LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA – 6 -, por Raúl Iturra

 

(Continuação da segunda lição)

 

Não há apenas os casos referidos. Há mais como por exemplo o caso dos Maconde de Moçambique, analisado por Jorge Dias, mas que me foi também relatado por um nacional de Moçambique, do povo Maconde[1]. Parece que a hipótese procurada por Freud e analisada mais à frente é mais universal do que se pensava. Émile Durkheim na sua obra de 1912, estuda o ritual Intichiuma da etnia Arunta ou Aranda da Austrália Central[2]. Ritual que ele denomina positivo e que consiste em ensinar aos mais novos, já não crianças, mas sim pré-púberes, a tomar conta do alimento do qual subsistem, larva de lagarto que habita ao pé dos rochedos do deserto, sítio ao qual se dirigem com o sacerdote Aleteucha, em jejum durante vários dias, até aprenderem a como a tribo pode subsistir. Como a análise de Durkheim sobre as formas totémicas de reprodução humana, ao estudar o Totem Exogâmico de Mana, que fixa as regras matrimoniais entre clãs e proíbe o incesto causado por intimidade erótica entre parentes[3], formas de comportamento ensinadas pelo Aleteucha com o consentimento do grupo doméstico e a sua colaboração.

 

Os rituais de iniciação são um processo central dentro da vida das etnias. No caso dos Maconde, as raparigas são transferidas para uma casa de mulheres, dentro da qual as mais velhas e não parentes ensinam formas de fornicação, cujo primeiro objectivo é agradar ao homem, para o conquistar, seduzir, tê-lo mais vezes com ela, e assim assegurar o nascimento de novos seres humanos. Especialistas do grupo abrem os lábios da vagina com uma incisão para facilitar a penetração do homem e a entrada do esperma no denominado ninho da vagina. Como acontece no mito do Eufuko entre as raparigas Handa de Angola, relatado por Rosa Maria Melo[4] na sua tese de doutoramento no ISCTE.                                    

 

Entre os Maconde, os rapazes são retirados na época da puberdade para a casa dos homens e ensinados por jovens e outros membros clãnicos, a masturbar-se e como entrar no corpo duma mulher, para o que é usada a narração oral ou desenhos ou, ainda, o recto de um homem maior. O objectivo é sempre a reprodução, biológica e social como acontece de forma mais complexa, pelo detalhe da análise, entre os Baruya da Nova Guiné, no momento de começar a criar sémen, hierarquiza as relações parentais entre os membros da tribo, sempre com a ideia da relação exógama que permite não apenas a circulação de pessoas, bem como a circulação dos bens, como analisa em detalhe Malinowski no seu texto de 1926. Detalha as relações destes grupos, salienta a união familiar, define as crianças como filhos de todos, todos tomam conta de cada pequeno como se o tivessem parido ou engendrado[5].                                                                                                                                                                

 

Uma paternidade amável, amante e amada, como refere a nota de rodapé desta página. Uma maternidade cuidada, descrita quer por Malinowski na obra citada e nas outras analisadas no texto, quer por Sir Raymond Firth[6], quer ainda por Sir Archibald Reginald Radcliffe-Brown[7]: amamentam, tomam conta, ajudam, colaboram nos trabalhos umas das outras e, conforme a análise de Firth, a mãe tem um papel de carinho, económico principalmente: é quem dá a terra aos filhos que nascem do seu matrimónio num outro grupo familiar ou Hapu, trabalha de forma igual ao marido, seja o matrimónio monogâmico ou poligâmico. Homens e mulheres trabalham juntos e o cuidado dos descendentes está dividido entre a época da amamentação do mais novo e o aprender a desembrulharse entre os membros da família.                                                                             

 

 


[1] Dias, Jorge, 1996: Os Maconde de Moçambique, IIE, Lisboa.

 

[2] Durkheim, Émile, citado maisem frente. A cerimónia que refiro está nas páginas 327-324 da versão inglesa que uso de 1914, da editora George Allen and Unwin, Londres.

 

[3] Autor e texto referidos, páginas 119 e seguintes.

 

[4] Melo, Rosa Maria, 2000: O Rito do Eufuko. A iniciação feminina entre os Handa de Angola, policopeado, Biblioteca do ISCTE.

 

[5] Silva Pereira, Luís 1999, no seu texto: Médico, Xamã e Ervanária, ISPA Lisboa, Website para informação e debate http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Lu%C3%ADs++Cirilo+Silva+Pereira+ISPA&btnG=Pesquisar&meta=

Trata do mesmo assunto para os Mapuche Rauco, como é o meu caso com os Mapuche Picunche. É a aldeia o pai de todas as crianças. A paternidade destes seres humanos está longe da que defino no Capítulo I, ao falar de Pater Famílias ou autoridade da casa. O Pai dentro de estes grupos, é um adulto designado, casado ou não, para observar as brincadeiras e afazeres dos mais novos, ou, eventualmente, colaborar nos trabalhos de escola, do que eu denomino Ensino e Aprendizagem. O Pai de turno, é um ser carinhoso que não ralha ais pequenos e sabe transferir saberes. Muito semelhante ao detalhe tratado por Durkheim e do Aleteucha, distante do nosso Pater cujo objectivo é manter distância, tomar conta da pessoa e a representar e gerir os seus bens. Entre nós, é a primeira palavra da oração cristã para pedir misericórdia e perdão. Malinowski, no seu livro de 1926, diz: « Le père est ainsi un ami bienveillant des enfants et, comme tel, aimé d’eux » – ver citação Capitulo III e descrição do comportamento. Uso a versão francesa de 1930. O Website, no Capítulo III.

 

 

[6] Firth, Raymond Sir, 1929: Primitive Economy of the New Zealand Maori, Routledge and Kegan Paul. Página web com texto, no motor de pesquisa Les Classiques des Sciences Sociales: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Raymond+Firth+Primitive+economics+of+the+

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[7] Radcliffe Brown, Sir Archibald Reginald, 1955: Structure and function in Primitive Society, Cohen and West Ltd, Londres. Website com texto: http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_sciences_sociales/classiques/radcliffe_brown/radcliffe_brown.html

 

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