Desindustrialização, Globalização. Uma hipotética “aula teórica” feita para um antigo aluno meu, agora super ministro – I. Por Júlio Marques Mota

 

 

Iniciamos hoje a terceira série de post’s sob o tema em epígrafe com o pormenor de que esta série é dedicada a um antigo aluno meu, Álvaro Santos Pereira. Posso ter sido muito mau professor, não me incomoda, admiti-lo, com a certeza de que fui e fiz sempre o melhor possível, mas custa-me a admitir que alunos meus se tenham esquecido de tudo o que por esta casa, a minha antiga casa, a Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, aprenderam e se portem como este meu antigo aluno Álvaro Santos Pereira, hoje de super ministro apelidado e de ignorante agora bem considerado. Por todos os outros seus colegas de antes e de depois, por todos os professores que como eu o ensinaram e com ele conviveram num tempo em que até servi de interface para a aquisição de livros para ele agora se mostrar que o que deles leu se esqueceu ou nada aprendeu, por todos nós afinal, sinto vergonha pela falta de saber que ele anda a evidenciar, sinto uma certa raiva nos dentes até. Mas fui professor e, entendo que é sempre altura de se voltar a aprender o que o neoliberalismo a cada um roubou ou o que por comércio ou por dinheiro até, cada um dos esquecidos a este entregou e é pois a este ignorante agora bem evidenciado que refaço para um blog uma “teórica” aula de teoria do Comércio Internacional, que naquele altura lhe dei e de que ele também claramente já se esqueceu.

 

Esta série de post’s terá seguinte sequência:

  1. Aula sobre David Ricardo a Álvaro Santos Pereira dedicada
  2. Texto sobre Paul Samuelson, sobre a sua estatura como docente, um texto de Henri Bourguinat
  3. A China na Europa, da cidade de Prato na Itália à SAAB na Suécia – uma série de textos
  4. Crescimento e produtividade – um texto para Álvaro Santos Pereira ler a Passos Coelho – um relatório da McKinsey
  5. Competitividade dos territórios e estratégias de localização das empresas, um texto de Jean Gaffard
  6. Deslocalizações destroem o dólar, um artigo de Paul Craig Roberts, antigo subsecretário de Estado e encarregado da política económica da Administração Reagan
  7. Um olhar sobre o mundo do trabalho na China no quadro da economia global

A teoria de Ricardo do comércio internacional mostra, mas sob muitas e rigorosas hipóteses, que há sempre vantagens em que os países se abram ao comércio internacional, por outras palavras, as palavras de agora, que se abram aos benefícios supostos da globalização. A partir daqui os neoliberais, ignorando as restrições de base que em Ricardo estão contidas, fazem das vantagens ilustradas por este grande clássico da economia, as vantagens da globalização, quando o mundo de hoje com as hipóteses subjacentes à globalização em nada tem a ver, mas mesmo nada, com o mundo a que se refere o teorema de Ricardo. O discurso dos neoliberais consiste pois numa enorme mistificação que ao longo das nossas aulas temos sempre demonstrado. O senhor ministro da Economia foi meu aluno e é um pouco destas matérias que lhe venho agora expor, lhe venho agora relembrar, para que se perceba bem o que é isso de estar nos mercados, de ter acesso aos mercados. Quanto aos mercados financeiros, estamos bem entendidos depois do meu texto último sobre os mercados financeiros.

 

Um outro olhar sobre uma outra mistificação sobre a economia real, tomando como ponto de partida o grande economista David Ricardo é o que aqui vos deixo e ao senhor ministro lhe lembro que bem acompanhado sigo neste percurso, acompanhado por Paul Samuelson e Maurice Allais.


Ricardo fornece a explicação para a existência do comércio internacional e mostra ainda que haverá sempre ganhos com passagem da economia fechada a economia aberta, isto é, com o comércio internacional, qualquer que seja a posição de partida dos dois países em termos de competitividade, mas isto no quadro rígido de um conjunto de hipóteses directa ou indirectamente assumidas. No caso em questão, um país pode produzir tudo a custos mais elevados e mesmo assim ter vantagens em entrar em comércio internacional, um país pode produzir tudo a custos mais baixos e mesmo assim ter vantagens em entrar em economia aberta com o anterior. Mas, uma coisa é haver aumento da produção a nível mundial quando os países passam a estar em economia aberta e especializados e outra é a repartição dos ganhos, quer pelos países, quer pelos agentes dentro de um país. Aqui, Ricardo não dá nenhuma explicação para a determinação dos preços internacionais e para a repartição dos ganhos havidos, remetendo a sua determinação para o jogo da oferta e procura que não funciona com as mesmas normas de economia fechada. No entanto, no seu exemplo numérico considera que os países participantes nas trocas têm igual dimensão económica e iguais preferências de consumo e daí igual repartição dos ganhos.


Mas a melhor forma de perceber David Ricardo será explicar a existência de comércio internacional através do seu exemplo numérico.


Sejam dois países, Portugal e Inglaterra, a produzir dois agregados de produtos, vinho e tecido, ou seja, agricultura e indústria, com a seguinte estrutura de custos, em horas de trabalho utilizadas para produzir cada unidade de produto:

 

 

Vinho

Tecido

Portugal

80 horas

90 horas

Inglaterra

120 horas

100 horas

 

Curiosamente Portugal é no seu exemplo mais produtivo, em ambos os produtos. Curiosamente Ricardo coloca a Inglaterra com uma produção que aí não existia. Dito de uma outra forma, ele queria convencer a burguesia ascendente na Inglaterra a desproteger a agricultura, entregá-la a Portugal, e tratava-se, portanto, de escolher um produto emblemático. A relação de custos no vinho é de 8/12, ou seja, por cada hora de trabalho utilizado na Inglaterra, Portugal precisa apenas de 8/12 da hora para produzir a mesma coisa. Um ganho por hora, gasta na produção do vinho na Inglaterra, uma economia por hora em Portugal, no montante de 4/12. No tecido, a relação dos custos é aqui de 9/10, ou seja, por cada hora de trabalho de trabalho gasto na Inglaterra, em Portugal para produzir a mesma coisa é apenas necessário utilizar 9/10 da hora, logo há aqui uma economia de 1/10 da hora. Como evidentemente 4/12> 1/10, então há em Portugal ganho nas duas produções, mas por hora de trabalho o ganho é então relativamente maior na produção do vinho que na produção do tecido. Portugal tem então vantagem absoluta nas duas produções, cada uma é produzida a custo mais baixo, mas tem relativamente maior vantagem na produção do vinho e diz-se então que, do ponto de vista relativo, Portugal usufrui de uma vantagem relativa ou comparada na produção de vinho, ou ainda que Portugal tem relativamente maior vantagem absoluta na produção do vinho, expressões todas elas equivalentes entre si.


Inversamente pelo lado inglês. O rácio dos custos no vinho é 12/8 ou seja por cada hora de trabalho de Portugal (o trabalho de Portugal está agora em denominador) a Inglaterra precisa de gastar 12/8 da hora, ou seja, um gasto superior em 4/8. No tecido a relação dos custos é de 10/9 a afirmar que por cada hora de produção gasta em Portugal no tecido a Inglaterra precisa de 10/9 da hora para produzir a mesma coisa, ou seja, um gasto adicional de 1/9. A Inglaterra tem desvantagem absoluta nas duas produções, pois o vinho e o tecido são aí produzidos a custos mais altos, mas como 4/8> 1/9 então o gasto é comparativamente maior e a Inglaterra tem desvantagem absoluta nas duas produções, mas tem relativamente menor desvantagem absoluta no tecido, a que se diz também que o tecido é o bem onde tem menor desvantagem comparada. E a Inglaterra especializa-se então em tecido.

 

(Continua)

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