(Conclusão)
2.2. A nova geografia das economias de escala
Para explicar e legitimar as trocas internacionais, é de bom-tom, na forma modernizada do paradigma dominante do comércio internacional, dar um lugar importante às economias de escala. A introdução dos rendimentos crescentes – e, por conseguinte, da descida dos custos médios- num ponto no ciclo do produto, ajuda a explicar a conquista de mercados fora de qualquer vantagem comparada inicial. Adicionando os potenciais efeitos positivos resultantes da aglomeração de actividades (distritos industriais), consegue-se uma visão menos determinista das especializações. Com base na descida dos custos ligadas à dimensão da duração das séries e à dimensão das instalações, justificam-se assim diferenças de competitividade e de acesso mais rápido aos mercados de exportação. Portanto, a passagem para os mercados internacionais não é mais do que a extensão natural desta dinâmica dos rendimentos crescentes. Como resultado, a ideia de uma livre especialização e de uma desprotecção dos mercados a aprofundar sempre mais parece reencontrar aqui todo o seu vigor.
Na realidade, as coisas não são assim tão simples na economia globalizada tal como ela funciona hoje. Por duas razões.
…2.2.1.. A desterritorialização das actividades
A importância crescente das deslocalizações tal como as facilidades de gestão à distância (internet, télé-trabalho) longe de impedir o jogo de economias de escala, antes pelo contrário, favorece-o. Ao aceder, por exemplo, às enormes concentrações demográficas dos mercados distantes (Ásia, Índia, América Latina) por exemplo, alongam-se as séries e aumenta a dimensão dos mercados enquanto, simultaneamente, ganha-se ao máximo com a maioria das condições de custo local incluindo os salários baixos. Dentro da vasta região asiática, o Japão ou até mesmo os “dragões” reafectaram os estágios primários da sua fabricação para a China, Filipinas ou para o Vietname. Na Europa, a França, a Alemanha ou a Inglaterra criaram fábricas nos países do alargamento (Eslováquia, Hungria, países bálticos, etc…). E aconteceu o mesmo nos Estados Unidos (Maquiladoras no México). A perspectiva de um espaço económico hierarquizado de forma inédita com os primeiras fases de fabrico a serem cada vez mais externalizadas, em que os países da OCDE manteriam sede social, investigação fundamental e “alta tecnologia”, por vezes, é um modelo que seduz. No limite, porque não se ir para grupos sem – ou com muito poucas – fábricas num mundo onde as instalações de banda larga, as videoconferências e as facilidades de comunicação, o permitem cada vez mais. Na verdade, para a França, nota-se, por exemplo, que o valor da produção das empresas francesas no estrangeiro, já supera o valor das exportações das empresas nacionais.
É necessário ver contudo o caracter falsamente idílico desta nova estrutura internacional baseada na desterritorialização. Não é de modo nenhum equivalente a gerir à distância e a produzir no local. Com os grupos que se queriam “sem fábricas” (Nike, Alcatel, etc.), a distribuição de rendimentos será consideravelmente diferente. Mesmo que elas cresçam por causa dos lucros obtidos no estrangeiro, o facto de já não fabricarem no seu local faz perder aos sítios originais, empregos e rendimentos… E são também todos os efeitos de autorenforcement pelas externalidades de distritos industriais que desaparecem, e isto tanto mais quanto nem todos os lucros são repatriados.
As economias de escalas frequentemente deixam de actuar ou pelo menos fá-lo-ão de uma forma truncada. Se estas fazem descer o custo médio, isto beneficia cada vez mais a mão-de-obra no exterior assim como os detentores do capital. A vantagem das economias de escala é, pois, redistribuída simultaneamente sobre o plano espacial e entre os grupos sociais (a favor dos detentores do capital e em detrimento dos trabalhadores do país de origem). Se, por conseguinte, é possível, por exemplo, se felicitar que a Peugeot crie uma fábrica de automóveis na Eslováquia ou que Renault faça o mesmo na Roménia, a incidência económica líquida, por positiva que seja, será sensivelmente inferior para a economia francesa à de uma implantação em França.
. 2.2.2. A redução dos espaços de especialização
Estes limites assumem um relevo particular pelo choque dimensional que poderia representar os da Índia, da China (ou até mesmo do Brasil) no espaço das especializações. Esses países, com quase três mil milhões de pessoas, representam uma reserva de mercado com uma dimensão que historicamente é sem precedentes. Sem dúvida, na longa litania dos sucessivos “perigos” planetários existe alguma candura para denunciar, como se faz muitas vezes hoje “o risco asiático” de confiscação dos nossos empregos industriais. Não é verdade, por exemplo, que o Japão, no início da década dos anos oitenta, foi anunciado como estando próximo de ultrapassar os Estados Unidos em matéria industrial e comercial ou, como se prognosticava há vinte anos atrás, a dominação industrial da Alemanha sobre toda a Europa. No entanto, hoje, a China, nomeadamente, recebia em 2004 cerca de 50 mil milhões de dólares em investimento estrangeiro (contra 13 mil milhões para os outros membros da Asean) e tornou-se na fábrica do mundo. Ele já produz cerca de metade de alguns artigos (equipamento fotográfico, têxteis) e queima as etapas em várias áreas estratégicas (redes de computadores, misseis, espaço, nuclear). A sua taxa de crescimento de longo prazo, recalculada de acordo com os padrões ocidentais, foi de 5,4%, e em 2004, esta foi de 9,1%, o que é completamente “exorbitante” relativamente aos países anteriormente desenvolvidos. A Índia está a crescer ao nível de 10% ao ano em 2003 e sua população excedeu os mil milhões de unidades. Ela forma actualmente, mais engenheiros informáticos do que os Estados Unidos. Portanto, sem cair na facilidade de projecções a longo prazo e sem minorar os muitos obstáculos que pressionam o Império do Meio (superaquecimento de sua economia, brutal reavaliação possível para o yuan, travagens sucessivas da abertura periodicamente exercidas pelo partido comunista, forte dependência das empresas estrangeiras para as exportações) ou mesmo a Índia, (conflitos fronteiriços, rigidez social) o fato é este: se esses países confirmam a sua capacidade em se tornarem a “fábrica do mundo”, não é de excluir que se vá então mais rápido que se poderia pensar, para um verdadeiro virar da geografia das especializações industriais. O peso económico potencial destes novos actores na verdade pode reduzir consideravelmente o espaço disponível para a especialização internacional. Neste caso, são estes os países que receberão a maior parte dos benefícios dos rendimentos crescentes que se tornam centrais no novo paradigma da livre-troca. Sem dúvida, o domínio das partes mais elaboradas dos produtos-sistemas e da investigação continuará a ser dos países actualmente líderes. No entanto, o receio do que isso possa trazer é que estas actividades não criem um número de postos de trabalho suficiente, especialmente se os serviços (back office, manutenção e reivindicação, contabilidade, etc…), eles mesmos se deslocalizarem. Uma política de fuga para a frente com base na investigação sistemática do “topo de gama ” exigiria esforços de formação e uma flexibilidade social sempre mais violenta do que nós estamos seguros de que as nossas velhas sociedades possam elas suportar.
Em última análise, o paradigma da livre-troca é, paradoxalmente, ao mesmo tempo exaltado e colocado em dificuldade pela economia globalizada actual. Os fundamentos teóricos (antigos ou modernos) encontram-se, o que é dificilmente recusável, numa situação de manifesto desconforto, nomeadamente ao nível da sua base principal, o teorema dos custos comparados. É certo, não é provavelmente suficiente voltar pura e simplesmente a Keynes que simplesmente escreveu:
“Eu sou daqueles que querem minimizar as imbricações económicas das Nações. As ideias, o saber, a arte, a hospitalidade, o turismo, eis pois as coisas internacionais por natureza. No entanto, deixemos os bens no seu lugar cada vez que isso seja razoável, cómodo e possível de os aí deixar ; em especial confiemos as finanças ao sector público, ao sector nacional ” [16].
O que era válido nessa altura, em 1933 data deste texto, não seria completamente válido hoje: a globalização passou por cima disto. Além disso, o comércio internacional que faz parte deste “destruição criadora, conceito tão caro a Schumpeter, ao colocar sucessivamente em causa as situações adquiridas pelos produtores, em pesando sobre os preços e em beneficiando assim o consumidor, conserva toda sua vitalidade. Também hoje disto não se poderá prescindir, tal como ontem.
No entanto, a crítica precedente quanto aos fundamentos da livre-troca não é sem alcance. Ela rompe com o optimismo muitas vezes um pouco beato de abertura sem limites. Talvez seja mesmo de desejar que se abra no campo da teoria do comércio internacional, uma dessas “extraordinárias” fases que, de acordo com T.. Kuhn, acontecem, mais cedo ou mais tarde para todos os paradigmas. Nada se diz contudo que não se tenha também que dar algum espaço para a reabilitação da ideia de uma abertura controlada que continua ainda a estar hoje, reconhecidamente, por inventar na sua maior parte.
