Pedro Godinho Um Escritor Notável
(Adão Cruz)
Como todos os dias, escreve.
Sentado à sua mesa de trabalho, escreve.
Com a regularidade dum relógio suíço. Num ritual pré-estabelecido. Escreve.
Espera a madrugada – é mais poético – para começar. Senta-se à mesa de trabalho – só escreve na mesa reservada a essa e nenhuma outra actividade – abre o caderno e escreve.
Escreve sempre nos mesmos cadernos, um modelo feito fetiche pessoal. Como a tinta, sempre a mesma cor, e a caneta, sempre a mesma.
Sobre a mesa de trabalho apenas os cadernos, a caneta e o tinteiro. Nada mais. À espera do dia seguinte.
Não é acidental ou um hábito cego. Antes uma regra estudada e auto-imposta.
O seu desejo é ser reconhecido como um grande escritor, o maior escritor, senão de todos os tempos, do seu tempo.
A escrita é o seu meio. Não podia ter escolhido outro. Desde cedo, acredita que o seu destino é escrever e alcançar a fama.
Mais que uma vocação, é uma fatalidade. Um fado, prefere dizer. Di-lo-á, quando chegar o momento.
Antecipa-se nos jornais, rádio e televisão, e os inúmeros convites, a disputarem a sua presença, a sua palavra.
Enquanto espera a notoriedade, pratica o seu ritual da escrita.
A princípio agradava-lhe a angústia da página em branco. O seu arquétipo do escritor exigia os longos períodos frente ao papel, esperando a voz interior e profunda que lhe ditaria as histórias que, à medida que iam sendo escritas, ganhariam a autonomia imposta pelas suas personagens, das quais ele, autor, seria o intérprete, a mão e a voz.E escreve. As suas reflexões, os seus sentimentos, as suas alegrias, as suas dores, as suas angústias, o que pensa enquanto escreve e o que pensa sobre a escrita e os escritores.
Página atrás de página.
Textos que ambiciona venham a ser tidos como um ponto de viragem, um marco da literatura universal.
Escreve só, como vive. E, escrevendo, sente-se superior ao comum dos mortais. E anseia a chegada da notoriedade.
Mas só tem a crítica curta mas radical do único editor a quem mostrou o que escreveu: “Não tem aqui nada”.
A contragosto, admitira o carácter fragmentário dos textos, sem nada que os ligasse. Mas pensara nisso como uma vantagem literária, questão de vanguardismo. Talvez o editor fosse demasiado comercial.
Dado o imperativo de publicar, condição necessária ao reconhecimento, condescendeu em escrever algo diferente: uma novela erótica – afinal o sexo sempre vendeu bem, é comercial quanto baste, e, por outro lado, a literatura erótica sempre foi reconhecida como digna pela intelectualidade influente.
Mataria dois coelhos de uma só cajadada: escreveria um best-seller passível de ser vendido nas grandes superfícies mas que lhe asseguraria igualmente o respeito e a entrada no panteão literário.
Ao antigo ritual junta a nudez.
Porque acha que escrever nu o ajudará a encarnar o erotismo que quer criar; mas também para ter matéria para promoção futura:
“Um novíssimo escritor veio revolucionar a literatura erótica com a sua primeira obra.
Não apenas pela frescura da escrita mas também pelo seu método de imersão total, que leva o autor à nudez total durante o período de produção literária.
É um corpo nu para uma escrita desnudada. Uma revelação nas letras, uma alegoria e uma crítica à literatura e aos seus autores, na forma e no conteúdo. Uma escrita tão despida quanto o seu autor”.
Nu, toma o pequeno-almoço, lê o jornal, cozinha, lava e engoma a roupa, limpa a casa, anda de um lado para o outro, reflecte e escreve.
Mas a escrita não flui.
Sai para a varanda procurando inspiração na vida de quem passa.
A sua nudez não passa desapercebida e suscita reacções. As pessoas comentam, discutem, umas aplaudem-no enquanto outras o insultam ou ameaçam.
Quando a polícia o detém os repórteres estão presentes.
Enquanto o conduzem para a prisão, pensa, satisfeito, que fará a primeira página das notícias. Finalmente.
Afinal, uma notoriedade vale tanto como outra.


