(Continuação)
Será que todos estes factos da relação adultos/criança são culturalmente entendidos? Será que, a relação paterna/materna é a de todo o adulto com toda a criança? A minha observação dos factos diz, não. As minhas conclusões de facto dizem sim, ou que, pelo menos, é preciso trabalhar forte e duro para criarmos grupos sociais, com ou sem recursos abundantes, não só por causa da afectividade simpática e serena, bem como pela necessidade de transferir essa outra parte que todo o adulto sabe: optar, decidir, distinguir. Estes três conceitos, retirados por mim das minhas análises económicas que fazem parte do real, são para expandir à Dante, à Erasmus, à Philippe Buonarroti, à Bento Espinoza, à Tomás de Aquino – o introdutor de Aristóteles via Averröes entre nós – a capacidade de filosofar e pensar com arte, sermos pais.
Sim, é verdade que a denomino ilusão de sermos pais. Por dois motivos: porque os mais novos em breve serão os adultos do grupo social e mudando na hierarquia por meio de vários processos rituais, formam a sua casa, o seu lar, tomam distância: anseio de autonomia. Essa altura das nossas vidas quando, mais uma vez, ficamos pais sem filhos por perto: na nossa afectividade e, eventualmente, no cumprimento ou no pedido de conselho. Ideia a estudar mais à frente da forma simples com que sempre tenho analisado o facto que me parecia o mais importante: toda sociedade está dividida em duas culturas, a dos pequenos e a dos adultos[1]. Ideia que começara a defender em 1998 no meu texto sobre o imaginário infantil[2]. Mas, o facto de entrar com mais cuidado nas ideias de Émile Durkheim, Marcel Mauss e de Georges Devereux, fez-me reparar que toda sociedade tem adultos e crianças, mas apenas uma cultura. Esta ideia apareceu ao lembrar os meus primeiros estudos e fui ao código e à lei. É o segundo assunto, que passo a estudar.
A cultura tem formas de comportamento denominadas costumeiras. No entanto, elas estão codificadas e poucos conhecem essa prescrição. Estamos, no entanto, na altura de a incorporar no nosso quotidiano.
(Continua)
[1] Iturra, Raúl, 2001: O Caos da criança. Ensaios de Antropologia da Educação, Livros Horizonte, Lisboa, resultado dos meus debates com o meu amigo ausente, Pierre Bourdieu. Website http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Ra%C3%BAl+Iturra+O+caos+da+crian%C3%A7a.+Ensaios+de+Antropologia+da+Educa%C3%A7%C3%A3o&btnG=Pesquisar&meta=
[2] Iturra, Raúl, 1998: O Imaginário das crianças. Os silêncios da cultura oral, Fim de Século, Lisboa. Tem sido impossível reeditar esse livro tão procurado.Website http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Ra%C3%BAl+Iturra+O+imagin%C3%A1rio+das+crian%C3%A7as.+Os+sil%C3%AAncios+da+cultura+oral&btnG=Pesquisar&meta=
