Desindustrialização, Globalização, 3ª Série – 3ª Parte- A China na Europa, da cidade de Prato na Itália à SAAB na Suécia. Por Júlio Marques Mota.

4. De Ricardo a Stuart Mill, ainda outra aula para um ministro de ignorante disfarçado

 

(Continuação)

 

 

Um sector chave para a China – a relembrar o capitalismo Reversível

 

O sector da indústria da energia solar é um mercado estratégico para a China. Em 2010, o Banco estatal da China, China Development Bank, não hesitou em conceder 12 mil milhões em empréstimos à Trina Solar e à Suntech para financiar o seu desenvolvimento. De acordo com o Departamento Americano de Energia, o montante dos créditos para o sector ter-se-á elevado para cerca de 30 mil milhões no ano passado. Ainda assim, no início de 2011, China Development Bank concedeu um empréstimo de 7 mil milhões à Jinko Solar.”


A este nível do problema quanto ao desenvolvimento ou ao desaparecimento do sector europeu da produção das energias renováveis, dada a dureza da situação, dada a incapacidade de resposta da Comissão Europeia face à concorrência dita desleal a um sector de produção de ponta na Europa que pode assim vir a ser destruído, dada a violência do capitalismo que estes dados claramente pressupõem, aparecer-nos-ia o estudante marxista, que estaria um pouco melhor apetrechado para a análise da situação, a dizer-nos que estamos perante um mercado mundial onde a produção e a venda de bens e serviços não tem fronteiras e a perguntar-nos, com um ar manhoso, a relembrar-nos que mesmo no capitalismo no seu estado avançado, como agora, se queremos evitar o capitalismo selvagem precisamos de seguir as sugestões anteriormente expressas no texto de Bourguinat quanto à necessidade de um proteccionismo, pelo menos selectivo e de protecção portanto dos núcleos duros do tecido produtivo nacional em cada país. Depois, pergunta com alguma ansiedade pela resposta: e então a luta de classes, com a selva que se organizou, como é? Bom, aqui a resposta seria imediata para o calar se fosse essa a intenção e devolvia-lhe a pergunta: E a luta de classes na Europa, essa onde está? Mas não, não seria essa a nossa intenção. As greves que se deram na China este Verão, as que agora se dão e as que num futuro próximo se darão são disso um bom exemplo, de que a luta de classes será o motor da resolução, cá e lá, exactamente como Marx o entendia: proletários de todos os países, uni-vos. A força que os trabalhadores de lá hão-de ganhar será a esperança motora da força que os do lado de cá hão-de alcançar. A marcha da História será esta mas as suas variáveis serão longas e os desgastes poderão ser profundos, em extensão e em tempo de recuperação. Basta só pensar que indústria perdida não é automaticamente, depois, indústria recuperada. Mas a nossa preocupação neste texto não é descortinar as linhas de tensão que no futuro se irão decifrar, a nossa preocupação não é pois o futuro longínquo é o aqui e agora, é o querer descortinar, hoje, o presente já de amanhã, é procurar que este se torne a todos nós claramente acessível.


Já saí do ensino, e por cima de mim  muitas águas das chuvas já passaram, o que me permite  pensar  com alguma distância, agora, sobre estes dois estudantes reais ou imaginários, tanto se faz e nem eu sei. Escuto as  interrogações do estudante leitor aguerrido de Marx  e as certezas do estudante da Faculdade de Economia da Universidade Nova saído. Identifico-me com algumas dúvidas do primeiro  mas em nada me revejo nas certezas do segundo,  até porque nada há de mais de mais certo do que a dúvida que ele não tem. Depois,  penso também no texto que se acaba de escrever. Sinto que estes  dois estudantes estão  separados e muito  pela visão do mundo que cada um deles  tem, sem nada de comum,  incidindo sobre sociedades, sobre instituições, sobre mercados que é preciso conhecer, discutir, debater. Mas isto exige um conhecimento profundo das dinâmicas económicas e sociais  assim como de todos estes mercados, dos seus mecanismos, das suas estruturas, das suas leis, e isto é o oposto  do ensino que na Europa se exige e contra o qual em Harvard os estudantes já se manifestam, é o oposto também dos conhecimentos que cada um deles tem.

 

Nenhum dos nossos dois estudantes cabe neste perfil, o estudante de Marx seu leitor, porque numa leitura apressada de Marx não percebe que é necessário e urgente um retorno aos estudo dos grandes clássicos e estes dão por nome, Adam Smith, Ricardo, Stuart Mill, é necessário também e nesse mesmo sentido revisitar os grandes debates dos anos 70, enquanto o aluno pela Universidade Nova  formado tem apenas “decoradas” as certezas sobre o mundo que é necessário reformar, tem as certezas dos teoremas cuja aplicação a esta crise conduziram e que nem  sequer lha permitem perceber, tem a segurança dos factos estilizados e da compatibilidade das hipóteses subjacentes aos modelos que os tratam depois, mas sem se interrogar sobre o que há de válido num “facto estilizado”. A lembrarmo-nos de Joan Robinson, enfim. Hipóteses, modelos e resultados, sociedades e história, são elementos chaves a saber colocar no plano económico, no plano político da decisão, também. Hipóteses, modelos e resultados, sociedades e história terão que ser assim a matriz a partir da qual os estudantes possam entender a realidade dos mercados e das sociedades de hoje, na economia global, e serem capazes de compreender a utilização das ferramentas necessárias às modificações urgentes a fazer, e para que isto seja possível é então necessário criar uma outra arquitectura de ensino e com outros recursos, distante, muito distante dos quadros de pensamento idealizados e exigidos no actual quadro de objectivos das Instituições Europeias.


O texto vai longo, deixemo-lo por aqui. Mas com um desejo, uma vez que este texto tem como principal destino, as gentes de Economia, o de que o estudo em Economia venha a fornecer aos nossos estudantes uma forma completamente nova e diferente de ver e entender como funciona o mundo. A economia como ciência não irá dizer-lhes como é que a sociedade será organizada, nem irá determinar para ninguém os níveis de subordinação dos interesses privados aos interesses colectivos que se devem verificar, nem ainda como é que a riqueza produzida vai ser distribuída entre os seus múltiplos produtores. Mas, entender a lógica de funcionamento das sociedades e dos seus  mercados é levar a que os nossos estudantes ganhem uma nova forma de pensar sobre estas questões eternamente importantes, eternamente centrais no plano da formação política, eternamente por resolver. Não é desejar muito, é desejar para os nossos estudantes o que o Presidente da Universidade de  Yale, Richard C. Levin, tem desejado aos seus desde há alguns anos, é o que devemos a todos  tornar possível  em vez do  ataque brutal que por quase toda a Europa   se está a organizar sobre tudo o que é do domínio das funções soberanas  e preparar o pais e as suas gentes para criarem o seu futuro é que eu saiba  uma das suas principais funções.


Deixem-me concluir este texto com uma afirmação retirada de um trabalho sobre a Crise europeia e sobre Habermas:


“Se o projecto europeu falhar”, diz Habermas, “então há a questão de quanto tempo vai ser necessário demorar para chegar ao status quo novamente. Lembremo-nos da revolução alemã de 1848: quando falhou, levamos 100 anos para recuperar o mesmo nível de democracia como antes.


“Um futuro vago e um aviso do passado” – é o que Habermas nos oferece. “O presente é, pelo menos nos tempos que correm, inacessível.”


E com tudo isto acho que vale a pena…uma outra coisa, tudo fazer para se poder mudar as linhas de futuro que por nós e para nós as Instituições Comunitárias e os mercados globais estão a desenhar.


Boa leitura, portanto. E é tudo,


Júlio Marques Mota

 

 

Anexo


Uma aula prática

A análise de um sector: a indústria automóvel europeia na economia global

 

 

(Continua)

Leave a Reply