Na guerra, várias tendências se haviam consolidado – os autónomos, de Rafael Montoro, os reformistas, de José Antonio Saco, e os separatistas de José Martí, os únicos que aspiravam a uma verdadeira independência. Foi nesse sentido que Martí organizou o Partido Revolucionário Cubano. Porém, Martí morreu em 19 de Maio de 1895 na luta contra as tropas espanholas. Com a entrada dos Estados Unidos no conflito, as coisas mudaram – Espanha não tinha poder bélico para opor aos modernos couraçados que destruíam os navios que da Europa seguiam para as Caraíbas, com uma logística complicada e dispendiosa. Em 1898, Espanha rendeu-se.
O desapontamento dos cubanos pela simples troca de potência colonizadora foi imediato. Porto Rico e as Filipinas que os americanos tinham «libertado» ao mesmo tempo que Cuba, foram assumidas como colónias norte-americanas por mais tempo, em Cuba as pressão por uma independência verdadeira, levou os Estados Unidos a retirar, mas deixando aberta a possibilidade de uma nova intervenção como forma de “garantir a independência”, conforme expresso na emenda constitucional de 12 de junho de 1901, a Emenda Platt. Embora sem ocupação militar (com excepção de Guantánamo. onde instalaram uma base) os norte-americanos continurama ser os donos de Cuba, colocando no poder políticos corruptos e traidores. Até que…
Em 8 de Janeiro de 1959, com o Movimento 26 de Julho triunfante desde o dia 1, Fidel Castro e as suas forças revolucionárias entraram em Havana e proclamaram a segunda e, desta vez, autêntica independencia de Cuba. Porque, podemos concordar ou não com o Governo cubano, podemos aceitar ou não, as medidas que têm sido assumidas e com a política que tem sido seguida nos 53 anos que hoje se completam, mas do que ninguém terá dúvidas é de que Cuba é uma nação independente, pese embora o preço que os cubanos estão a pagar por essa independência.
Estive em Cuba, pude ver como o povo sofre, fustigado pelo desumano bloqueio económico a que a ilha está sujeita. Não concordo com a linha política do Governo. Mas, apesar disso, não posso deixar de admirar a dignidade com que um pequeno país resiste há tantas décadas ao cerco que a única superpotência mundial lhes move.
Tantas esperanças que tínhamos em que Obama mudasse as coisas! Mentiu, iludiu os democratas de todo omundo e, como todos os seus antecessores, obedece ao falcões – os fascistas que ocupam o Pentágono, como sempre, levam a melhor.
Deixo-vos com um poema de José Martí
Cultivo una Rosa Blanca
Cultivo una rosa blanca
En Junio como en Enero,
Para el amigo sincero,
Que me da su mano franca.
Y para el cruel que me arranca
El corazón con que vivo,
Cardo ni ortiga cultivo
cultivo una rosa blanca.

Bom texto, Carlos, um raio de sol nestes plúmbeos dias. Um abraço do Adão
CarlosLembras-te como eu me lembro das queixas que ouvimos a cubanos e cubanas contra o regime, conversas que acabavam quase sempre com eles/elas a dizerem-nos: «Podem vir todos, americanos é que não!»Foram os americanos, com a sua estupidez, os melhores aliados de Fidel. Julgo mesmo que, sem o embargo, há muito que Fidel teria sido obrigado a deixar o poder. No entanto, com todos os problemas que o povo cubano tem vivido, em que a falta de liberdade não tem sido dos menores, há países na América Latina em que os seus povos vivem pior do que os cubanos, o que não serve como justificação para o que em Cuba se tem passado.Claro que o Raul Castro não tem outro remédio que não seja ir cedendo aqui e ali, a União Soviética já acabou e a Rússia só comprará o açucar ao preço de mercado (é apenas um exemplo para o comentário, pois esta questão merece ser tratada com outra profundidade).AbraçoAntónio
Tudo merece ser tratado com “outra profundidade”, incluindo o caso “Obama e a sua circunstância” (para cuja perniciosa empatia o meu partido se encarregou logo de me alertar, mal tinha sido eleito…), envolvendo a deliberada complexidade do sistema político “made in usa” onde, sob a capa de se construir um “sistema de equilíbrios” entre os diversos poderes (que, no caso, vão muito para além dos que, habitualmente, se atribuem ao Estado), foi tecida uma teia capaz de dificultar ao máximo, ou mesmo paralisar, qualquer tentativa de “fazer passar”, nas instâncias legislativas e judiciais (que também por lá entram, onde menos se espera) qualquer medida que belisque os grandes interesses instalados. Não é por acaso que os republicanos – e não só os neocons – chamam “socialista” (nos USA = comunista, q’aquilo não são os bandalhos da Europa…) ao “traidor” Obama, com algum êxito, apoiado no bombardeamento constante do “bom povo” (essencialmente ignorante, porque tudo está planeado para que assim continue) com os “valores” da ideologia dominante.Mais uma vez: Obama não está no céu, nem noutro galáxia, mas em plena capital do Capitalismo terreno… com séculos de experiência conspirativa em defesa do seu “ideal”.Aqui, na Terra, nem o Mandela conseguiu que o seu raro humanismo e a sua postura ética sobrevivessem à sua presença efectiva no poder. Tal como o dinheiro, também a corrupção ou a avidez do Poder não têm cor. E estamos já a assistir à degradação da herança de Mandela, ao avanço, no interior do seu próprio partido libertador, do vírus que acabará, provavelmente, por minar o seu desígnio humanista, mais uma esperança que a imperfeição dos seres humanos nos roubará…A menos que o número de pessoas que “tratam em profundidade” TUDO aumente exponencionalmente e velozmente. Do que vou tendo cada vez mais razões para duvidar.
Na questão de Cuba, tenho outro comentário ao artigo do Carlos «Viagem a Cuba».No que aos EUA se refere, desejo que Obama volte a ganhar as eleições, pois pelo lado dos republicanos só virá algo ainda pior do que Bush (o ignóbil filho) e, contrariamente ao que me parece a política do PCP, não sou adepto do «quanto pior melhor». No entanto, houve uma coisa, aquando da campanha de Obama – Yes, we can! -, que sempre me intrigou: onde foi Obama buscar tanto dinheiro, deixando a Clinton a grande distância até neste aspecto? Julgo ser um dado a investigar quando se fala da América.Também não sei se será possível haver alguém que seja capaz de tudo (TUDO, escreves tu) tratar em profundidade, mas um grupo interdisciplinar talvez o consiga, só que eu não sei com quem ou como formar este grupo.AbraçoAntónio
Estava a responder-te, ontem, quando o computador resolveu “reiniciar”, por causa duma daquelas actualizações que nos acometem à socapa. Já não tive paciência para recomeçar. Decidi-me, hoje, por enunciar alguns “tópicos”. Dinheiro do Obama: somatório muito elevado de muitas pequenas contribuições, pelo entusiasmo suscitado pelo “yes, I can”, excepcional “carisma” do candidato”, mais gente interessada na política, maior mobilização para “mudar” (mais inscrições de eleitores), numa situação de crise e corrupção muito presentes; utilização inovadora da internet e redes sociais, que também potenciou, possibilitou e facilitou esses numerosos pequenos contributos. Maiores apoios da população negra e de origem latino-americana. Contributos de ricaços inteligentes – Bill Gates e afins – que conhecem a História como não se ensina, pelos vistos, nas “famosas” Universidades de topo, e sabem que o sistema, para se ir mantendo, tem de limitar as desigualdades económicas e sociais e satisfazer minimamente as classes médias, não as “proletarizando”, como está a acontecer na Europa, com a récua de bestas que a “governam”. Gates chegou a escrever ao W. Bush, tentando, sem êxito, que o bruto percebesse porque era uma imbecilidade acabar com o imposto sucessório. Eu já aqui disse que os apelos do Bill aos compinchas mais espertos eram um “SOA” (Save Our Asses). Os outros grandalhões, mesmo os mais burros, não o são tanto que não dêem também a sua pequena (comparada com a que despejam nos Republicanos) contribuição aos Democratas, que também há por lá gente que podem comprar e porque… não vá o diabo tecê-las… e sempre podem levantar o dedo e grunhir: eu também dei! eu também dei!. Tudo isto foi bastante “esmiuçado”, na altura.PCP: não é adepto do “quanto pior melhor”. Há é quem pense que PC e BE “deviam” ter deixado passar o enésimo PEC do Sócrates, para não vir o Coelho, que havia de ser pior. Chamo a isso: oportunismo político de quem faz tais cedências e desiste de um mínimo de coerência e honestidade perante um país e seus cidadãos; e “limitação da liberdade democrática”, por parte de quem confunde afirmação política com “quanto pior melhor”. Já se resignaram à política como “porca” e deitaram a integridade na pocilga? Quando se começa a “deixar passar” tudo, para “não piorar”, qual é o limite? Os defensores do oportunismo já o definiram, ou só o infinito é aceitável? A culpa, afinal, não é de quem opta por políticas que, apenas mais sonsamente, vão lixando à mesma os mesmos, mas, por absurdo, de quem as combate e não anima os coitadinhos dos seus autores a prossegui-la “ad aeternum”, jogando com sucessivas e infindas cedências? TUDO: Tudo o que implica com as nossas vidas como cidadãos, de um país e do Mundo. Não ir na onda, venha donde vier. Dei alguns exemplos, em relação a Cuba e sua história recente. Não esquecer factos e interpretações deles que a “corrente principal” se esforça por apagar das memórias e distorcer. Dúvida cartesiana em relação a todas as informações. Aplicação constante da tal “grelha crítica”, que reiteradamente refiro. Mesmo no interior da ideologia de cada um (e, no meu conceito, as ideologias ou são individualizadas ou acabam em religiões e fanatismos), não meter à força o que pensamos (ou queremos pensar) num qualquer redil. Mesmo num grupo (qualquer que ele seja – e todos pertencemos a vários, institucionais ou ocasionais) não alienar a individualidade do nosso pensamento. Claro que a multidisciplinaridade é indispensável, quando se quer, não apenas lançar alertas, mas estruturar bases teóricas que guiem a acção. E vai havendo diversos contributos, por esse mundo fora, inclusive académicos e mais numerosos do que se possa pensar. Quando, por uma bendita vez, apareceu na TV o director da Faculdade de Economia de Coimbra, deu para perceber que aquilo era diferente do ISEG ou da Católica e os bonzos que ocupam os ecrãs não são os únicos “economistas” que há. Mas não sei se ainda estou nessa da acção. Talvez só quando chegarmos, porque vamos chegar, por este caminho, à porrada geral. E mais não digo, não vá a Procuradoria (que tem pouco que fazer) abrir-me um inquérito, como ao Otelo…