O Diário de Bordo do nosso “Argos” aborda, no dia 25, uns dos dias das festas milenares de celebração do solstício de Inverno – tenham elas sido dedicadas a Saturno, a Apolo, ao Deus-Sol ou, mais recentemente, desde o século IV dC, ao nascimento do genial mas ingénuo filósofo Jesus de Nazaré – o escândalo da riqueza dos potentados de uma das religiões fundadas precisamente sobre a bem-intencionada doutrina – habilmente adequada à sua circunstância histórica – deste último personagem.
Concordo com o texto, na sua generalidade. Encontrei nele, no entanto, uma referência a certas correntes de análise histórica, de que discordo, que atribuem ao “facto de luteranos e protestantes em geral assumirem uma posição diferente quanto aos benefícios da pobreza (…) o motivo por que os povos mais atingidos pelas ideias da Reforma têm melhores situações económicas”.
Trata-se de uma hipótese cujas justificações nunca me convenceram… mas que tem iludido muita gente, pela sua aparente simplicidade, o que me parece um bom motivo de reflexão.
Considero que será uma proeza intelectual alguém conseguir distinguir – na ocidental caminhada de séculos do capitalismo, desde a sua “teorização smithiana”, ou no vertiginoso percurso oriental, partindo da aplicação das mesmas receitas e filosofices a sociedades feudais – qualquer diferença de perspectiva, em relação à pobreza e à exploração dos seus semelhantes pelos donos do dinheiro (sempre, em última análise, roubado), baseada em crenças religiosas.
A leste, sobretudo no seu extremo, também há testemunhos escritos e fílmicos, mas o fenómeno é tão actual que não precisamos de sair da nossa poltrona na plateia para mergulhar no cenário, ainda que continue a manter-se, à revelia de leis que não funcionam, o sistema hindustano de “castas”; e noutros lugares, os resultados práticos sejam muito próximos, embora os fundamentos divirjam: um servo da gleba é-o em qualquer parte, mesmo se o designam por outros nomes.
Quanto ao ocidente, direi que não distingo, substancialmente, o que narra Dickens do que conta Zola, que refiro porque são dois dos mais relevantes exemplos literários de denúncia do modo como o sistema se “desenvolveu”, paralelamente – no que a este tema se refere – em países dominados por seitas cristãs diferentes…
Que a igreja católica acrescentou, à impiedade visceral dos seus “ricos e queridos crentes”, um estilo – faustoso, exibicionista e de bom passadio da sua hierarquia – peculiar, é um facto: mas que só pesa na gravidade dos “pecados contra a Humanidade” de tal hierarquia. Que as outras “igrejas cristãs” tenham procedido de modo significativamente diferente, no que se refere às desigualdades sociais, em idênticos períodos históricos, foi coisa em que nunca reparei, nas minhas viagens (sempre críticas) pelos livros de História…
As excepções serão algumas seitas de fanáticos que prezam muito a “simplicidade” e a “frugalidade”, mas não se livraram de praticar actos estúpidos (todo o fanatismo é estúpido, aliás), como perseguições de “bruxas”e outras tropelias, e de continuarem a inventar as mais inesperadas e “criativas” maneiras de uma qualquer hierarquia dispor, dentro da sua comunidade, de quem possa subjugar e maltratar – jovens, mulheres, crianças… – e também de limitar arbitrariamente a liberdade individual e a expressão de qualquer pensamento que se afaste das suas “verdades”. Coisa que, de resto, identicamente se aplica aos maometanos, em geral.
O que se passou no Norte da Europa tem, em minha opinião, muito mais a ver com teorias filosóficas, sociais e políticas que assustaram os “bons burgueses” lá desses sítios, pelas movimentações populares que desencadearam: o resto vem, como se sabe, de mudanças de mentalidade que se entranharam, por hábito (o que já não é mau!), nessas sociedades. Mas também por lá há tipos chatos, como o Bergman, que se encarregaram de nos indicar os rastos dos inquietantes dias que viveram ou a que, pelo menos, assistiram na sua infância, últimas manifestações relevantes dos constrangimentos ideológicos e da miséria generalizada por que também estes povos passaram.
Acresce que – infelizmente – estas coisas nunca se “entranham” com satisfatória profundidade: veja-se a ascensão, em vários desses países, do apoio “popular” a partidos de extrema-direita e como facilmente estes conseguem infiltrar em demasiados cidadãos ideias e atitudes que chegámos a considerar ultrapassadas, como a xenofobia e o ódio aos imigrantes; e cultivar uma insidiosa e sempre latente tendência dos seres humanos para encontrarem “óptimas” e, sobretudo, “inteligentes” razões para se sentirem parte de uma qualquer comunidade ou etnia “superior”.
Ainda no que se refere aos países nórdicos (e não só), houve, em determinada altura, creio eu, a frutuosa conjugação de dois factores: a construção e manutenção de instituições sindicais e partidos de base proletária muito fortes (estes não raro com raízes naquelas) com a “cagufa” das “elites do dinheiro”, por causa daquela coisa do “fantasma que assombrou a Europa”, que acho que teve algo a ver com um tipo chamado Marx. O que muito os ajudou a trilharem um caminho que (ainda) nos surge como mais humanizado.
Mas tudo isto é consequência de influências basicamente políticas, não religiosas. Se a existência de indivíduos íntegros, em geral pisoteados pelas hierarquias, tem sempre um papel, por ínfimo que seja, na tarefa de tornar o Mundo num lugar menos hediondo do que poderia ser se eles – e outros, sem religião nenhuma – não existissem, do que falamos, aqui, é das instituições. E essas “pecaram” sempre.
À… mem.
