Regresso a Olivença (3) – por Mário Ventura Henriques

 

 

Regresso a Olivença (3) – por Mário Ventura Henriques

 

 

(continuação) 

 

 

Recupera-se a toponímia tradicional

 

 

Por artérias estreitas que ostentavam outrora nomes bem portugueses – Rua das Atafonas, Rua da Corna, Rua da Barranca, Rua do Juiz -,e hoje têm designações que bem pouco dizem aos Oliventinos, vou dar a uma outra, a Rua dos Duques de Cadaval, que durante muitos anos esteve ausente da toponímia da vila. Em seu lugar encontrava-se o nome de um ministro obscuro, cujo título de glória era o de ter acompanhado o generalíssimo Franco na inauguração de uma albufeira. Instituída, por via da democracia, a liberdade de escolha, os edis oliventinos não hesitaram: substituíram-na pela velha e tradicional designação, que nunca deixara de ser usada pela maioria do povo. E com o tempo – dizem com convicção – acabarão repondo nas ruas da vila todos os nomes apagados pela tentativa de castelhanização de Olivença.

 

 

Aliás, a memória das referências portuguesas nunca desapareceu do espírito das pessoas. Na porta de Castillejos – uma das mais assinaladas na existência de Olivença pelos factos históricos de que foi testemunha -, diz-me uma mulher do povo:


 

– Quando isto era português chamava-se outra coisa: era a Porta de Alconchel.

 

 

A vetusta entrada, que remonta aos princípios do século XIV, formava parte da cerca torrejada que D. Dinis mandou construir logo após a assinatura do Tratado de Alcañices de 1297, pelo qual se definiam as fronteiras entre Portugal e Castela e se decidia a nacionalidade portuguesa de Olivença. O rei concedeu-lhe os usos e costumes da vila próxima de Elvas, autorizou uma feira semanal, às segundas-feiras – que se realizou durante séculos -, e oito anos depois designava Pêro Lourenço do Rego para cercar de muralhas toda a povoação. Uma pedra, ainda hoje embebida num dos arcos da cerca (5), assinala o início das obras: “A primeira pedra deste castelo foi posta em dia de São Miguel, e aqui a pôs Pêro Lourenço do Rego em tempo do Rei D. Dinis, era de mil trezentos e quarenta e quatro anos” (6). Das quatro portas então abertas nas muralhas, restam as de Alconchel e a dos Angeles, ladeadas por torres cilíndricas, e os restos da Porta da Gracia, em parte absorvida pela construção do Palácio dos Cadavais, alcaides-mores da vila (7). E foram estas muralhas, de que ainda se encontram, um pouco por toda Olivença, troços bem definidos, que aguentaram os embates castelhanos nos vários assédios ocorridos logo durante o século XIV, resultado de intentos de expansionismo, quezílias de famílias desavindas, ambições frustradas ou prestígios ofendidos.


 

As guerras da Independência transformaram Olivença no cenário constante de pugnas e cavalgadas, em que o povo era comparsa forçado e vítima preferida nos enfrentamentos e traições de fidalgos e alcaides.


 

Mais do que a rivalidade entre duas nacionalidades, a história de Olivença, nesse período, é a história de guerreiros feudais que, ao serviço de um ou outro soberano, não hesitam ante a violência e a crueldade para fortalecer um poder ainda precário. A torre de menagem, um dos mais imponentes monumentos da arquitectura militar portuguesa, com 37 metros de altura – só a torre de Beja a deve ultrapassar (8)-, ergue-a D. João II, recorrendo aos melhores arquitectos e mestres pedreiros da época, e resistindo aos sentimentos ofendidos do Rei de Castela, que não compreendia nem admitia obra tão agressiva em tempo de paz.

 

 

Cinco séculos depois da sua construção, a torre de menagem de Olivença continua a dominar a paisagem, proporcionando, aos que sobem ao terraço, uma vista de dezenas de quilómetros por campos de Portugal e Espanha. Limpo e desafogado das construções apagadas que o cercavam, o monumento ostenta uma grandeza impressionante, que deriva tanto dos factos históricos de que foi protagonista, como da ousadia de concepção, mesmo numa época em que a iniciativa real estava quase toda voltada para as obras de guerra. O acesso ao cimo é feito não por escadas, mas por dezassete rampas que acompanham interiormente as paredes de três metros de espessura, e que permitiam a subida de cavaleiros e peças de artilharia. A iluminação natural das rampas é proporcionada por seteiras, e o percurso de mais de cem metros apenas é interrompido por uma sala de armas que foi prisão de fidalgos e, mais tarde, local escolhido pela Inquisição para os seus julgamentos.

 

 

Com as obras a que foi sujeita, e liberta do cárcere que durante muitas décadas ocupou parte do seu interior, a torre de menagem de Olivença será a partir de agora o local privilegiado de manifestações culturais. As obras, em grande parte resultantes de trabalho voluntário, desaproveitaram, por falta de orientação arqueológica e histórica adequada, o estudo aprofundado da construção. Fizeram-se desaterros, removeram-se ossadas sem preocupação de analisar a sua origem. E perdeu-se assim, porventura, a oportunidade única de um trabalho que eventualmente poderia fazer luz sobre aspectos obscuros da história local. E não se pode deixar de pensar, com alguma decepção, que talvez fossem outros os resultados históricos e culturais desse trabalho, se os especialistas e organismos portugueses não tivessem esquecido a existência, em Olivença de um tesouro indispensável ao conhecimento do nosso próprio passado.

 

 

(continua)

 

 

 

NOTAS À MARGEM DO TEXTO (2006):

 

(5) a pedra referida está hoje exposta no Museu Etnográfico.

 

(6) 1306 no calendário cristão. A data na pedra refere-se à Era de César.

  

(7) foi reconstruída, em 2006, a antiga Porta dionisina de São Sebastião.

 

(8) actualmente, é ultrapassada também pela Torre de Menagem de Estremoz. Todavia, originalmente, era quatro metros mais alta, pelo que terá sido mesmo a maior de todas.

 

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