* Sociólogo
Vasco Lourenço começa por recusar o actual estado de coisas em Portugal, afirmando claramente eu não quero esta democracia. E diz ainda que, como militar de Abril, se bateu pelo aprofundamento da democracia, pela conjugação da democracia representativa pela democracia participativa. Refere a necessidade de acabar com a enorme separação, a enorme distância a que os eleitos se colocam dos eleitores, para conseguir daqueles uma maior responsabilização. É necessária uma participação a todo o tempo. E Vasco Lourenço chama a atenção para que a legalidade do poder não é suficiente, é preciso legitimidade para o exercer. Apela à participação nas organizações de base, de molde a que estas não sejam monopolizadas pelas organizações políticas, que só justificam a sua existência no campo da democracia representativa. Termina chamando a atenção para a necessidade da transformação da justiça em Portugal.
Pessoalmente, compreendo a preocupação de Vasco Lourenço, um dos obreiros do 25 de Abril, com a situação em Portugal. Na verdade, é impensável que o actual estado de coisas no nosso país fosse desejado por alguém, defensor da democracia e do bem-estar dos portugueses, assim como da imagem do nosso país. Vasco Lourenço aponta, e bem, que houve uma paragem no processo de democratização do nosso país. É que a democracia é um processo dinâmico, e não uma situação estática, que uma vez alcançada, cada um regressa à sua concha, e retoma o ritmo casa-trabalho-casa-televisão-cama.
Haveria que, em continuação, fazer uma reflexão sobre o processo histórico do após 25 de Abril, e como chegámos aqui. E outra reflexão sobre os diferentes poderes em Portugal, quais são as grandes influências que se exercem sobre a sociedade portuguesa. Porque é que a estratificação social portuguesa não sofreu grandes alterações, pelo contrário está a regredir para situações idênticas, ou talvez ainda piores, do que anteriormente. Porque é as melhorias na vida dos portugueses, que inegavelmente as houve no pós-25 de Abril, estão a ser tão ameaçadas.
Tenho a certeza que Vasco Lourenço gostará de dar o seu contributo para estas reflexões.
Comentário de Josep Anton Vidal* ao depoimento de Paulo Ferreira da Cunha
*escritor, editor e pedagogo catalão
É meritório o esforço para cozinhar pratos deliciosos. As salas de aula são espaços abertos à criatividade dos professores, mesmo com um mau sistema educacional. Eu sempre acreditei que a sala de aula é – talvez não totalmente, mas substancialmente – uma realidade separada do sistema educacional. Em qualquer sistema de ensino, os professores podem preparar lições suculentas, como o chef pode preparar pratos deliciosos.
Mas o nosso problema hoje não é a qualidade do menu, mas a falta de fome. Nada é bom para aqueles que não estão com fome. Se queremos uma sociedade melhor, um melhor sistema de educação, melhor consciência democrática, uma maior participação social … temos de aprender e ensinar a fome: a fome de solidariedade, para melhorar a nossa sociedade; fome de cultura (curiosidade), para melhorar o aprendizagem; fome de justiça, para melhorar a vida democrática; fome de progresso, para orientar e melhorar o nosso trabalho; fome de convivência, para melhorar o diálogo, o respeito, a participação; fome de pensamento, para aprofundar nosso critério, para construir solidamente os nosos argumentos…
Quando estávamos com fome, nós pedimos – exigimos – à sociedade pratos suculentos. Quando, com muito esforço, finalmente conseguimos pôr a mesa, em vez de pratos suculentos, empanturrámo-nos com forragem (consumismo, televisão embrutecedora, indiferença social, valores hedonistas, egocentrismo …). E temo que hoje, quando parece que ressurge novamente a fome, só saibamos pedir forragem. Por esta razão temos que “educar” a fome. Acho que este deve ser o primeiro e principal trabalho dos professores e o empenho das pessoas conscientes da sua responsabilidade política.

Caro Josep Anton Vidal:Muito grato pelo seu comentário.A imagem da fome é excelente.Realmente, o que estas poucas décadas de democracia depois do 25 de Abril fizeram de melhor neste setor foi tentar encher de néctar delicioso recipientes já cheios… Tudo trasborda, e eles continuam com o seu líquido anterior sem usufruírem do néctar…Há hoje, apesar de tudo, uma grande oferta cultural e educativa, mas, ao mesmo tempo, seres robotizados pela falsa cultura mediática básica de enlatados e narcotizantes, desprezam o que se lhes quer dar. Não sei como se ensina a fome de saber. Noutras partes do mundo, como mesmo no Brasil, já vi alunos percorrerem centenas de quilómetros para assistir a uma aula. Isso é fome e sede de saber. Será que teremos de pensar que a melhor maneira de essa fome se manifestar é entrar em sistema de raridade de oferta, como, por exemplo, em situação de extrema penúria ou de censura? Serão os ditadores os melhores amigos dessa sede? Alguém disse que o maior incentivo à cultura era prender os artistas e os escritores. Gostaria, porém, que isso não tivesse que ser assim. E que os media, a começar pela televisão, e a escola, a começar pela primária, ensinassem todos e não uma elite a gostar do saber e da cultura. E a pensar pela própria cabeça. Será uma utopia assim tão bizarra?