Maryvonne seguiu em Julho de 2010 o Caminho de Santiago e embora, desde o início, o projecto fosse caminhar do Porto a Valença, como todos os outros iam para Santiago de Compostela, teve pela primeira vez na vida (ou quase) a impressão de desistir.
A interrupção do Caminho representa o risco maior e definitivo, que todos temem, que todos afastam: cada dia de caminhada é um aglomerado de incontáveis vitórias. A queda, o cansaço, a tendinite, a insolação, a saturação, a infecção das bolhas, a intolerância dos albergues são apenas os dragões mais vulgares contra os quais o caminhante vai sempre lutando e, se acrescentarmos a esta peleja os encontros, o prazer do movimento, a euforia da descoberta, o desdobramento do tempo, a multiplicação das peripécias, a consciência de cada passo ser uma metáfora, de empurrarmos os limites das possibilidades, de participarmos numa aventura colectiva, compreendemos que, apesar de não haver espírito de competição, o abandono da caminhada seja uma simbólica derrota. Quem desiste, conforma-se com a incapacidade, a incompletude, a imperfeição… Não alcança Santiago de Compostela. (O Dragão venceu o caminhante.)
Contaram-me que, nos diferentes Caminhos conduzindo a Santiago, a cem quilómetros do fim, muitos espanhóis calcorreiam as últimas etapas, não pela fé, não pela experiência, não pela descoberta, não pelas paisagens, não pelo exercício físico, não pelo prazer de caminhar, não pelo aperfeiçoamento interior – mas por razões profissionais. Para acrescentarem ao currículo a Compostela, que prova a força, a resistência, a tenacidade, a concentração, a disponibilidade, a global capacidade de levar um projecto ao seu termo.
Tomo lentamente o pequeno almoço, leite com cacau, biscoitos vitaminados e as duas últimas laranjas, lavo a loiça, arrumo a mochila, que agora parece leve, calço as botas… A pele das pernas, untada com pomada anti-alergia, mostra-se já menos colorida e muito menos inchada. Talvez não valha a pena desistir… Faltam três dias de caminhada para chegar a Santiago. E se afinal continuasse? Se fosse apanhar os outros andantes?
Não, o mais difícil da renúncia foi o momento da partida – já passou. O adeus. Não acredito em premonições mas tenho a impressão bizarra de ter que interromper aqui este caminho. E, se não o fizer, sentir-me-ei doravante incapaz de coincidir com o aqui e agora. Peço portanto boleia para o Porrinho, prossigo em sucessivos autocarros. Vou perto de Coimbra, o meu irmão telefona-me: é preciso acompanhar a nossa mãe ao hospital para fazer análises. A interrupção da caminhada foi afinal, por razões alheias à minha saúde, a decisão mais acertada no momento mais propício.

