LIVROS PROIBIDOS NOS ÚLTIMOS TEMPOS DA DITADURA – 12 – por José Brandão

 

Um dos pressupostos em que assentava a lógica do Estado Novo era a de que veio para evitar que o caos da Primeira República se repetisse. Sobre este livro diz António Rego Chaves -« O Cinco de Outubro não é apenas o produto do labor de um historiador:constitui, também, uma bem sucedida tentativa de nos revelar o quotidianode uma época em que se chocavam indivíduos, mentalidades e classes sociais apostados em fazer sair o País do caos económico, político e moral em que se encontrava após o Ultimato, a ditadura de João Franco e o Regicídio. Com mão de mestre, Jacinto Baptista folheou os jornais diários e outras fontes coevas, confrontou opiniões, releu Ramalho Ortigão, Fialhode Almeida, Carlos Malheiro Dias. E, corria o ano de 1964, deu à estampa este livro». Ou seja, Jacinto Baptista que nos iria. dois anos depois, proporcionar outra uma obra ímpar – Um Jornal na Revolução, analisando com lupa de historiador e de sociólogo a edição de O Mundo do dia 5 de Outubro de 1910, deu-nos esta obra que uma polícia estúpida, ao serviço de um regime que odiava a inteligência, resolveu que não devíamos ler.

 

Neste quadro surge ainda mais um livro de Mao Tse Tung (da Livraria Ler). Citações de Mao Tse Tung. Luís Alves, o dono da livraria e editor do livro de Mao, diz numa entrevista: «Fazíamos, por exemplo, 5000 exemplares e a tipografia passáva-nos uma factura de 1500. Sobre esses 1500 é que nós facturávamos a todas as livrarias. Ficavam 3500 para vender pela porta do cavalo, como se costumava dizer. Era isso que nos salvava. Dos 1500 eram apreendidos, se calhar, uns 700 ou 800. Isto porque as apreensões vinham 3 ou 4 dias depois de estarem os livros nas livrarias. Deu-se um caso muito engraçado com o livro “Citações do Presidente Mao Tse-Tung”, que editei em 1972 ou 1973. No tempo do Marcelo, veio uma circular da censura, em que este livro deixava de ser proibido. Eu tinha o livro do Mao Tse-Tung debaixo da mesa, que já vinha da China traduzido para português. Fui à tipografia e pedi para me fazerem 5000 exemplares, visto que estava autorizado. Só que quando o livro estava pronto para entrega, apareceu lá uma brigada da PIDE, que apreendeu os livros, mas não os levou logo. Avisaram-me da tipografia e eu peguei na circular e fui à sede da PIDE, na António Maria Cardoso. Apresentei-me e apresentei o caso. Eles admitiram que tinham apreendido os livros e eu mostrei a circular da censura. Eles tiveram que dar o braço a torcer e dar ordem à tipografia para me entregar os livros

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