Apresentamos o primeiro quadro com livros censurados – obras que a polícia política retirou do mercado e que foram objecto do levantamento feito por José Brandão e organizado por ordem alfabética de títulos – todos os dias apresentaremos um quadro com dez obras, incidindo o nosso comentário pelo menos sobre uma delas.
COMENTÁRIO:
Neste conjunto de dez livros proibidos pela Censura, reflecte-se um padrão de comportamento que foi adoptado durante quase todos o período da Ditadura – havia obras apreendidas mais pelo nome do autor do que pelo seu conteúdo. Havia autores que, mesmo desenvolvendo temas relativamente inócuos do ponto de vista político, viam as suas obras retiradas do mercado. Consta que, já no relativamente curto consulado de Caetano, as coisas mudaram e a PIDE (crismada de DGS) dispunha de um gabinete de leitura, actuando de forma mais objectiva.
Nos dez títulos referidos há casos típicos, como o de Jorge Amado ou Carlos de Oliveira, referenciados como “escritores comunistas”. Mao Tse Tung também dificilmente seria autor que pudesse circular livremente.
Louvação é como Jorge Amado designa o seu ABC de Castro Alves. Castro Alves, foi o escritor brasileiro que primeiro cantou a gesta dos
escravos. Contudo, a admiração de Jorge Amado não se restringe ao plano literário. Escrito em 1941, em plena 2ª Guerra Mundial, quando, pelo menos parecia, que liberdade e opressão se enfrentavam, Amado ao falar de Castro Alves e ao ficcionar a sua biografia, revela uma grande identificação com o poeta e com o resistente político.
Não terá sido apenas pelo conteúdo deste romance, em que amor e liberdade são valores omnipresentes, que o livro foi proibido de circular. Livros como Cacau, Jubiabá, Capitães da Areia, faziam incidir sobre cada novo título uma atenção especial. Este livro, cuja primeira edição datava de 30 anos antes da proibição, foi proibido principalmente por ser uma obra de Jorge Amado.
Com este livro, foram proibidos mais 21 ou 22 editados pela Europa-América. Muitas dezenas de milhares de exemplares. Um prejúizo de muitos milhares de contos. Francisco Lyon de Castro contava que, perante tal ofensiva que quase provocou a falência da editora, Fernando Namora, um dos autores da casa, o aconselhou a sair do país e a prosseguir a actividade editorial fora de Portugal. A par de outras características, Lyon de Castro tinha a virtude de ser obstinado. E conseguiu recuperar e prosseguir com a actividade da empresa.
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