A Camioneta Fantasma e a Noite Sangrenta – por José Brandão

 

 

19 de Outubro de 1921 não seria mais do que um dia com alguma história para contar se não viesse a noite que ficara para sempre a arrepiar quem dela se recorda. Terá sido provavelmente a ocorrência subversiva verificada em Portugal que maior repulsa encontrou. De facto, ninguém, nem uma só pessoa, ou qualquer organização, apareceu alguma vez a assumir e a reivindicar aquilo que aconteceu nessa noite em Lisboa. Pelo contrário, foram muitos, ou melhor, todos, sem uma única alteração à regra, os que, das mais diversas formas e com as mais diferentes intenções, se apressaram a condenar o horror que caiu sobre a cidade, capital do País.

 

 

 

 

 

 

 

            O Governo de António Granjo (segundo da primeira fila, da esquerda para a direita)

 

 

 

Quando, ao princípio da noite, a camioneta que estava às ordens do tenente Mergulhão sai do Terreiro do Paço, já todos sabem o que vai fazer. A vida de António Granjo começava a entrar em contagem decrescente. Ia ser o primeiro a ter a Camioneta Fantasma à porta de casa.

 

 

António Granjo morreu. No Arsenal da Marinha está consumada a sua desgraça. Portugal acaba de viver uma das mais horríveis tragédias da sua história. O Pais, a República, a vida, tudo o que é português não mais voltará a ser como era.

 

 

Um chefe de Governo morre assassinado. Outros símbolos do regime caem vítimas da mesma ceifa pavorosa. Os crimes são praticados com cenas de monstruosidade sanguinária, poucas vezes igualáveis na história da humanidade civilizada.

 

 

A noite de 19 de Outubro de 1921 estava para sempre manchada de sangue.

 

 

Três cadáveres de homens apanhados traiçoeiramente jaziam sobre as pedras frias da morgue do Hospital de S. José. Uma quarta vítima desta medonha caçada humana estrebuchava em tormentosa agonia num canto abandonado do mesmo Hospital.

 

 

Todos, cada um à sua maneira, eram figuras que tinham a ver com o primeiro plano da vida política portuguesa.

 

 

António Granjo, como já foi referenciado, desempenhava as funções de primeiro-ministro, cargo que ocupava pela segunda vez num espaço de poucos meses. Era um histórico da República, carbonário e herói da Grande Guerra, onde combatera, integrado nos primeiros batalhões do Corpo Expedicionário Português.

 

 

José Carlos da Maia, também ele um histórico do 5 de Outubro de 1910, carbonário, várias vezes ministro, estava, então, mais ou menos retirado da actividade política directa. Era, contudo, uma das personalidades com maior referencial político existentes na vida pública portuguesa.

 

 

Mais obscuros, mas mesmo assim com alguma condição que os colocava entre os que estavam ligados ao desempenho de funções cimeiras, o comandante Freitas da Silva e o coronel Botelho de Vasconcelos não eram, de modo algum, pessoas que apareciam ao sabor do acaso metidas nesta tragédia revolucionária de 1921.

 

 

Mas o mais sublime, o de maior repercussão e de maior infâmia para o regime sob o qual vivia Portugal, ainda estava para vir.

 

 

O Dente de Ouro não tinha dado por terminada a sua obra. Voltava à rua, numa das mais sanguinárias perseguições nocturnas da história recente.

 

 

Eram duas horas da madrugada. A Camioneta Fantasma estava parada junto ao n.º 14 da Rua de José Estêvão, no Bairro da Estefânia. António Maria de Azevedo Machado Santos, o Machado Santos do 5 de Outubro de 1910, tem a sinistra viatura à sua espera. No segundo andar do prédio que habita, está já o Dente de Ouro.

 

 

A Camioneta Fantasma leva mais um condenado à traiçoeira morte que desde o princípio da noite espalhava o terror sobre Lisboa.

 

 

Estava concluída a obra da Camioneta Fantasma. A sinistra quadrilha comandada pelo cabo Abel Olímpio acabava de cometer uma das mais bárbaras chacinas políticas de que há memória na nossa história recente. O apodo Dente de Ouro será para sempre associado à figura de um temível criminoso, que numa noite de horror espalhou o pânico e a morte pelas ruas de Lisboa.

 

 

O sol da manhã do dia 20 de Outubro de 1921 vem descobrir um país envergonhado pelas atrocidades perpetradas na noite anterior. Como é possível? Interrogam-se os cidadãos, ao tomarem conhecimento da monumental tragédia que havia assolado a cidade, enquanto dormiam.

 

 

Todos são unânimes na condenação velada dos crimes praticados. A própria Junta que governa o País repudia qualquer relação com os autores da mortandade.

 

 

 

Sobre a Noite Sangrenta de 1921.

 

 

 

É certo que a confusão se generaliza sempre que se pretende aprofundar o que está por detrás desta noite. Porém, existem algumas evidências que permitem conclusões de considerável importância.

 

 

É o caso dos heróis republicanos assassinados nessa noite, em que pelo menos duas ou três referências são comuns a esses homens.

 

 

A primeira é, obviamente, a própria morte que os atinge sob a mesma fúria assassina.

 

 

A segunda é, historicamente, a condição de qualquer deles ter pertencido à Carbonária Portuguesa.

 

 

A terceira, e talvez a mais interessante, é a de politicamente todos os três terem sido sempre adversários firmes do Partido Democrático.

 

 

— Mas quem mandou matar?…

 

 

— Monárquicos? Republicanos? Ambos? Outros?

 

 

Se por um lado é fácil encontrar indícios da cumplicidade dos monárquicos mesmo entre as suas hostes, também não é muito difícil detectar mostras de suspeição no seio das fileiras republicanas.

 

 

É verdade que jornais de confissão e de financiamentos monárquicos ou católicos promoveram campanha de envergadura, criando condições para a revolta contra o governo de António Granjo. Mas é também verdade que o movimento revolucionário de 19 de Outubro de 1921 é de inspiração republicana e que pelo menos na sua fase preparatória estiveram envolvidos o Partido Democrático e a Maçonaria. Quer António Maria da Silva, ao tempo o mais importante dirigente dos Democráticos, quer Sebastião Magalhães Lima, grão-mestre do Grémio maçónico, não escondem esses envolvimentos e assumem-no sem problemas de maior.

 

 

E é também verdade que se vivia em Portugal uma situação política que — pela primeira vez na normalidade institucional da I República — não estava dentro do controlo do poderoso Partido Democrático.

 

 

 

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