombros. Era novo demais para isso.

 

Fui então mais incisivo: “Sabe decerto o que era a PIDE, a censura, a guerra colonial, a pobreza nesse tempo?” – também não podia ir muito além do normalmente mais consensual.

 

“Ora, meu caro eng.º” – volveu com voz cava e um ar de quem sabia um segredo a mim insondável – “isso são patranhas dos comunistas… o Sr. sabe que na Rússia…”.

 

Já não ouvi o resto. Concentrei-me no som das fortes rajadas de chuva na vidraça do carro. Deixei-o perorar.

Adiantará discutir com quem é dono das certezas? Esbocei só uma abordagem pessoal: “Sabe que eu tive parentes presos?  Outros morreram na guerra…”

 

Começou a convencer-se que eu era um perigoso subversivo. Pela minha idade, via-me já bombista, desertor, bolchevique.

 

O dia era chuvoso. Pesava sobre nós cinzento engarrafamento. Eu condenado a aturá-lo. Tenho pouca paciência para polémicas. Salvou-me um calafrio, seguido de canoro espirro.

 

Remédio santo. Mudou a agulha:

 

“O eng.º está constipado? Olhe – advertiu, solene – , é preciso cuidado com isso…”

 

E começou a desfiar o rosário das  doenças. Menos mal. Os Portugueses têm permanente concurso nacional de doenças: cada um quer sempre estar mais doente que seu vizinho.

 

Depois de desfiar basto currículo de maleitas, o taxista louvou os serviços de grupos médicos privados, em que se pagaria muito pouco, com direito a atendimento quase gratuito de dia e de noite; era a noite que o comovia.

 

Condoído com a pouca sorte dos jovens esculápios, obrigados a andar pela cidade numa roda viva, em feias tempestades e negrumes, narrou então a sua última boa acção:

 

“E então, eng.º, está a ver… O pobre rapaz receitou até umas coisas boas para a minha filha… Isso fiquei a saber depois… Na altura não sabia… Mas coitado do rapaz… Eram 3 horas… Da manhã, pois… E eu fui à carteira…. Não é que precisasse… E amarfanhei uma nota grande na mão… Que eu sei como se faz… Já fui porteiro… E ali lhe disse, como fazem os senhores, com nota amarfanhada e tudo: Tome, tome lá para uma cerveja!”…

 

Fiquei a meditar no que diria disto a minha boa avó Emília, que foi quem primeiro me ensinou a etiqueta e a liberdade que sei. Mudam-se os tempos…

 

Movido pela curiosidade, perguntei-lhe o que tinha dito ou feito o médico. Queria tanto que ele tivesse tido coragem de pregar um sermão de boas maneiras… mas bem sei que hoje todos se demitem de ensinar. Dá trabalho, e pode causar dissabores.

 

O homem respondeu prontamente, algo intrigado com pergunta tão tola:

 

“Agradeceu-me, pois então!“

 

Pobre médico. Pobre médico. E já não deve tardar que outros profissionais, digamos, liberais, venham a ser presenteados com cervejas igualmente amargas.

 

Sobre a minha secretária, este quadro a óleo da avó Emília lembra-me o seu charme… e a sua simplicidade de Mulher livre. Era uma simplicidade com regras. Equilíbrio raríssimo. Coisa que os Salazares nunca entenderão.

Quando gratifiquei o taxista, senti que estava a segui-las. A um taxista, mesmo meio fascista, pode-se, e até talvez mesmo se deva, gratificar. Não amarfanhei nota: disse só para guardar o troco. Resmungou um rouco obrigado.

 

E eu saí e respirei fundo, elevando o pensamento à memória da minha sábia avó, que conheceu as prisões do ditador. Como faz falta! Como fazem falta essas avós, que não deixaram sequer profissão, nem obra. Mas que se ouvem pelas salas em seus acordes ao piano, vivem nas arcas dos enxovais que bordaram, e sobretudo deixaram gravadas nos corações a ordem e a liberdade que semearam: entrelaçadas como nos seus lavores manuais.

 

           

 

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