COMPOSITORES DESCONHECIDOS – Pauline Viardot-García – por Paulo Rato

PAULINE VIARDOT-GARCIA (1821-1910)

 

“Não é apenas uma ilustre cantora, cuja sofisticação musical permite honrar qualquer maestro e cujo génio para a coloratura iguala o mesmo elevado nível do seu génio para a representação dramática; é também uma das mais encantadoras e inteligentes mulheres do nosso tempo. O seu refinamento literário, incluindo a familiaridade com a crítica literária, a par de um profundo conhecimento de muitas línguas modernas e algumas antigas, granjearam-lhe um forte interesse e mesmo a mais entusiástica amizade de uma verdadeira legião de celebridades das artes e das letras europeias.”

Franz Liszt

 

Michèle Ferdinande Pauline Garcia nasceu em Paris, a 18 de Julho de 1821, numa família com fortes ligações à música. O pai, o espanhol Manuel García, era compositor, cantor e pedagogo. Rossini escreveu para ele o papel de Almaviva, no “Barbeiro de Sevilha”. Notável professor de canto, foi o principal mentor da sua filha mais velha, a famosíssima Maria Malibran. A mãe era também cantora. Pauline estudou canto com a mãe, piano com Liszt, de quem se tornou grande amiga, e composição com Reicha.

 

Estreou-se como cantora em 1839, em Londres, no papel de Desdémona, do “Othello” de Rossini, obtendo um extraordinário sucesso e originando, de imediato, comparações com a expressividade e extensão de voz da sua irmã Maria, que falecera no ano anterior.

 

Pouco depois, conheceu pessoalmente Rossini, que se tornou também num dos seus melhores amigos.

 

Depois da sua primeira apresentação em Paris, Alfred de Musset escreveu: “Malibran renasceu das cinzas”.

 

Enamorado pela cantora, mas sem esperança, Alfred escreveu para ela artigos laudatórios e também poemas, alguns dos quais foram musicados por Pauline.

 

Em 1840, Pauline casou com Louis Viardot, 21 anos mais velho, jurista e escritor, sensível, culto e sofisticado, fundador da Revue Indépendante, de tendência socialista, e director do Théatre des Italiens. Através do marido, conheceu Chopin e George Sand, de quem se tornou também íntima amiga: passou a ser habitual cantar no salão do famoso casal, acompanhada ao piano por Chopin. Foi a inspiradora da personagem de uma cantora extremamente dotada, do romance Consuelo, que George Sand andava então a escrever. Chopin acompanhou também a cantora em concertos públicos e tinha grande apreço pelas canções que Pauline escrevia, incluindo os arranjos que ela fez de algumas das suas mazurcas.

 

A 13 de Novembro de 1843, Pauline conhece o poeta russo Ivan Turguenyev, então com 25 anos, numa das suas apresentações em São Petersburgo. A atracção entre os dois foi imediata e duradoura. Em breve Turguenyev se tornou um membro da família Viardot, num ménage á trois que Pauline um dia descreveria do seguinte modo: “Louis Viardot era o meu melhor amigo e Turguenyev o grande amor da minha vida”.

 

Turguenyev foi também o autor dos libretos da ópera de Pauline Le Dernier Sorcier e de duas operetas.

 

Pauline foi motivo de inspiração para muitos compositores.

 

Saint-Saëns, que a acompanhou frequentemente ao piano, depois da morte de Chopin e que lhe dedicou a ópera “Sansão e Dalila”, afirmou que, no âmbito da música, “nada é estranho para ela; está em casa seja onde for”.

 

Em 1849 Meyerbeer compôs para Pauline o papel de Fidès, em “Le Prophète”. Gounod, a quem persuadiu de que a composição era mais importante que a vocação sacerdotal, dedicou-lhe a ópera “Sapho”.

 

Berlioz, que também tinha um fraquinho por ela, falou da “nossa ópera”, numa carta que lhe escreveu sobre “Les Troyens”… Ainda na mesma carta, afirmava: “quanto lhe devo! Não imagina como lhe estou grato por me chamar a atenção para tantas graves imperfeições”. E considerava-a como “uma das maiores artistas… no passado e no presente, da história da música”.

 

O mesmo Berlioz escreveu para Pauline uma nova versão do “Orfeu” de Gluck, em 1859, tendo a cantora desempenhado o papel principal em mais de 150 representações, num só ano.

 

Pauline esteve ligada a alguns dos acontecimentos musicais mais importantes do seu tempo. Refira-se ainda que cantou o 2.º acto do Tristan, numa audição privada, com Wagner. Foi a intérprete da primeira apresentação pública da “Rapsódia para Contralto”, de Brahms. E participou na estreia de “Marie-Madeleine”, de Massenet.

 

Pauline Viardot-Garcia foi também uma notável pedagoga e escreveu mesmo um “Curso de Canto”. Vários dos seus alunos atingiram grande destaque, como Désirée Artôt, Pauline Lucca ou Marianne Brandt, a primeira Kundry.

 

Em 1883, Louis Viardot e Turguenyev adoeceram gravemente, morrendo nesse mesmo ano. Com 62 anos, Pauline em breve passou a viver retirada, na sua casa de Paris, vindo a falecer a 18 de Maio de 1910. No seu funeral estiveram presentes, entre outros, Saint-Saëns, Massenet e Fauré.

 

Além da ópera Le Dernier Sorcier, escreveu três operetas, numerosas canções ― incluindo os arranjos das mazurcas de Chopin, bem como de composições de autores mais antigos, como Jomelli ―, e diversas obras instrumentais.

 

“Viardot é a mulher mais dotada que encontrei na minha vida” – Clara Schumann Três exemplos da obra desta extraordinária mulher e criadora musical de grande relevo, cujas qualidades foram celebradas pelos mais destacados artistas e intelectuais seus contemporâneos e que, após um período de esquecimento, talvez conveniente à “bem-pensância” que quase sempre consegue sobrepor-se à cultura e esconder as irrupções mais cintilantes da criação humana, o verdadeiro “renascimento” que a música conheceu nas últimas décadas recuperou, para nosso prazer. As propostas de hoje têm elenco de luxo:

 

 “Havanaise”, na voz de Cecilia Bartoli

 http://www.youtube.com/watch?v=YfLi6I4hMgg&feature=related

 

“Romance” para Violino e Piano, com interpretação de Ulf Schneider e Stephan Imorde

 

 http://www.nme.com/nme-video/youtube/id/AWPM6iF0FJM

 

E «Sur les lagunes», pela soprano Veronique Gens, com Jeff Cohen em piano

 

 

 

 

 

 http://www.youtube.com/watch?v=5jTz4-bXafE&feature=related

 

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