(Adão Cruz)
O ateísmo é uma mundividência filosófica, ética e livre, perfeitamente legítima. Não é uma crença nem coisa que para lá caminhe. O ateísmo é uma forma de vida e de pensamento que decorre do desenvolvimento da razão, da inteligência, do conhecimento e da ciência cada vez mais difícil de contestar. Estas as maiores riquezas do ser humano. O ateísmo não é uma verdade absoluta, não é um radicalismo preso às malhas da incoerência, é uma postura mental desenvolvida na verdade científica, uma verdade como qualquer outra, e, como tal, legítima e respeitável.
O ateu não tem de se preocupar com dúvidas metafísicas nem tem que provar nada, nem a si nem a ninguém, bastando-lhe as provas que o conhecimento científico lhe vai dando. Hoje está um lindo dia de sol. Se alguém diz que está a chover é que tem de o provar. Por isso, o ateu tanto respeita o cidadão ateu como respeita o cidadão crente, como respeita qualquer outro cidadão, tenha o pensamento que tiver. Não respeita a crença, seja ela qual for, e está no seu pleno direito, sobretudo quando esta se desenrola à margem do conhecimento, da razão e da compreensão. Muito menos se a crença é imposta com a aniquilação da liberdade mental e com a violência do fanatismo e do proselitismo.
A luta do ateu, se existe e quando existe, aqui ou em qualquer parte do mundo, com todos os direitos de cidadania que lhe assistem, centra-se no combate à promiscuidade que afronta a laicidade do Estado escarrapachada na Constituição, na procura da integração social e sem reservas no que ao pensamento se refere, do ateísmo, dos ateus ou de outras formas não sobrenaturais de entender o mundo, como vivências perfeitamente legítimas, sem qualquer tipo de diabolização ou segregação, sem preconceitos irracionais, intoleráveis e incompreensíveis, e sem obstáculos à vida de cada um, seja no campo profissional, no campo do ensino e da educação, na intervenção cívica, na comunicação social, no direito a ser livre.
Vem isto a propósito da onda de intervenção política do clero e dos bispos portugueses, espalhada por tudo quanto é jornal ou outro meio de divulgação. Cabe-lhes todo o direito de intervirem como cidadãos e como cidadãos crentes, ninguém o discute. Mas também não pode discutir-se o direito de os rebater, denunciando o ancestral obscurantismo com que o fazem, as profundas incoerências das crenças em que se apoiam e as responsabilidades, tantas vezes criminosas, dessas mesmas crenças, neste cataclismo selvático do capitalismo.
Muita gente sabe que a igreja foi sempre reaccionária e retrógrada, atravessando os séculos, até aos dias de hoje, de braço dado com o poder e o dinheiro, a ambição e a opressão. Nada mudou nem mudará, porque todo este esquema é uma cristalizada estrutura genética imutável, servindo de carapaça ao núcleo duro, esse sim, renovando constantemente as suas aprimoradas estratégias de agressão. Tudo leva a crer que os bispos cumprem ordens, supra-determinadas, provavelmente sem saberem de quem. À falta de um mandante concreto…dizem-lhes ser de deus. O fim é sempre o mesmo. Segurar o Sistema. Ancorar o Sistema seja qual for a tempestade. Incentivar, ainda que com novas formas e fórmulas, o obscurantismo a todo o custo, de modo a manter a sobrevivência da ancestral e monumental verdade-mentira de sempre, espinha dorsal de uma igreja que nada tem a ver com a igreja de Cristo. Por outro lado, tentar sacudir a água do capote, encharcado que nem um esponja. Sugerir falácias diagnósticas e terapêuticas de conformismo e sujeição, de modo a que o Sistema não vacile e a grande exploração humana a todos os níveis continue a ser o sangue das grandes esferas. Tentar alijar responsabilidades, inclusivamente vitimizando-se, sem se dar conta que a arma ensanguentada continua nas suas mãos.
Se não, vejamos. Vejamos todos nós, aqueles a quem ainda não conseguiram fechar os olhos de vez. O que se segue não são contas do nosso rosário, e nenhuma destas avaliações passou pelas nossas mãos, nem nunca em tais catacumbas nos enfiamos. Somos muito pequeninos para lidar com monstruosidades destas, mas a vida, a intuição, a evidência, a visão do mundo e das coisas, as leituras, públicas e amplamente publicadas que reputamos de idóneas, todos os trabalhos realizados por investigadores de grande mérito e coragem que o Vaticano nunca conseguiu desmentir, ainda que em muitos casos o tenha tentado, abrem os olhos para a dificilmente contestável verdade do que se segue, e que mais não será do que a ponta do iceberg.
O Vaticano é o mais poderoso grupo financeiro do planeta. Dono de meio mundo, a sua sede vai de Roma a Washington, da Europa à África e à América Latina. A Santa Sé domina 51% dos principais bancos, tem poderosas redes de influência directa e indirecta em todos os grandes partidos políticos de muitos países, na comunicação social, no ensino e em tudo o que são instituições sociais. O IOR, Instituto para Obras Religiosas, é a sede da mais importante central financeira do mundo. São por de mais conhecidas as gigantescas transacções, os grandes crimes e as grandes fraudes financeiras geradas no seu ventre. Na sua órbita e nas suas secretas relações e negócios giram bancos extremamente poderosos como o Pax, J.P.Morgan e Deutsch Bank. Apesar do pouco que se conhece, é possível dizer que, nos EU, a igreja administra valores que excedem a soma dos capitais dos dez principais grupos económicos norte-americanos. O Vaticano tem uma volumosa carteira de interesses no petróleo, nos aços, indústria automóvel, armamentos, energia, linhas aéreas, minas, construção civil e…outros. Em finais do século XX pensa-se que detinha em bancos suíços e ingleses reservas superiores a 11 biliões de dólares. Calcula-se, por outro lado, que o ouro em lingotes, sólido, contido nos cofres do Vaticano atinja valores de muitos milhares de milhões de dólares. Já nem é bom falar no seu incomensurável património imobiliário, artístico e de pedras preciosas que se estende por esse mundo fora. Há quem diga que o Estado americano já é uma colónia da Santa Sé. E também há quem diga que todas as grandes decisões políticas americanas se sujeitam aos pareceres prévios do Vaticano.
Biliões de seres humanos sobrevivem com um dólar por dia. Mas ninguém fala no papel activo que o Vaticano teve e tem desempenhado na construção deste desumano quadro político e social. Do mesmo modo que, nesta crise, com todo este folclore eclesiástico que se apresenta, inclusivamente, com fotografias diárias de suas eminências nos jornais nacionais, não há bispo que seja capaz de falar a sério, denunciando a altíssima responsabilidade do Vaticano e da sua igreja na gestação deste monstro que mais parece parido pelas entranhas do diabo.


Meu Caro AdãoNo que à crença em Deus respeita, devo declarar que tenho respeito pelos fideístas, não por todos os outros que se dizem crentes. Costumo declarar-me ateu, desde que isso não signifique que tenha de provar a sua não existência, trabalho perfeitamente inútil.Quanto à organização Vaticano estou perfeitamente de acordo com tudo quanto escreves; no entanto, há um outro aspecto que também tem de ser denunciado, como muito bem o fez Eric Frattini em «A Santa Aliança», numa edição portuguesa da Campo das Letras, e que tem a ver com o serviço de espionagem criado pelo Vaticano em 1566, envolvendo-se em assassinatos, venda de armas, apoio a ditaduras, protecção de criminosos nazis e falências bancárias.A terminar direi: bem hajas pelo teu texto.AbraçoAntónio
Perfeitamente de acordo, António. O ateu, como eu disse, não tem que provar nada. O ónus da prova não lhe pertence. Há muitos anos que leio sobre esta criminosa corja do Vaticano e quase devo ter esgotado o que há escrito (é uma maneira de dizer!) desde Avro Manhattan a Eric Frattini. Um abraço amigo do Adão