Patrícia Reis Vê se entendes
(Adão Cruz)
Quando me casei contigo, já sabia que a gestão dos afectos era, no mínimo, equivalente a uma folha de cálculo. Para ti tudo se resume a uma tabela cujas equações têm a lógica que preside à matemática. Quando te disse que a matemática era a base de sustento da música, olhaste com algum desdém, pode lá ser. A música, para ti, é um mistério. O abanar do corpo, é-te incompreensível. Tanto quanto o suor, a troca de um beijo, a exposição do que sentes. Antes de sofras a tentação de um suspiro impaciente, vou-te enumerar 40 razões para te deixar. Espero que, assim, me compreendas.
Já não te amo
Dizes que me amas, porque amas a ideia que tens de ti a amar alguém
Estás conformado à imagem e à ideia da conjugalidade
Odeias mudanças
Odeias viagens
Odeias palavras de amor
No sexo despejas o teu desejo de uma forma egoísta
Nunca falas comigo
Nunca me dizes que estou bonita
Não te preocupas em apurar a razão do vermelho que carrego atrás dos olhos
Às vezes falas como se estivesses numa palestra
Não te sabes calar
És saliente
Desvias as conversas para assuntos onde possas pontificar
Gostas de pontificar
Tens dois pêlos espetados em cima do nariz
Falas do meu pai com um desprezo mineral que tenho tolerado por estupidez
Na verdade tu achas que eu sou estúpida
Fazes-me estúpida
És capaz de minimizar o que faço de tal forma que nem à luz de um microscópio me safava
Nunca percebeste que tenho medo do escuro
Tens ciúmes dos livros que leio porque me deixam em paz
Porque me deixam sozinha
Achas ridículo o meu gosto por desenhos animados
Estás convencido que nunca olharei para outro homem
Estás convencido que podes desvendar as tuas aventuras passadas, amores e desvarios, sem que os relatos possam fazer mossa
Achas que casar pela Igreja é um fraco investimento
És contra os rituais e não percebes o conforto que podem trazer a quem anda, na vida, perdido
Nunca te perdes
Sabes sempre tudo
Olhas-me com um paternalismo patético
Eu é que sou patética
Não és capaz de pedir desculpa
Passo a vida a pedir desculpa
És capaz de me exibir como um objecto
És capaz de me ignorar como a um objecto
Tens medo que eu te descubra perdido
Sabes que te sei perdido na convicção de que és esperto
Não percebeste nada desta lista
Adeus
(in 40 QUARENTA, Dom Quixote)


