Indignados contra corrompidos: o combate de 2012, por Sylvie Kaufffman, Le Monde. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

 

“Há dez anos atrás, uma revolta contra a corrupção era inimaginável.” “Era uma questão técnica, mas nunca uma causa popular”.

 

 

Uma pequena adivinha sobre a actualidade para começar o ano. Qual é o ponto comum entre Alexeï Navalny, Anna Hazare e Park Won-soon? Entre Wukan e Brasilia?


A Globalização? De uma certa maneira, sim. Se estes nomes se encontram misturados nas notícias ultimamente, é porque a Índia, a Coreia do Sul, o Brasil ou a China estão agora mais próximos, tanto de nós como uns dos outros. Hoje, tudo o que aí se passa tem a ver connosco e tudo o que fazemos também os afecta, a eles.


Mas o que realmente liga estas pessoas e esses dois lugares, o ponto comum entre o novo herói de Moscou, o grevista da fome de Nova Deli e o novo prefeito de Seul, entre a aldeia do Sul da China que conseguiu revoltar-se sem ser esmagada e a capital brasileira onde há a valsa dos ministros, é um flagelo ao qual especificamente, a globalização deu uma nova dimensão: a corrupção. Para a economia dos subornos, a globalização é uma má e uma boa notícia. Ou uma boa e uma má notícia, dependendo do ponto de vista em que nos colocamos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma má notícia, porque as taxas de crescimento económico desmedidas ou o afluxo de investimentos, a corrida às matérias-primas, a livre circulação de capitais e a integração na economia global são todos estes factores que, multiplicando as ofertas e as ocasiões exacerbaram a corrupção. O Banco Mundial calcula entre 20 e 40 mil milhões (15,4 e 30.9 mil milhões de euros) por ano  o montante de recursos subtraídos às diversas ajudas devido a esta forma de roubo organizado: é muito.


A boa notícia é Alexei Navalny, é Anna Hazare, é Park Won-soon. É o protesto árabe que a revista Time proclamou de personalidade do ano de 2011. São os camponeses de Wukan, aldeia de 20.000 pessoas na província de Cantão, que se revoltaram contra os funcionários corruptos locais. Eles vendiam as suas terras aos promotores imobiliários ganhando, de passagem, uma compensação. É a Presidente  Dilma Rousseff forçada  a arrumar e limpar a casa  (uma tarefa que é frequentemente da responsabilidade das mulheres) a limpar o seu governo através de um movimento poderoso de cidadania já saturado de décadas de corrupção no Brasil. Mais contundente sobre este ponto, que o seu antecessor, Lula, esta não recuou: em menos de um ano, já se separou  de seis dos seus Ministros.

 

A loira advogada blogger russa Alexei Navalny, a quem a polícia teve a muito má ideia de meter na prisão por quinze dias, ficou famosa na Internet ao qualificar o partido de Putin, partido Rússia Unida,  do “partido dos bandidos e dos ladrões”. Esta colocou a palavra : “ladrões” que é uma palavra omnipresente no vocabulário russo actual. Esta fórmula assassina tornou-se o slogan da onda de protesto que varreu a Rússia desde as eleições fraudulentas de Dezembro.


Na Índia, é um velho senhor de 74 anos com um ar dos tempos de Ghandi, Anna Hazare, que abala a classe política desde o mês de Abril devido à sua cruzada pela criação de uma agência independente de luta contra a corrupção. Nada de novo sob o sol do subcontinente, dir-se-á.. Só que desta vez, as classes médias de Delhi e de Bombaim, elas também saturadas por estas práticas que lhes envenenam a vida, seguiu-lhes o exemplo. Sentindo o vento a soprar fortemente, o partido no poder apresentou rapidamente um projecto de lei – a Câmara alta do Parlamento acaba de rejeitar…


Durante este tempo, os habitantes de Seul elegiam, no final de Outubro, fora do sistema de partidos, um prefeito independente, conhecido pelo seu empenho na luta pelos  direitos do homem e pela sua  luta contra a corrupção.


Por toda a parte, esta reacção cívica de fundo é retransmitida e amplificada pela Internet e pelos meios de comunicação social.


A moral da história, é Cobus de Swardt, director executivo da Transparency International, que a tira. No seu gabinete claro e moderno, na sede da organização em Berlim, este sociólogo sul-africano, antigo activista anti-apartheid, constata que uma tendência de fundo surgiu durante a “Primavera árabe”: ultrapassou-se a reivindicação puramente de direito-do-homem de 1989, disse.” Agora, espera-se do poder que este seja responsável pelas suas acções e diga a verdade. “É um movimento que irá para além da ” Primavera árabe””. No terreno, as suas equipas têm observado a evolução. “Há dez anos atrás, uma revolta contra a corrupção era inimaginável.” “Era uma questão técnica, mas nunca uma causa popular”.

 

As coisas mudaram nestes últimos dois ou três anos. A vitória do Hamas nas eleições legislativas palestinas em 2006 poderia ter sido  vista como um pré-aviso. Fechando os olhos sobre as acusações de corrupção contra a Fatah e a Autoridade Palestiniana, o Ocidente não a tinha visto chegar. Transparency Internacional tem, desde então, adaptado a sua estratégia de luta contra a corrupção: a ONG, centra-se agora na sociedade civil.

 

Os Estados, também eles sentem o vento a rodar. A Rússia pretende aderir à OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico, o clube dos países ricos e limpos), e quer assinar tudo. De repente, na Arábia Saudita, na China, na Indonésia, nascem as agências de luta contra a corrupção. Resta apenas aplicar as regras…

 

Em França, também existe corrupção. Esta é mesmo punida. Simplesmente, isso leva tempo. Aqui, não é pressão popular que ataca a corrupção. É necessário o trabalho minucioso e obstinado de um juíz, Renaud Van Ruymbeke, e a pressão da batalha eleitoral que está próxima para que o público descubra, dezassete anos depois, os termos do financiamento da campanha presidencial de Edouard Balladur, em 1995. Foi preciso o lento ritmo da Justiça para condenar, duas décadas mais tarde, o ex-prefeito de Paris, Jacques Chirac, durante muito tempo protegido pela imunidade presidencial, a pena de prisão com pena suspensa de dois anos devido à  obtenção ilegal de proveitos, desvio de fundos públicos e abuso de confiança. E ainda a palavra corrupção não tinha sido pronunciada. Isso foi tudo insensato, tratava-se de “um problema de empregos fictícios”. De acordo com a expressão consagrada.


Sylvie Kaufffman, Indignés contre corrompus : le match de 2012, Le Monde 3 de Janeiro de 2012.

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