Júilio Marques Mota
Nasceu em 1943 na freguesia do Fratel, concelho de Vila Velha de Ródão, distrito de Castelo Branco.
Faz parte do corpo docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Por sua iniciativa foram traduzidos e publicados títulos significativos no meio editorial português dos últimos cinco anos, tais como, O Futuro do Sucesso: Viver e Trabalhar na Nova Economia, de Robert Reich (Lisboa, Terramar, 2004); A Democracia e o Mercado, de Jean Paul Fitoussi, (Lisboa, Terramar, 2005); As Deslocalizações de Empresas: Ainda Teremos Empregos Amanhã?, de Philippe Villemus, (Lisboa, Edições Asa, 2007),; Tornar Eficaz a Globalização, de Joseph Stiglitz, (Lisboa, Edições Asa, 2007).
O seu depoimento intitula-se
Democracia, em Portugal, hoje
A priori, não estava a contar participar directamente neste debate pela simples razão de que não sei muito bem o que dizer. E, não sei.
O que sei neste momento ou sobretudo o que sinto é que não estamos em democracia, muito longe disso. Há vectores que faltam como um forte dispositivo de censura e de repressão para que se possa chamar à actual situação de fascismo, diria um UlrichBeck que por isso mesmo não pode chamar IV Reich à actual situação alemã. Equivalente funcional, dirão os italianos, mas mesmo assim prefiro chamar-lhe fascismo moderno, onde a repressão física é substituída por uma repressão assente na precariedade, onde a repressão da palavra é substituída pelo medo de falar. Transversal a tudo isto temos o medo de cair do desemprego a quem tem emprego, temos a terrível angústia de ter medo de não conseguir emprego para aqueles que estão desempregados. Não é por caso que nenhuns dos mecanismos de precarização da sociedade que durante o reinado de Sócrates foram criados, a este nível bem repressivos, foram até agora eliminados. Veja-se a lógica das avaliações, vejam-se os relatórios sobre instituições públicas feitas por organismos internacionais bem pagos, veja-se a soberania dos chefes nas classificações quando muitos destes são politicamente nomeados. Nada disto foi modificado, Porquê? Porque constituem cutelos múltiplos sobre os que trabalham, garantindo-lhes a precariedade como certeza e o medo como resultado. Uma sociedade assente no medo, não é uma sociedade livre e uma sociedade que não é livre não é uma sociedade democrática. Duas a três linhas de ataque frontal ao actual sistema devem pelos portugueses ser escolhidas: a luta por uma melhor informação, a luta por uma melhor educação, exigente na formação simultânea de técnicos e de cidadãos , a luta pelo respeito dos nossos direitos como trabalhadores, privados ou públicos e no caso do sector Público lutar contra os sistemas absurdos da avaliação, da notação, dos ratings uma vez que estes, assentes na lei do chefe, único, na lei do apparatchik, são um mecanismo não de uma melhor qualidade de serviços ( veja-se no ensino) mas sim um mecanismo no mínimo de pressão.
Para mim são estes os dados. Mais ainda o espectáculo degradante que se assistiu desde que Passos Coelho assumiu o poder e sobretudo nestas últimas semanas, o despudor com que várias posições ou decisões são assumidas, desde Catrogas a Manuelas Ferreira Leite ou mesmo a decisões governamentais mostram que estamos perante um plano fortemente inclinado, no fundo do qual necessariamente encontraremos a porta de saída, a via de saída deste inferno que mercados, governo e Instituições Regionais (União Europeia) e Internacionais (FMI) nos andam a criar. Até lá, há que democraticamente trabalhar para que se tenha ou se ganhe consciência de como é que chegámos até aqui, para que se ganhe consciência, dos responsáveis e dos mecanismos chaves que até aqui nos trouxeram e que da democracia nos tiraram.
Depois, vivemos um tempo de globalização em que desta situação não creio que se saia sozinho, país a país. Simplesmente, assim. E que vemos nós? Vemos o discurso europeu, o da ida aos mercados ou um ainda um discurso mais perverso, que tem que se ser assim porque temos que pagar o que devemos, esquecendo-se de dizerem que querem que paguemos a dívida cujo valor são os credores que o estipulam.
E já não é por acaso que um homem do sistema, Mário Monti, previne os alemães de que a União Europeia “deve recompensar os esforços da Itália para combater a crise da dívida sob pena de ver cair o país nas mãos dos populistas antieuropeus. Este raciocínio aplica-se também a Portugal, à Espanha, à Grécia, à Irlanda, à França e ao próximo que se seguir.
Lamento dizê-lo assim; a rua é o caminho, é o primeiro passo do esclarecimento, as urnas o destino, o espaço de viragem, e a denúncia do que se está a passar é um imperativo da democracia.

