A leitura dos jornais leva a maioria dos leitores a interrogarem-se sobre se não ocorre ao governo eleito deste país que está a pôr os portugueses em pânico. Veja-se o seguinte. No Público de ontem, 29 de Dezembro, podia-se ler notícias sobre:
- Isenção de taxas moderadoras – o início do ano vai ser marcado por uma subida substancial destas taxas. Quem pedir isenção vai ter de revelar dados fiscais.
- Nova lei das rendas – processo de negociação do valor das rendas abre caminho a mais despejos. O inquilino tem de apresentar uma proposta para a actualização de renda. O proprietário terá de decidir se a aceita ou se prefere pagar uma indemnização equivalente a cinco anos ao valor proposto pelo inquilino. Assim, o inquilino será pressionado para aumentar o valor da sua proposta. Não custa crer que vai haver muitas casas vagas. Se vão para o mercado do arrendamento é outra questão.
- Reforma do sistema do subsídio de desemprego.
- Redução de compensações indemnizatórias por cessação de contrato de trabalho
- Bancos cortam na avaliação do preço das casas (excepto nas moradias).
E também:
- Má situação nos Estaleiros de Viana. Passivo afasta maioria dos interessados.
- Credores aprovam fim da TNC e 125 despedimentos.
- Só na primeira metade do ano, mais de 50 mil portugueses pediram residência no Brasil.
Para além do que acima foi referenciado apenas num título diário, vão ocorrer agravamentos no custo dos transportes e nos preços da alimentação, só para referir a situação de sectores essenciais à vida dos portugueses. Estes, assim, acreditam cada vez menos na viabilidade de um dia verem as suas vidas mais equilibradas.
Alguns, com certeza por ignorância, invocam não haver alternativa possível a estas medidas. Tal não é verdade. O sistema de impostos, e as restrições às remunerações penalizam extremamente as classes médias e baixas, deixando de fora as mais altas. Invocam os responsáveis políticos que as classes altas não devem ser afectadas nos seus rendimentos ou nos seus bens porque a sua acção é fundamental para o funcionamento da economia. Ou porque pura e simplesmente se mudam para o estrangeiro se lhes são feitas exigências de maior contributo. Aceitar este jogo é aceitar o regresso do nosso país ao tempo do velho terceiro mundo.
Portugal tem um dos níveis de vida mais baixos de entre os países da União Europeia. A sua economia está dominada por alguns grandes grupos económicos, e cada vez mais por entidades exteriores ao país. Mas uma eventual recuperação terá de assentar nos seus trabalhadores (os tais que só tem tido más notícias) e nos pequenos e médios empresários (cuja sobrevivência, na maioria dos casos está a ser muito afectada por estas medidas).
É essencial pôr cobro à especulação financeira para inverter esta situação. Se o dinheiro continuar a ir para as off-shores, ou a ser aplicado em produtos tóxicos, e não for investido produtivamente, a recessão será cada vez mais profunda. Em vez de se andar a desregulamentar os mercados, a tirar direitos aos trabalhadores, a fazer privatizações que prejudicam o país, e a desestabilizar os inquilinos pobres, é prioritário regulamentar rigorosamente o chamado mercado financeiro, para haver bases para relançar a economia.

