Selecção e Tradução por Júlio Marques Mota
A globalização contestada em Seattle :
Seattle Burning :WTO Protests, November 1999
Os economistas adeptos da livre-troca cometeram três grandes erros”. Confundem a arbitragem dos custos do trabalho através das fronteiras com a livre‑troca, quando na verdade não há nenhuma troca. Eles esqueceram dois requisitos que a teoria clássica da livre-troca com base na vantagem comparativa pressupõe, para ser válida. Eles ignoram os mais recentes desenvolvimentos teóricos mostrando que esta teoria nunca foi correcta, mesmo quando as condições que ela pressupõe ainda se verifiquem. “Análise de Paul Craig Roberts. Por Paul Craig Roberts, Dezembro de 2007”.
A 8 de Dezembro, as agências de imprensa chinesas e francesas relataram que o Irão tinha deixado de facturar em dólares as suas exportações do seu petróleo.
Os americanos já não têm acesso a esse tipo de notícias desde que a independência da imprensa foi destruída nos Estados Unidos na década de 90, quando Rupert Murdoch persuadiu o governo de Clinton e os seu apoiantes no Congresso a autorizar a monopolização dos media por um punhado de empresas gigantes.
O ministro do petróleo iraniano Gholam Hossein Nozari, declarou: “o dólar é uma moeda pouco fiável porque tem tendência a desvalorizar-se e isso implica perdas para os países exportadores”. O Irão sugeriu a todos os países da OPEP que deixassem de aceitar o dólar dos Estados Unidos. Como os produtores dos Emirados e os sauditas já tinham decidido reduzir as suas reservas em dólares, os Estados Unidos poderiam eles-próprios ter que pagar as suas importações de energia em euros ou em ines…
Na Venezuela, Chávez, que escapou a um golpe de Estado liderado pelos Estados Unidos e que provavelmente continua a ser um alvo de um atentado, poderia seguir o exemplo. Putin, irritado ao ver os esforços dos Estados Unidos para tentar cercar a Rússia poderia lançar as exportações de petróleo russo como um assalto simbólico contra o dólar.
Se o assalto é simbólico, isso não é porque o dólar seja a moeda de reserva a ser utilizada para facturar as exportações de petróleo. É o inverso. As exportações de petróleo são facturadas em dólares, porque o dólar é a moeda de reserva.
O que é importante para o dólar e para o seu papel como uma moeda de reserva, é que os actores internacionais continuam a ver os valores expressos em dólares como suficientemente atraentes apesar do aumento do défice comercial e do défice orçamental dos Estados Unidos. Se o Irão e outros países não querem mais dólares, podem então trocá-los por outras moedas sem ter em conta a moeda em que o petróleo é facturado.
No entanto, vemos que os actores internacionais já deixaram de considerar os valores expressos em dólares como suficientemente atraentes. O dólar sofreu uma baixa espectacular sob a presidência de Bush, independentemente do facto de que o petróleo seja cobrado em dólares ou não. O Irão desembaraça-se dos seus dólares porque o dólar perde valor. É uma resposta do mercado contra uma moeda que se está a depreciar, não é uma acção punitiva do Irão para afundar o dólar.
A facturação do petróleo é apenas uma pequena parte do problema. A declaração do Ministro Nozari sobre a perda sofrida pelos exportadores de petróleo aplica-se na verdade a todos os exportadores e para todos os produtos.
Há um quarto de século atrás eram as importações de petróleo que explicavam o défice da balança comercial americana. As preocupações expressas ao longo dos anos sobre a “dependência energética” habituou os americanos a só pensarem nos problemas comerciais em termos de petróleo. O desejo de garantir a “independência energética” levou a políticas absurdas, como os subsídios para o etanol, cujo efeito principal foi aumentar os preços dos produtos alimentares o que é catastrófica para os pobres.
Hoje as importações de petróleo representam apenas uma pequena parte do défice comercial americano. Durante as décadas em que os americanos estavam centrados no ” défice em energia” os Estados Unidos tornaram-se três a quatro vezes mais dependentes de produtos manufacturados do que do petróleo. O défice da balança comercial dos Estados Unidos nestes produtos, incluindo os produtos de tecnologia avançada, torna marginal o défice devido á energia. O défice da balança comercial dos Estados Unidos com a China é, por exemplo, mais de duas vezes o défice da balança comercial com os países da OPEP. O défice dos Estados Unidos com o Japão é equivalente ao défice com a OPEP. Sobre um défice comercial total superior a 800 mil milhões de dólares com Estados Unidos, a OPEP representa apenas um oitavo.
Se o abandono do dólar pelos exportadores de petróleo países não é a causa das desgraças da dólar, então qual é ela?
Duas razões explicam o fim do dólar. O primeiro é o facto de que as empresas americanas deslocalizam a sua produção destinada ao mercado interno dos Estados Unidos. Quando as empresas norte-americanas deslocalizam a sua produção de bens e serviços destinados ao mercado interno dos EUA, estas convertem o produto interno bruto (PIB) em importações norte-americanas. A produção dos Estados Unidos entra em queda, e quer o emprego quer as bacias de competências são assim destruídos e, consequentemente, aumenta o défice da balança comercial. No exterior, o PIB, o emprego e as exportações aumentam.
As empresas americanas que deslocalizam a sua produção destinada ao mercado interno dos Estados Unidos são as responsáveis por uma grande parte do défice comercial dos Estados Unidos do que é o défice com a OPEP. Pelo menos metade do défice da balança comercial dos Estados Unidos com a China provém desta produção deslocalizada e destinada ao mercado interno. Em 2006, o défice da balança comercial dos Estados Unidos para com a China foi 233 mil milhões de dólares, dos quais metade, ou seja, $ 116,5 mil milhões, representa 10 mil milhões a mais do que o défice dos Estados Unidos para com a OPEP.
A segunda razão para o fim do dólar é a ignorância e a passividade que mostram “-os economistas neoliberais do livre-mercado e da livre-troca” face às deslocalizações e ao défice da balança comercial.
(Continua)

