Teve grande impacto a venda da participação do Estado na EDP a uma empresa pública chinesa. Entretanto parece que vai continuar a prestar serviço na EDP o anterior administrador, António Mexia, que já foi bastante falado por ali auferir uma remuneração substancial. E noticia-se a indigitação de Eduardo Catroga para presidente do Conselho de Supervisão da empresa que nos abastece de electricidade (parece que agora com a concorrência da ENDESA, empresa espanhola, com a participação de italianos) e também de mais uns tantos nomes sonoros (Celeste Cardona, Paulo Teixeira Pinto, Braga de Macedo, Rocha Vieira, etc.) para integrar aquele conselho. Parece que vão todos auferir remunerações substanciais. Espera-se que os encargos resultantes destas sonoras aquisições não contribuam para mais aumentos, que também têm sido bastante falados e pior, sentidos, na conta da electricidade dos portugueses. Uma explicação sobre a utilidade do tal Conselho de Supervisão e de como pretende atingir os seus objectivos seria também bem-vinda. Como é que os chineses da Three Gorges e os restantes accionistas da EDP vêem esta questão? Será que acham que os portuguesinhos aguentam tudo?
Entretanto, autarcas e outros elementos próximos dos partidos do governo têm sido nomeados para as Águas de Portugal. Dir-se-á: não foi agora que o actual começou a fazer nomeações de pessoas que lhe são próximas para cargos bem remunerados. E mais: que os anteriores governos fizeram o mesmo. É verdade.
O problema é que este espectáculo choca quem anda a aguentar com a austeridade. Veja-se ainda o caso do Banco de Portugal: parece que os seus funcionários não ver cortados os subsídios de férias e de natal. Justificam os responsáveis que os funcionários do BdP têm um estatuto diferente dos funcionários públicosem geral. Também poderíamos dizer: ao menos estes escaparam ao que é indubitavelmente uma injustiça. Contudo não se pode deixar de constatar que estamos claramente perante uma situação de privilégio. E recordando a maneira como no passado o BdP exerceu a sua função de supervisão, fica-se preocupado.
Os Conselhos de Supervisão podem muito bem, com manifestas vantagens até, ser preenchidos por gente mais jovem e mais disponível, com salários mais modestos. Entre outros aspectos, seria um contributo, pequeno, mas significativo pelo exemplo, no sentido de prevenir a emigração de licenciados. O Banco de Portugal é um serviço público como os outros. Tem, é certo, uma função muito importante que tem que cumprir melhor que no passado. O que é necessário é que cumpra adequadamente a sua função para justificar a sua existência. Se o tivesse feito no passado há fortes probabilidades de que o país não estaria como está.

