O Teatro da Cornucópia tem 38 anos. Começou a sua actividade antes do 25 de Abril graças a vários apoios pontuais da Fundação Calouste Gulbenkian para os seus primeiros espectáculos. A partir de 1975, passou a ser subsidiado pelo Estado e passou a ter sede no chamado Teatro do Bairro Alto, antigo Centro de Amadores de Ballet, graças a um acordo entre João de Freitas Branco, então responsável pela Cultura dentro do Governo e Machado de Macedo, (durante anos Presidente da Ordem dos Médicos, durante algum tempo responsável pelo Teatro Nacional de S. Carlos), Presidente da Fundação Madalena de Mello, proprietária do edifício.
O apoio do Estado sempre foi insuficiente para o desenvolvimento da sua estrutura de trabalho.
No entanto, graças ao entusiasmo de quem lá trabalhou, sempre conseguiu apresentar espectáculos que em muito excediam as suas capacidades financeiras, mas que correspondiam ao seu gosto e à sua vontade de não privar o público daquilo que de melhor conseguia conceber.
Foi assim que conquistou uma imagem de estabilidade e muito prestígio. Graças à entrega dos seus membros e colaboradores a um projecto artístico que consideravam sempre importante defender, sentiu que não defraudou as expectativas de um público fiel e entusiasta também, que se foi renovando e crescendo.xxx A partir de certo momento, e perante a indiferença dos Governos a este desenvolvimento, foram sobretudo as co-produções com teatros institucionais que foram completando os seus orçamentos e lhe foram permitindo um aparente desenvolvimento das suas capacidades de produção e o acesso ao seu trabalho por um público cada vez mais diversificado e numeroso.
Ricardo Pais e José Wallenstein no Teatro S. João do Porto, João Grosso e Diogo Infante no D. MariaIl, Isabel Alves Costa no Rivoli do Porto, Paolo Pinamonti no Teatro S. Carlos, Jorge Salavisa no S. Luiz propuseram-se como co-produtores da Cornucópia, dando origem a espectáculos de grande dimensão e sempre êxitos de público. Tanto ou mais do que apoiado por instituições, para a Cornucópia o seu grande aliado sempre foram os espectadores, os que gostam do seu trabalho e o admiram, e dentro desses, aqueles que à frente dessas instituições, o julgaram de interesse público.
Neste momento o Teatro da Cornucópia está, como toda a gente, afectado pela crise. O apoio que contratualmente devia receber do Estado até fim de 2012 está reduzido a 62%, o que cobre apenas as despesas fixas da estrutura (despesas com o edifício e armazém, salários dos directores e dos administrativos e técnicos, seguros, segurança social, telefones, etc) sobrando apenas 12.000 € para a produção de espectáculos (contratação de actores, cenários e guarda-roupa, colaboradores artísticos e técnicos eventuais, publicidade, etc). Numa sala como a do Teatro do Bairro Alto as receitas de bilheteira pouco mais podem cobrir que as despesas de publicidade e os gastos diários da sala para a apresentação do espectáculo. A situação é tanto mais grave quanto não poderemos contar com nenhuma co-produção para 2012, e da parte das salas de Teatro fora de Lisboa também não tem até agora havido interesse manifesto ou capacidade para programar qualquer dos nossos espectáculos, seja porque também serão atingidas pela crise, seja porque o tipo de espectáculos que fazemos não é adequado para a programação que querem fazer.
O Teatro da Cornucópia terá, evidentemente, de reduzir as dimensões da sua produção, produzindo espectáculos de pequena dimensão, ou reduzindo gastos nas próprias montagens, mas, mesmo assim, está consciente de que a tendência será a de um cada vez menor apoio do Estado, que, no entanto, pela boca do actual Secretário de Estado da Cultura considera de interesse público a sua actividade. E é para nós claro quanto, para o desenvolvimento do nosso trabalho ou para a conservação do tipo de produções que temos conseguido realizar, a actual situação pode ser fatal, dado que, não sendo a de impedimento total da actividade, levará necessariamente a uma redução da produção que, por ter de ser reduzida, pode acabar por vir a não justificar o seu financiamento futuro. Tanto mais que a partir de 2013 não lhe está garantido qualquer apoio e se desconhece ainda que critérios o Governo seguirá para o apoio financeiro à produção teatral.
É por isso e porque acreditamos que cada vez mais e à margem do Estado, os cidadãos vão ter que lutar pelo espaço que desejam na sociedade em que vivem, e que cada um dos criadores ou estrutura de produção vai ter de encontrar o “seu” próprio público, que pensámos em recorrer ao financiamento complementar do nosso trabalho através da contribuição directa do público que o defende e não quer ver o seu fim a favor de um teatro de características comerciais. Sabemos que há muitos espectadores para quem o que fazemos passou a fazer parte importante da sua vida. Antes de desencadearmos qualquer acção nesse sentido vimos, para já, apenas consultar-vos para perceber que resposta seria a vossa à criação de um grupo de amigos da Cornucópia que estivessem dispostos a ser seus financiadores através de um apoio, na medida das possibilidades de cada um, mas que sugerimos que fosse de 10€ mensais por débito bancário directo, sem outros encargos e sem que isso garanta mais que poderem continuar a ser nosso público e a ter a compensação de permitirem que continuemos a existir. Caso um número significativo de apoiantes aderisse a esta iniciativa daríamos início a esse processo. Sempre defendemos que a relação que queremos com o público deveria ser fraterna e não a de produtor/consumidor. É isso que nos leva agora a desafiar-vos a defender-nos, sendo este nós, tanto os que vos têm vindo a apresentar espectáculos como os que os puderam ver. Cremos que somos todos interessados.
Para já pedimos-vos apenas que nos respondam a este desafio com um sim ou não de resposta a este e-mail.
Saudações amigas
Cristina Reis e Luís Miguel Cintra
Teatro do Bairro Alto
Rua Tenente Raúl Cascais, 1-A 1250-268
LISBOA
Telefs.: 21 3961515/21 3969205 Fax: 21 3954508
E-mail: info@teatro-cornucopia.pt
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