(Transcrito, com a devida vénia, do Editorial Nº67/68 – 2010 da revista Finisterra)
“Gostei do discurso Nobel de Obama porque reconheceu que era um guerreiro e não um pacifista disfarçado”
Miguel Esteves Cardoso, Público, 13/12/09
A cultura americana herdou das suas origens protestantes um messianismo estrutural. Raramente este sonho messiânico terá tido uma expressão tão espectacular, no limite do delírio – sobretudo aos olhos de uma Europa desiludida de utopias – do que com a eleição de Barack Obama. Como se o mundo tivesse vivido essa eleição como coisa própria. O fenómeno foi tão mais extraordinário que essa América estava então – e continua – atolada no Afeganistão como um mau remake do Vietname. Também isso influiu na campanha, particularmente feroz, que levou Obama ao poder, como se através dele a América exorcizasse ao mesmo tempo os dois maiores pesadelos do seu passado – o do esclavagismo nunca sepulto no seu inconsciente, apesar de uma guerra civil mal terminada – e sobretudo o de um imperialismo de tipo novo (democrático) assumido como missão redentora do Ocidente desde o traumático ataque às Torres. Por tudo isso, a triunfal vitória de Obama representaria a mais libertadora das vitórias da América sobre a América e o anúncio de uma era nova, não apenas para ela mas para o mundo de que é desde Hiroxima e a queda do Muro de Berlim a única potência hegemónica. Subitamente, como num golpe de magia, a ex-América de Bush, herdeira de um imperialismo de total boa consciência, pelo menos depois de Pearl Harbour pelo qual pagou um altíssimo preço, pareceu recuperar a sua virgindade democrática.
A um ano de distância do momento solar Obama, a tentação de ironizar sobre tão desorbitada leitura do fenómeno – Obama-engano nosso, filho ao mesmo tempo da nossa paralisia europeia e do ressentimento que nos suscita – é inevitável, mas seria mais absurda e estéril que a nossa euforia de há um ano. Obama não tem culpa – ou tem sobrados motivos – para nos ter decepcionado, desiludido ou mesmo “traído” não exemplificando, como se exigiu logo dele, que fosse o “Jesus negro da História”, ou, pelo menos, o Messias de que o Ocidente precisa para sair da era de um terror indiscriminado. Tal foi o diagnóstico aberrante com que uma América em pânico concebeu exorcizar cruzando-se e urbi et orbi contra o nebuloso Império do Mal encarnado por um monstro digno de Hollywood, Ben Laden e a sua corte de desesperados místicos por conta de um Islão promovido, graças a ele, e a uma discutível leitura do que está em causa e que ao fim de nove anos se disseminou e ao mesmo tempo se adensou. Foi deste “monstro” da era Bush que a eleição de Obama pareceu capaz de nos libertar, libertando uma América perdida no neo-Vietname sem pano de fundo de guerra fria e libertando, ao mesmo tempo, um Ocidente envolvido nela à força ou a contra-gosto.
A boa vontade de Obama, o talento pessoal de Obama a sua visível “humanidade” no menor dos seus gestos, sobretudo pelo contraste da era Cheney e seu imperialismo impiedoso, como está na natureza dele, não nos podem iludir. Só para a Europa a eleição de Obama foi um acontecimento radioso. Na ordem interna, nos Estados Unidos profundos de que foi eleito presidente, os dados políticos, culturais, a luta implacável de interesses que aí se jogam, a própria mitologia ideológico-política da América como espaço de “livre empresa” – e isto não é retórica como o pode ser na Europa – são o “dado” não só com o qual um Presidente deve contar, mas não pode infringir. Uma promessa tão óbvia e tão incontestável na óptica europeia como uma política de saúde digna de uma democracia moderna pode ser vista aí por uma grande parte das forças monopolistas que a enquadram na América como um atentado ao direito de a resolver a título privado, ideal quase religioso da América pioneira. E assim, em todas as ordens. A América salva das águas pelo Messias-Obama que os europeus idealizam não existe ou existe de outra maneira. Nesse capítulo como no mais decisivo da política mundial herdada da era Bush, Obama teve de navegar à vista e à vista continuará a navegar. Mesmo em assunto, à primeira vista mais universalmente consensual, como o do aquecimento global, a sua atitude discreta em Copenhaga desiludiu. Começam a caricaturá-lo como um novo Jimmy Carter, samaritano simpático mas político irresoluto, o que, visivelmente, Obama não é. A perspectiva jornalística no Ocidente compraze-se demasiado no “fait divers” do homem-Obama, na sua “psicologia”, etc…
Mas um homem político, mormente aquele que encarne a maior potência do mundo não é um “simples homem”. E a América como História – como histórias – e para quem, como ele, parecia ter o destino da “excepção” e não da “regra”, como qualquer outro presidente WASP, e não há paradoxo nisso hoje, nós europeus, podemos, pelo menos, compreender a dramática situação de um Presidente de boa vontade, cerceado na sua vontade de paz pelo peso de uma nação mobilizada no mundo e pelo mundo desde o final da segunda Guerra Mundial numa fuga para a frente que parecia irresistível, mas de que só a América que se reconhece nele será capaz de ajudar a sair sem danos mortais para ela e a paz do mundo, do mais “duvidoso combate” que até hoje se lhe deparou. A reticência europeia – a começar pela inglesa pode ajudá-lo, mas sem ilusão. A Europa mal existe vista da América e de uma América que a si mesma mal se vê, não só por ser complexa e autista, como todas as potências no auge das suas hegemonias, mas por estar longe de resolver a sua tragédia original de que a emergência salvífica de Obama se desejou – ou nós por ele – a conclusão mais auspiciosa. Salvemos o soldado Obama, nós que já não salvamos ninguém, mas cujo destino está ligado ao da América, tal como é cruzada em nosso nome contra um terror ao mesmo tempo real e fantasmado, mas com capacidade e meios aos olhos de um mundo ocidental, incapaz de assumir o papel do Samaritano da nossa História, confrontada com a tragédia pura. Como a do Haiti, entre outras.
(Vence, 16 de Janeiro de 2010)
