UM CAFÉ NA INTERNET – Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 36 – Em Mós (continuação II)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

          Palmilhei cento e cinquenta quilómetros em cinco dias, não me sinto cansada nem incapacitada para prosseguir, não obstante as bolhas nos pés, que teria evitado usando as meias de lã, porém mesmo sem estas, caminhando menos quilómetros, calçando um pouco os crocs, poderei ultrapassar a dificuldade; as bolhas saram, se forem tratadas. Mais inquietantes são as manchas nas canelas… Alergia ao sol ou doença de Lyme?

 

 

        Os peregrinos espanhóis questionam, não será melhor, em vez de renunciares, a três dias de Santiago, prosseguires o Caminho e, se realmente necessário, ires às urgências de um hospital – em Pontevedra, por exemplo? A experiência em Lisboa, no hospital de S. José, tornou-me desconfiada, não, se a bactéria de Lyme persiste, cumpre reorganizar a agenda da minha mãe no SNS, uma epopeia, comprar um bilhete de avião, preparar a partida para França…

 

 

          Com as peripécias da semana a girar na cabeça, quase não durmo durante toda a noite. Às cinco e meia tocam os primeiros despertadores, corresponde às quatro e meia portuguesas, ainda é de noite mas todos saltam com entusiasmo do sonho para a caminhada, hoje é diferente para mim apenas, sento-me no beliche, vejo os outros ir e vir, excluída do movimento alegre da partida. O espanhol das Canárias insiste:

 

 

          – Interrompes a caminhada? Pensaste bem? Tens a certeza?

 

 

          Não tenho mas interrompo-a. Na dúvida, mais vale. Ele volta a passar-me as pomadas para eu tratar as canelas e um dedo dos pés. Separamo-nos com pena de não prosseguirmos juntos o Caminho. Despeço-me igualmente dos suecos. Lena é uma caminhante chata, uma pessoa excelente; havemos de comunicar por correio electrónico. Lars é um bom companheiro. Despeço-me das raparigas alemãs. Não voltarei a encontrar o Cid Campeador.

 

 

       O Caminho de Santiago é a construção de uma história colectiva, passo a passo, dia após dia, uma peripécia, uma conversa, um quiproquó juntam-se a todos os outros, acabam por compor a imagem do grupo que, nos mesmos dias, percorreu o mesmo caminho. Contar o Caminho de Santiago é obrigatoriamente fazer um retrato de grupo. (E vivemos numa sociedade em que raramente entramos de livre vontade num fazer colectivo.) Neste que deixo de maneira abrupta inacabado, recordamos aqueles de quem fui falando, notamos ao fundo, pouco nítido, um grupo numeroso de alemães, restam os espaços vazios dos que, nos últimos dias, se haveriam ainda de instalar nas primeiras filas. Quem interrompe a caminhada antes do fim não pode contar a história completa. 

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