Acontecimentos fortuitos – Augusta Clara

 

 

 

Augusta Clara  Acontecimentos fortuitos

 

 

 

(Adão Cruz) 

 

 

   Lembrou-se da estrada velha do pinhal – ou eram eucaliptos? – e apercebeu-se de como a vida passa em acontecimentos fortuitos, às vezes grandes blocos que duram anos, e se evolam num rasto longo a esvaziar-se. O tempo, esse grande ditador, atira-os para os escaninhos da memória. Nunca mais os deixa de lá sair. Aquele, agora, espreitava às grades.

 

E o homem do táxi na estrada velha que vai dar ao Forte:

 

– A senhora é a advogada?

 

Sentia-se o Capuchinho Vermelho a levar a merenda ao lobo. Por detrás dum pinheiro – ou seria um eucalipto? – uma voz perguntava:

 

– Vais levar a merenda ou és a advogada?

 

Aquela obsessão…

 

Sempre muito curiosos os homens dos táxis. Mereciam um fado como o das castanhas. Foi propô-lo depois de tantas histórias lhes ter ouvido, mas ninguém quis. E os bufos que tinha havido entre eles no tempo do fascismo? Não mereciam homenagens, disseram.

 

Também na cidade do rio das lágrimas muitos olhos invisíveis a espiavam. Não via ninguém mas sabiam quem era. E o homem do táxi, à saída do comboio:

 

– A senhora é a advogada? Disseram-me que era.

 

Aqueles olhares, silenciosos e ausentes pairavam no ar e asfixiavam-na. Tinha sempre pressa de sair dali.

 

Antes disso fora o susto a resvalar na linha do eléctrico do Beato, durante o Verão inteiro, quando uns olhos desvairados se lhe fixavam no decote da túnica fina, e o risco de choque com o do Poço do Bispo que voltava do fim da linha era uma iminência permanente.

 

E a pergunta:

 

– A senhora é médica? Tenho a minha mulher muito doente.

 

Nada como os homens dos táxis para contarem histórias:

 

– Queria pedir-lhe um favor. Se pudesse ir comigo a casa convencer a minha mulher de que gosto muito dela. Faço tudo o que ela me pede mas não consigo convencê-la. Ainda outro dia a trouxe com o amante aí no banco de trás. Podia vir comigo. A senhora tem um ar…

 

Deu-lhe o número dum psicólogo e pagou a corrida.

 

Se fosse agora chamava-se assédio. Mas, naquela altura, eram só histórias, misérias da vida, loucas ingenuidades do turbilhão da cidade.

 

Os da estrada velha, do período mais furtivo, esses, sim, eram muito intrigantes e insistentes. Não tão ingénuos nem tão loucos.

 

Fartou-se de lhes ouvir as histórias e comprou um carro. Por isso, naquela vez em que o foi buscar ao sítio combinado, sentiu-se finalmente livre por ninguém lhe perguntar:

 

– A senhora é a advogada?

 

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