(Conclusão)
Estamos, como se pode perceber, numa dimensão diametralmente oposta à da poesia confessional ou imediata. A poesia, nestes termos, não poderá representar algo que se perdeu definitivamente, e sobre este elo negativo da poesia e da representação é oportuno lembrar como, para uma certa vertente da lírica moderna, a poesia está desprovida de qualquer capacidade mimética e a sua possibilidade de representação se pode articular só a partir de uma interrupção da arte, de um bloqueio do poético, do elo com a tradição (Lacoue-Labarthe, 1986: 99-100). O exemplo da poesia de Bação Leal, julgo eu, expõe concretamente o que sintetizei em termos mais teóricos ou abstratos. É em função do seu esvaziamento, da sua dessubjetivação que se pode tornar supérstite e é pela sua falta, pela sua insuficiência, que desvenda um mecanismo bem mais complexo, este sim que remete, ainda que pelo negativo, para os mecanismos do testemunho.
A poesia de Bação Leal chega a nós não só pela sua potência de língua morta que sobrevive à morte do sujeito, mas porque ela terá lugar só como voz (estranha, bárbara, alheia) que se situa num outro falante, num outro autor. O seu inestimável mérito é o de mostrar como ao lado do que acima chamamos de “material em forma de poesia” (no sentido que possui um valor predominantemente documentário) e da poesia dos autores canônicos da guerra colonial (e o tópico da guerra invadiu o cânone horizontal e verticalmente e o modificou), temos um terceiro segmento importante que é das –diria- “poéticas em potência”. Neste, pelos mecanismos da poesia, de dessubjetivação e perda de qualquer pretensão de “real” (que é o modo da sua salvação residuária), um ato de autor é necessário para a transformação da potencialidade em poesia tout court. Sem este, a poesia extraordinária de Bação Leal não “teria lugar” e neste caso o ato de autor é a sua reunião em um volume justa e duplamente, no sentido próprio e figurado, “póstumo”. Assim como um ato de autor é indispensável para construir, praticamente do nada –um livro de poemas e cartas, um nome no memorial dos ex-combatentes, outros, poucos, rastos da memória- o documentário de 2007 de Luísa Marinho, Poeticamente exausto, verticalmente só (título retirado, uma vez mais, não de um verso mas de uma carta de Bação Leal).
Se é verdade que na obra de José Bação Leal encontramos uma representação de todos os três segmentos poéticos, é sobretudo a contribuição para a identificação do segundo que esta obra –pelo seus limites que são os limiares da sua força crítica- se caracteriza, evidenciando a necessidade de pensar a poesia da guerra colonial dentro de esquemas mais complexos, não em função de uma axiologia dualista, poético/não poético, aliás de aplicação absolutamente impossível.
No entanto, falar de uma exegese da voz póstuma e da língua morta, aumenta a complexidade crítica, porque, como creio Bação Leal não ignorasse, há um risco no ato do outro autor de trair as poéticas potenciais, o que leva o problema para o terreno ético, tal como na aporia da testemunha. Há, de fato, numa carta a Francisco, de Luanda de Novembro de 1964, uma indicação peremptória e lúcida: “Fechado o cerco, sabes de alguém que me liquide? Kid: se (eu) morrer em África (voluntária ou involuntariamente) não permitas –aqui deixo expresso esse desejo- não permitas a utilização do meu nome por quem quer que seja. Em vida só, na morte ainda mais só, até ser a permanente ausência de tudo” (Leal 1971: 80).
Uma atitude cultual e cultural perante o horizonte da morte é o que permite salvar da perda esta permanente ausência que é o lugar da poesia, do seu impossível real. Mas nesta falta e neste oco, encontra também a possibilidade de resgate, do tempo e da experiência, de algo que talvez como poucos outros objetos represente o que foi a resistência ao horror e à deshumanização brutal: fazer poesia em tempo de guerra (colonial): “Ainda estou vivo, dentro desta morte, é claro” (Leal 1971: 111). É portanto a nossa possibilidade de leitura desta poesia que salva o rasto de experiência da perda inexorável restituindo-lhe o lugar. Assim a memória poética se pode tornar não mero jogo de citações e intertextualidades mas a base permeável para o reconhecimento mais amplo e compartilhado de um passado que escoa e não se deixa prender. Uma memória poética que se pode tornar o pressuposto decisivo para fundar, a partir das impossibilidades, o pressuposto não de uma obra mas de uma memória comum, permitindo assim enterrar definitivamente os mortos – como se diz num verso famoso- “que a memória desenterra” (Alegre 1995: 159).
Referências
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