COMPOSITORES DESCONHECIDOS – Teodorico Pedrini – por Paulo Rato

 

                                                    TEODORICO PEDRINI

 

                                                      Dé Lĭgé 德理格

 

 

Fermo, 30 de Junho de 1671 – Beijing, 10 de Dezembro de 1746)

 

 

 

 

 

TEODORICO PEDRINI nasceu em Fermo, nas Marche, em 1671.

 

Revelando-se um excelente organista, acede aos salões da aristocracia romana.

 

Um desgosto de amor leva-o a ingressar na Congregação da Missão (dos lazaristas).

 

Tendo em conta as suas aptidões musicais, o Papa confia-lhe uma missão junto do Imperador da China, Kangxi, um apaixonado pela música, que vivia rodeado de instrumentos de música ocidentais e queria ter ao seu serviço um artista ou músico europeu.

 

Refira-se que um português, o jesuíta Tomás Pereira, vivia na corte de Pequim desde 1679, tocando e ensinando música europeia, aí vindo a falecer, em 1708, deixando inacabado um importante tratado de música, encomendado pelo imperador. Há relatos de que Pereira maravilhara o Imperador por ser capaz de tocar, ao cravo, com total exactidão, uma peça de música chinesa, imediatamente após a ter ouvido pela 1.ª vez.

 

 

 

Pedrini parte, então, em 1701, para um extraordinário périplo.

 

Deveria acompanhar o legado papal, Monsenhor Maillard de Tournan, mas não conseguiu chegar a tempo de se lhe juntar nas Canárias, e enquanto o navio de Tournan seguia pela rota do Cabo, o de Pedrini, empurrado pelos ventos alísios para a América do Sul, acabou por ser obrigado a atravessar o Estreito de Magalhães.

 

Assim, Pedrini foi forçado a desembarcar no Peru, passou pela Guatemala e Acapulco, no México, onde conseguiu embarcar para as Filipinas, tendo de fretar aí um navio para, depois de três meses de tempestades e naufrágios, chegar a Macau a tempo de entregar, in articulo mortis, o barrete cardinalício a Monsenhor de Tournan, que fora aprisionado pelo Imperador.

 

 

Chegou, finalmente, a Pequim 10 anos após a sua partida.

 

Os seus talentos musicais proporcionaram-lhe uma excelente recepção por parte do imperador Kangxi e Pedrini permaneceu na corte chinesa, ao serviço de sucessivos imperadores, até morrer, em 1746. Foi encarregado de manter e afinar os instrumentos e também de construir alguns, neles se incluindo um órgão para a igreja dos Jesuítas e outro para o imperador. Terminou o tratado que Tomás Pereira deixara incompleto, enquanto acompanhava o Imperador nas suas viagens, ensinava música aos seus filhos e exercia outras actividades ligadas à música.

 

Ainda no reinado de Kangxi recebeu a mais alta distinção jamais concedida a um estrangeiro, tornando Teodorico, já com o nome chinês de Te Li-Ko (ou Dé Ligé), no Mandarim Branco. E Te Li-Ko terá levado uma vida mais de mandarim que de monge, em que entram amores, filhos, altos e baixos de uma carreira também política.

 

A sua aventurosa vida foi objecto do célebre romance do escritor francês Jacques Baudouin “Le Mandarin blanc”.

 

Embora as obras de Teodorico Pedrini não revelem influências orientais, há nelas algumas originalidades alheias à música europeia do seu tempo, como alguns encadeamentos harmónicos e a organização tonal de certos andamentos, que os intérpretes quase consideraram como erros, antes de, no decurso da execução, compreenderem o seu inegável interesse artístico. 

 

O flautista e maestro Jean-Christophe Frisch, um dos intérpretes e musicólogos que, modernamente, se debruçaram sobre a obra musical de Pedrini, deu-a a conhecer, em concertos e gravações, com os agrupamentos Musique des Lumières e Le Baroque Nomade.

São interpretações deste último agrupamento – que foi possível escutar ao vivo em Lisboa, em Maio do ano passado, no Museu do Oriente – que propomos, como exemplo de uma obra que se foi impregnando de subtis elementos orientais, adquirindo características originais e particularíssimas:

 

Primeiro, a Sonata IV em sol menor, para violoncelo

 

 

 

 

 

 

E, a seguir, a Sonata VIII em Si bemol maior, para flauta

 

 

 

 

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