Daniel Filipe, cujo poema é muito mais extenso do que o de Egito, assume a voz de um narrador, simultaneamente protagonista e elemento exterior (como um locutor que tendo recebido um comunicado emitido pelas autoridades, o fosse lendo e, em crescendo, mesclando-lhe a sua opinião): «Em todas as esquinas da cidade/nas paredes dos bares, à porta dos edifícios públicos, nas janelas/ dos autocarros/mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de/ rádio e detergentes/ na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém/no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa/esperança de fuga/um cartaz denuncia o nosso amor».
Trata-se de «Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração/e fome de ternura». E irrompe a voz do locutor «Chamem as tropas aquarteladas na província/os reservistas os bombeiros os elementos de defesa/ passiva/Todos/Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências…»
Como se na mesma voz coexistissem os fugitivos e os seus perseguidores, o locutor vai introduzindo pelo meio do comunicado oficial a posição do casal em fuga – a buscas, as rusgas, intensificam-se – e é a mesma voz que concita os cidadãos a ajudar as autoridades na perseguição aos dois amantes em fuga e que lhes diz «Mas ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar corre o pranto/Quer dizer que fostes contagiados/ Que estais também perdidos para nós/ É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte/o tiro indispensável. : Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração/ e fome de ternura/ e souberam entender-se sem palavras inúteis/ Apenas o silêncio/ A descoberta/ A estranheza/ de um sorriso natural e inesperado».
O amor de que Daniel Filipe fala é o amor total, num leque que vai do amor físico ao amor-fraterno e por isso, o exemplo do casal fugitivo cria o perigo do contágio e de cada homem se interrogar sobre a prevalência dos sentimentos sobre os instintos: «Se um homem de repente interromper as pesquisas / e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão / já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja». E o locutor acrescenta pormenores do soldado perseguidor que «deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas / E quando foi interrogado em tribunal de Guerra / respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz / Lhe lembravam a infância / Campos verdes floridos / Água simples correndo / A brisa das montanhas/ Foi condenado à morte é evidente/É preciso evitar um mal maior/mas caminhou cantando para o muro da execução/ foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele/um misterioso halo de uma felicidade incorrupta». (1)
Num crescendo de incontida emotividade o poema vai seguindo o seu curso, com o apelo sempre misturado com a visão do protagonista e interrupções para transmitir música de dança, como acontecia nos anos 50 nas emissões radiofónicas. A encenação distópica é mais clara em A Invenção do Amor. Presume-se que o amor é proibido e que constitui, aos olhos da oligarquia governante, um vírus perigoso. Quem for contagiado, melhor é que desfeche na fronte o “tiro indispensável”. Como diz Francisco Espadinha, é uma poesia, “inevitavelmente retórica, porque não existe na cidade a experiência autêntica do amor que Daniel Filipe se obriga a inventar. E então há que forçar a entoação das palavras, enfatizá-las, repeti-las, numa tentativa de violentar o real e impor nele o projecto do poeta».
Em ambos o poema passa através da voz de um locutor ou enunciador (como lhe chama Fernando J. B. Martinho). Uma cidade à medida platonista, simboliza nos dois poemas uma sociedade oligárquica, repressiva, castradora – o Portugal de Salazar. A tensão distopia/utopia é constante em ambos, convergindo para finais de esperança.
E em ambos se verifica a presença tutelar de Paul Éluard. Egito foi, ao que julgo saber, o primeiro tradutor do poeta francês e Daniel Filipe evoca-o, encerrando o poema com uma epígrafe do autor de Liberté: «au bout du chagrin une fenêtre ouverte / une fenêtre eclairée». Há uma clara inspiração comum para os dois poemas – a poesia francesa, sobretudo a de Paul Éluard – um surrealista/neo-realista. Da influência e do papel tutelar que Éluard exercia no grupo da Árvore, dá-nos conta António Ramos Rosa num texto do número 4, dedicado à morte do poeta francês. Egito Gonçalves termina assim as Notícias do Bloqueio: «Diz-lhes que se resiste na cidade/desfigurada por feridas de granada/e, enquanto a água e os víveres escasseiam/aumenta a raiva/ e a esperança reproduz-se». Por seu turno, Daniel Filipe encerra deste modo A Invenção do Amor: «Já não podem escapar. Foi tudo calculado/com rigores matemáticos. Estabeleceu-se o cerco/ A polícia e o exército estão a postos. Prevê-se/para breve a captura do casal fugitivo/(Mas um grito de esperança inconsequente vem/do fundo da noite envolver a cidade/au bout du chagrin une fenêtre ouverte/une fenêtre éclairée)». (3)
Conclusão
Haveria mais exemplos de poesia distópica na literatura portuguesa. Poder-se-ia mesmo organizar uma antologia. No romance era mais difícil fazer passar o mesmo tipo de mensagem. O exemplo mais completo que me ocorre é posterior a 1974. José Saramago cria em muito dos seus romances um clima distópico sendo que o seu Ensaio Sobre a Cegueira (1995) constitui talvez o exemplo mais relevante.
Entre 1957 e 1961, anos de publicação dos poemas de Egito Gonçalves e de Daniel Filipe, o regime salazarista atravessava um fase de grande instabilidade . A partir de 1958, com o «furacão Delgado» a ditadura entrou num caminho sem retorno que, tendo em 1961 o annus horribilis (assalto ao quartel de Beja, perda do Estado da Índia, início da Guerra Colonial…), culminou na Revolução de Abril de 1974. A crescente frustração da gente do aparelho de Estado traduzia-se num endurecimento também crescente da repressão – as universidades foram um alvo preferencial dessa onda repressiva.
E esta é a nota dominante de toda a literatura neo-realista, seja a poesia, seja a ficção – para lá das trevas em que se está mergulhado, vislumbra-se a luz do futuro. Vive-se a distopia com os olhos postos na utopia. Disse atrás que a utopia é um sonho construído para corrigir a sociedade real. A utopia está ligada à distopia por uma porta que, sendo aberta e transposta, nos faz sair do sonho e entrar num pesadelo. A porta serve para fazer o caminho inverso. Foi por essa porta que Egito Gonçalves e Daniel Filipe fizeram passar os últimos versos dos seus poemas. Das trevas para a claridade.
Para o território mágico onde a esperança se reproduz.
______________
[1] Francisco Espadinha – “Nota sobre A Invenção do Amor”, in A Invenção do Amor e Outros Poemas, 6.a ed., Lisboa, 1983, p. 14.
[2] O cineasta António Campos, seduzido pelo poema de Daniel Filipe, pensou em fazer um filme sobre A invenção do Amor, completando-o em
1965. Encarregou-me e ao Guilherme Valente de escrevermos um guião baseado no poema. Influenciados pelo clima distópico do «1984» , de Orwell, escrevemos um «roteiro» que Campos não seguiu integralmente; umas vezes porque as nossas sugestões implicavam meios de que não dispunha, outras vezes porque não estava habituado a seguir ideias que não fossem as suas. O resultado, tendo em conta as condições em que o trabalho foi
feito, não foi mau. A propósito, numa entrevista, o realizador Fernando Lopes descreve como mostrou A Invenção do Amor a François Truffaut.
“Ele veio a Portugal preparar o Peau Douce e organizei uma sessão com o António Campos. E o Truffaut ficou maravilhado. Mostrei-lhe o primeiro filme do António de Macedo, o meu filme As Pedras e o Tempo e o Truffaut disse: ‘Pá, o que eu gosto é do António Campos.” Embora em patamares de
realização diferentes, usando meios, actores, cenários, de qualidades completamente diferentes, existem similitudes entre a Invenção e Fahrenheit
451 ou Grau de Destruição, o filme realizado por François Truffaut em 1966, a partir do romance homónimo de Ray Bradbury.
[3] «a morte de Éluard realiza um paradoxo: a beleza, a grandeza, a plenitude de sua vida dir-se-ia transbordar, continuar para além do seu corpo, propagar com a mesma serenidade e o mesmo rigor as ondas que este mesmo universo sequioso de harmonia e felicidade não deixa de beber sofregamente. Dirão que é a imortalidade do poeta, através da sua obra, mas nós recusamo-nos a distinguir entre a vida e a obra de alguém que
soube identificá-las, que fez da poesia uma conduta e da vida, de toda a vida, poesia. […] Não sabemos se as gerações vindouras lerão os versos de Éluard com o mesmo deslumbramento com que têm sido lidos até hoje. […]Não nos cumpre ser profetas. Cumpre-nos, sim, sentir que Paul Éluard é um nosso guia e um nosso amigo, que a sua voz continua a ser a esperança, a confiança e a pureza de nosso mundo». (António Ramos Rosa, Revista Árvore, nº 4, Porto, Abril de 1953, pp. 73-74).
