Tradução de João Machado. Obrigado ao Tariq Ali e ao site Counterpunch. Recentemente Tariq Ali lançou o livro The Obama Syndrome, em que desenvolve as ideias abaixo apresentadas.
Soberano é aquele que decide sobre situações excepcionais, escrevia Carl Schmitt noutros tempos, há quase um século, quando os impérios europeus dominavam a maior parte dos continentes e os Estados Unidos se refastelavam sob um sol isolacionista. O que o teórico conservador queria designar com situações excepcionais era um estado de emergência, tornado necessário por sérios cataclismos económicos ou políticos, que requeriam uma suspensão da Constituição, repressão interna e guerra no estrangeiro.
Passada uma década sobre os atentados de 11 de Setembro, os Estados Unidos e os seus aliados europeus estão metidos num atoleiro. Os acontecimentos daquele ano foram pura e simplesmente utilizados como um pretexto para reconstruir o mundo e castigar os estados que não aquiescessem. E hoje em dia, enquanto a maioria dos cidadãos euro-americanos estrebucham num deserto moral, ora incomodados com as guerras, ora resignados, ora levados pela propaganda a diferenciar entre guerras boas e más aquilo que é na realidade uma estratégia imperial abrangente, o general norte-americano Petræus (actualmente a chefiar a CIA) diz-nos: “Vocês têm também que reconhecer que eu não acho que vão ganhar esta guerra. Penso que devem continuar a lutar. É um pouco como no Iraque, hoje em dia… Sim, tem havido grandes progressos no Iraque. Mas continuam a ocorrer ataques medonhos no Iraque, e vocês têm de continuar vigilantes. Têm de continuar a aguentar. Estamos nesta luta para o resto das nossas vidas e provavelmente para as vidas dos nossos filhos.” Fala a voz de um poder soberano, determinando neste caso que a excepção é a regra.
Embora eu não concorde com a resposta que ele deu, o filósofo alemão Jurgen Habermas levantou uma questão importante: Será que a aspiração à universalidade que nós resumimos aos direitos humanos apenas pode dissimular um instrumento particularmente subtil e ilusório ao serviço do domínio ocidental? Poderíamos cortar o subtil. A experiência nos territórios ocupados fala por si própria. Dez anos passados a guerra no Afeganistão continua num beco sem saída brutal e sangrento, com um regime fantoche corrupto com o Presidente e sua família a encher os bolsos com proventos mal obtidos e uma intervenção militar EUA/NATO incapaz de derrotar os insurrectos. Os últimos agora atacam à vontade, assassinam o irmão corrupto de Karzai, abatem os colaboradores principais deste e visam espiões da NATO com terroristas suicidas ou derrubando helicópteros com mísseis. Entretanto, longas negociações secretas entre os EUA e os neo-Taliban têm tido lugar desde há vários anos. O objectivo revela o desespero. A NATO e Karzai estão desesperados para conseguir que os Taliban participem num novo governo nacional.
Políticos euro-americanos liberais e conservadores, que formam a espinha dorsal das elites governantes e afirmam acreditar na moderação e na tolerância e em travar guerras para impor esses valores aos estados recolonizados, ainda estão cegos pela posição que têm e não conseguem ver as palavras escritas na parede. Apesar das suas piedosas renúncias à violência terrorista, não têm problemas em defender a tortura, capitulações, alvejar e assassinar indivíduos, estados de excepção pós-legais nos seus países de modo a poderem aprisionar qualquer pessoa sem julgamento indefinidamente. Enquanto isso os bons cidadãos da Euro-América que se opõem às guerras empreendidas pelos seus governos desviam o olhar dos cidadãos mortos, feridos e órfãos do Iraque e Afeganistão, Líbia e Paquistão… a lista vai crescendo.
A guerra – jus belli – é agora um instrumento legítimo desde que seja usado com a aprovação dos EUA, ou preferivelmente quando usado pelos próprios EUA. Hoje em dia é apresentada como uma necessidade humanitária: um lado é apresentado como envolvido na prática de crimes, o lado auto-intitulado como moralmente superior simplesmente aplica o castigo necessário e ao estado que vai ser derrotado nega-se a sua soberania. A sua reconstrução é cuidadosamente policiada tanto com bases militares como com uma combinação de organizações não-governamentais e de dinheiro. Esta colonização ou domínio à século XXI é apoiada pelas redes globais na net, um pilar essencial para conduzir operações políticas e militares.
Comecemos por examinar o que se passa com a segurança interna nos EUA. Ao contrário do que muitos liberais imaginavam em Novembro de 2008, a degradação da cultura política norte-americana continua velozmente. Em vez de tentar inverter o processo, o Presidente advogado e a sua equipa aceleraram-no deliberadamente. Tem havido mais deportações de imigrantes do que no tempo de Bush; diminui o número de libertações de prisioneiros detidos sem julgamento em Guantánamo, uma instituição que o Presidente advogado tinha prometido encerrar; foi prorrogado o Patriot Act com as suas definições de quem é amigo ou inimigo; começou mais uma guerra, agora na Líbia, sem a aprovação do Congresso, com a frágil justificação de que o bombardeamento de um estado soberano não deveria ser interpretado como um acto hostil; os denunciantes estão a sofrer uma forte perseguição e por aí a fora – a lista cresce todos os dias.
(Continua)

