Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.
(Continuação)
Poder-se-ia dizer, como muitos dizem, que deslocalizar os empregos para o exterior não é grande problema porque o alto valor acrescentado pelo trabalho e muitos dos lucros, permanecem nos EUA e pode muito bem continuar a ser assim. Mas que tipo de sociedade estamos nós a fazer se esta é assim constituída de pessoas altamente bem pagas pelo seu trabalho de alto valor acrescentado e de massas de desempregados? Desde os primeiros dias de Silicon Valley, o dinheiro investido nas empresas tem aumentado dramaticamente, mas apenas geram- se cada vez menos empregos. Simplificando, os EUA tornaram-se nas altas tecnologias imensamente ineficientes na criação de empregos para trabalhadores americanos. Podemos estar menos conscientes desta ineficiência crescente, contudo, porque a nossa história de criação de empregos ao longo das últimas décadas tem sido espectacular, escondendo os nossos gastos cada vez maiores para criar cada novo investimento. Será que devemos esperar e não agir com base nos indicadores anteriores? Pessoalmente, penso que seria um erro trágico, porque a única chance que temos para inverter a deterioração é se agirmos rápida e decisivamente. Para já, o declínio tem sido claramente evidente. Este pode ser medido por meio de uma simples estimativa de cálculo- uma estimativa do custo por emprego efectivo de uma empresa, custo por posto de trabalho. Primeiro, assuma o investimento inicial mais o investimento durante a sua fase de crescimento de uma empresa. Dada esta soma, divida depois esse valor pelo número de empregados que trabalham nessa empresa 10 anos depois. Estas contas na Intel deram cerca de $ 650 – 3600 dólares por posto de trabalho ajustados pela inflação. A firma National Semiconductor (NSM), outra companhia de chips, foi ainda mais eficiente dando o valor de 2.000 por emprego. Fazendo os mesmos cálculos para um certo número de empresas do Silicon Valley mostra-se que o custo de criação de empregos nos EUA cresceu de alguns milhares de dólares por posto nos primeiros anos a cem mil dólares de hoje (figura A).
A razão é óbvia: as empresas simplesmente contratam cada vez menos funcionários à medida que mais trabalho é feito por fornecedores externos, geralmente na Ásia.
A degradação da máquina de criar postos de trabalho não é apenas em computadores. Considere, por exemplo, as energias alternativas, uma indústria emergente, onde há muita inovação. A energia fotovoltaica, por exemplo, é uma invenção dos EUA. Na sua utilização em aplicações domésticas em casa também os pioneiros foram os EUA. No ano passado, eu decidi contribuir com a minha parte para a conservação de energia e decidi então equipar a minha casa com energia solar. A minha esposa e eu conversámos com quatro empresas locais em energia solar. Como parte da nossa cuidadosa pesquisa verifiquei onde é que eram adquiridos os painéis fotovoltaicos, a peça-chave do sistema. Todos os painéis que eles usam vêm da China. Uma empresa de Silicon Valley vende os equipamentos utilizados para a fabricação das películas foto-activas.
Eles vendem 10 vezes mais máquinas para a China do que para os fabricantes dos EUA, e esta diferença está a crescer (figura D).
Não surpreendentemente, o emprego na fabricação de filmes fotovoltaicos e de painéis nos EUA é estimada em cerca de 10.000, o que é uma muito pequena percentagem de emprego em todo o mundo.
Há mais em jogo do que empregos exportados. Há também algumas tecnologias, tanto em termos de produção como de inovação que ocorrem no exterior.
O mesmo se passa com as baterias de avançada tecnologia. Levaram-se anos e muitas falsas partidas, mas finalmente estamos prestes a testemunhar a produção em massa de carros eléctricos e caminhões. Todos eles dependem de baterias de lítio. Para se ter uma ideia sobre a questão, os microprocessadores estão, em importância, para os computadores, como o estão as baterias para os veículos eléctricos. Ao contrário dos microprocessadores, a produção de baterias em lítio é muito baixa nos Estados Unidos (figura E).
É aqui que está o problema. A nova indústria precisa de um ecossistema em que o know how tecnológico se vai acumulando, em que a experiência se baseia e se transforma em mais experiência ainda e em que se desenvolvem relações estreitas entre fornecedores e clientes. Os EUA perderam a liderança em baterias desde há 30 anos atrás, quando acabaram com a produção interna de bens electrónicos de consumo final. Quem fez as baterias, em seguida, ganhou a exposição e as relações necessárias para aprender a fabricar baterias para o mercado mais exigente dos laptop PC, e depois disso, para o mercado de automóveis ainda mais exigente. As empresas dos EUA não participaram na primeira fase e, consequentemente, não estavam na corrida para tudo o que se lhes seguiu. Duvido que alguma vez mais venham a alcançá-la.
(Continua)



