NATAL, O PRESENTE DAS CRIANÇAS: LIÇÕES (4) – por Raúl Iturra

(Conclusão)

 

4. Coda final: pai, eu dou.

 

Descendência que é, colegas pais, o nosso melhor carinho, o nossa melhor aprendizagem, o nosso melhor amor. A paixão entre adultos acaba, o amor pode-se partir, o carinho pode ficar à distância. Mas, o amor pelos filhos, continua se entendermos que aprendemos deles tanto e quanto eles de nós. Como Etnopsicólogo – parece duro dizer, mas é verdade -, as crianças dos nossos filhos é a nossa observação participante da vida. Aprendemos delas as formas de crescer e entender o mundo e as ideias que dessas cabeças, nascem ao ritmo da aprendizagem.

 

É a oferta de Natal que, nos meus anos, os meus filhos me fazem: acompanhar, entender, aceitar, mostrar como a vida é diferente entre a geração deles e a nossa, como a nossa juventude não é elo nenhum para a experiência da juventude deles. Nós, maduros já, precisamos aprender que tornamos a estar sós no crescimento das crianças e na sua conversão em adultos que opinam, ouvem, calam e apenas dizem se for conveniente para esse adulto (que já não muda) entender.

 

As crianças passam a ter as suas vidas autónomas depois de terem tido vida independente no calor da orientação dos pais. Eis o prazer da vida, sermos acompanhados por uma juventude adulta capaz de entender as desorientações dos adultos que sonharam ser os proprietários dos pequenos, os seus corregedores e não apenas os seus orientadores. É o que agradeço à minha descendência que já vai no quarto neto. Não é a neta o presente de Natal, são as formas de entender o mundo, o que me orgulha neles. E não apenas dos descendentes consanguíneos, como de todos os que tenho adoptado ao longo da vida, enquanto trabalhava com eles para entender a criança e assim entender a interacção social. Feliz Natal, filhos!

 

Feliz Natal, colegas pais! Obrigado pelo presente de serem adultos que entendem e acompanham sem passarem os limites da minha intimidade e da intimidade deles. Descendência que vive em todos os cantos do mundo pelo qual tenho andado a observar a vida através dela. Obrigado pelo lindo presente, materializado nesse dia precioso quando esta minha filha me levou no meu carro, conduzido por ela, entre Mafra e Ericeira, para assim ser eu a ter o sabor de observar a paisagem do entardecer e não estar sempre subordinado a ter que dar-lhe prazer a ela. Essa filha que se orgulhou de ouvir um pai, o seu, proferir uma conferência sobre crianças e teve a humildade de dizer o que tinha apreendido além do amor paterno-filial.

 

Essa intimidade que apenas os filhos orientados e não subordinados, são capazes de dizer, com um sorriso bondoso e de carinho na linda cara jovem de quem conduzia o meu carro. Senti-me completo. Tal e qual a sua mãe também se sente. Com essa filha orientada, tal e qual a outra, nascida no Dia de Reis, faz já trinta anos. Tal e qual me senti completo quando a minha estudante perguntou porque estudava eu crianças. Ana, é porque sou pai! E não Pai Natal. Apenas um pai a apoiar com o meu comportamento, penso. A menina que pensa e aprende.

 

Bibliografia.

 

 Este texto foi escrito ao som do voo do avião que levava de regresso a minha filha a sua casa na Grã-Bretanha. Texto também retirado dos meus Diários de Trabalho de Campo e de meu Diário Pessoal. Bem como de: • Iturra, Raúl, 1996: (Organizador e autor) O Saber das Crianças, ICE, Setúbal. •1997, 1ª edição; 2007, 2ª Edição: O Imaginário das Crianças. Os Silêncios da Cultura Oral, Fim de Século, Lisboa. •1998: Como era quando não era o que eu sou. O crescimento das Crianças, Profedições, Porto. •2000: O Saber sexual das crianças. Desejo-te porque te amo, Afrontamento, Porto. .2008: O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade, Repositório ISCTE-IUL •Murray, Lynne E Andrews, Liz, 2000: The Social Baby, CP Publising Richmond, Surrey, Grã-Bretanha. •1999: The Children’s Project, CP Publishing Richmond, Surrey, Grã-Bretanha. •Opie, Peter E Iona, 1988: The Singing Game, Oxford, Grã-Bretanha. •2000: Babies An Unsentimental Anthology, John Murray, Londres. •Vieira, Ricardo, 1998: Entre a Escola e o Lar, (1992), Fim de Século, Lisboa. •Sampaio, Daniel, 2000: Tudo o que temos cá dentro, Caminho, Lisboa.

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