Desindustrialização, Globalização, 3ª Série, 4ª Parte – Crescimento e produtividade

Um texto para Álvaro Santos Pereira ler a Passos Coelho – um relatório da McKinsey – VI. Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

(Conclusão)

 

A competitividade dos sectores importa mais do que o mix sectorial

 

Alguns observadores argumentam que os países podem ultrapassar os seus concorrentes, porque terão um mix de sectores que têm uma dinâmica de crescimento mais favorável. Segundo o que a nossa análise indica claramente este não é o caso. Na verdade, o mix de sectores não explica diferenças no desempenho de crescimento dos países com níveis de rendimento semelhantes entre si. O mix de sectores é surpreendentemente semelhante em todos os países e sensivelmente equivalente para iguais níveis de desenvolvimento económico[1]. A maioria dos países e das grandes regiões, tem uma grande parte de actividades similares, incluindo as ventas a retalho e outros serviços locais, indústria nacional, como o processamento de alimentos ou ainda como a construção, os transporte e outros serviços de infra-estruturas. As pequenas diferenças nesses pesos relativos dos sectores importam menos do que os seus desempenhos comparativamente aos seus parceiros[2].


Durante a última década, o crescimento do PIB nos países desenvolvidos tem variado entre 0,4% ao ano no Japão, e 3,3% nos Estados Unidos (veja-se a coluna da esquerda do Esquema 6). Tendo em conta que cada país tem sua própria combinação de sectores, o seu próprio mix de sectores, dentro de uma estrutura muito semelhante, calculou-se de quanto é que o valor acrescentado global teria crescido em cada país, se cada sector tivesse crescido à taxa média desse sector, mas no conjunto dos países considerados. Este crescimento teórico, estimado a partir do mix de sectores inicial específico do país e às taxas médias verificadas de cada sector à escala internacional, a que chamamos “crescimento momentum”, mostra, na verdade, uma distribuição muito estreita entre 1,8% para a Coreia do Sul e 2,3% para os Estados Unidos, França e Alemanha (ver a coluna do meio do Esquema 6). Por outro lado, a diferença entre a taxa de crescimento real, a coluna do lado esquerdo, e esta dinâmica de crescimento teórica, a da estrutura sectorial com as taxas de crescimento internacionais, é muito maior, variando entre 0,9% nos Estados Unidos e 1,7% no Japão (ver a coluna do lado direito).

 

 

Esquema 6

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Isso mostra que não é o mix de sectores que decide o crescimento nas economias dos países desenvolvidos, mas sim o desempenho verificado em cada sector quando comparado com o mesmo sector dos países concorrentes[3].

 

 

Este exercício produziu um comportamento semelhante nos países em desenvolvimento (Esquema 7).

 

 

Esquema 7 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É aí visível uma variação ligeiramente maior em termos de crescimento determinado pelo mix sectorial específico de cada país – o crescimento momentum – que varia entre 5,2 % na Índia a 6,7% na Rússia. Isto é em grande parte o resultado das diferenças dos pesos relativos da agricultura e da indústria transformadora nos primeiros estágios de desenvolvimento económico. No entanto, o esquema mostra novamente que é a diferença na variação no desempenho verificado nos países, a ocorrer dentro do quadro do seu próprio mix sectorial, que varia entre 3,4% no caso da China e 4,1% no da África do Sul, que explica as diferenças globais no crescimento. A China teve a mais baixa taxa de crescimento expressa pelo mix (momentum), mas a taxa de crescimento de facto verificada foi mais alta. A África do Sul teve a taxa de crescimento mais elevada quando expressa pelo mix, mas a menor taxa de crescimento global. Isso demonstra o facto de que, mesmo que os países de mais rápido crescimento tenham começado com uma combinação de sectores menos favorável, a que chamamos mix de sectores, estes países ultrapassaram os seus pares em termos da sua competitividade sectorial[4].

 

 

McKinsey Global Institute,  How to compete and grow: A sector guide to policy, Março de 2010

 

FIM


[1] No início do seu processo de desenvolvimento económico a deslocação de mão-de-obra da agricultura para as indústrias e serviços mais produtivos deu uma grande contribuição para o crescimento. Nós centramos a nossa atenção sobre economias onde este sector de transição ocorreu em grande escala. Os nossos resultados são consistentes com os de Bart van Ark, “Sectoral growth accounting and structural change in post-war Europe”, em B. Van Ark and N. F. R. Crafts, eds., Quantitative Aspects of Post-War European Economic Growth, pp. 84–164, Cambridge, MA: CEPR/Cambridge University Press; Florence Jaumotte e Nikola Spatafora, “Asia rising: Patterns of economic development and growth,” chapter 3, World Economic Outlook, International Monetary Fund, Setembro 2006. Ver também Diana Farrell, Antonio Puron, and Jaana Remes, “Beyond cheap labor: Lessons for developing economies,” McKinsey Quarterly, 2005 Number 1 (www.mckinseyquarterly.com).

[2] Mais ainda, a actual dimensão de um sector pode não ser um bom indicador da capacidade de crescimento de um sector, no futuro. A importância relativa da indústria transformadora é maior na Alemanha e a na Coreia do Sul do que nos Estados Unidos ou Singapura, mas a contribuição da indústria transformadora para o crescimento global dependerá da capacidade destes países em ultrapassar os seus parceiros.

[3] As nossas categorias de sectores incluem mais que 100 sectores na nossa base de dados sobre crescimento.

[4] Há muitas razões que explicam as diferenças nas performances sectoriais entre os países, incluindo o ambiente macroeconómico geral, o quadro de política económica, a regulação específica por sectores e as diferentes posições de partida. Compreender o papel destes diferentes factores é a principal função deste projecto.

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