(Conclusão)
Os políticos e o poder passam por cima de tudo. Há liberais, cegos pelo facciosismo partidário, que ainda acreditam que a administração Bush se sobrepunha à lei, mas que os Democratas são exemplares no tratamento das normas. Se não levarmos em conta a retórica de cata-vento de Obama, a sua administração neste momento em pouco difere da do seu predecessor. Ignorem, só por um momento, o poder dos políticos e propagandistas de impor os seus tabus e os seus preconceitos à sociedade americana como um todo, um poder usado muitas vezes desregrada e vingativamente para silenciar a oposição que vem de todos os lados – Bradley Manning, Thomas Drake (libertado após um forte protesto nos meios de comunicação liberais), Julian Assange, Stephen Kim, que neste momento estão a ser tratados como criminosos e inimigos públicos, conhecem isto melhor do que a maioria das pessoas.
Nada descreve melhor esta aviltação do que o assassinato de Osama Bin Laden em Abbotabad. Podiam tê-lo capturado e levado a julgamento, mas nunca tiveram essa intenção. A maneira de ser dos liberais foi evidenciada pelos cânticos ouvidos em Nova Iorquenesse dia: E-U-A, E-U-A, o Obama apanhou o Osama. O Obama apanhou o Osama. Não nos conseguem vencer (aplausos) Não nos conseguem vencer. Dêem cabo do Bin La-den. Dêem cabo do Bin La-den.
Os líderes da Europa, parceiros menores da família imperial das nações, incapazes de terem ideias próprias, numa linguagem mais diplomática, fizeram eco a esses cânticos. As frases feitas e a hipocrisia tornaram-se a marca da cultura política.
Vejam o caso da Líbia, o exemplo mais recente de uma “intervenção humanitária”. A intervenção dos EUA e da NATO na Líbia, com a cobertura do Conselho de Segurança da ONU, faz parte de uma resposta orquestrada para exibir apoio a um movimento contra um determinado ditador, e deste modo contribuir para pôr fim às rebeliões árabes impondo o controle ocidental, usurpando o seu ímpeto e espontaneidade daquelas, e tentar repor o statu quo anterior. Como agora se vê os britânicos e os franceses gabam-se de sucesso e de que vão controlar as reservas líbias de petróleo como pagamento pela campanha de seis meses de bombardeamentos.
Entretanto os aliados de Obama no mundo árabe têm trabalhado intensamente a promover a democracia. Os sauditas entraram no Bahrein, cuja população está a ser tiranizada e há detenções em grande número. Sobre isto pouco se fala na Al-Jazeera. Pergunto a mim próprio porque será? Esta estação de televisão parece ter sido levada a mudar as suas orientações e voltar a obedecer às orientações políticas dos seus fundadores. Tudo isto com o apoio activo dos EUA. O déspota do Iémen, detestado pela maioria do seu povo, continua a matar por controlo remoto a partir da sua base saudita. Nem sequer lhe impuseram um embargo de armamento, ou uma zona de interdição de voo. A Líbia é outro caso de vigilância selectiva por parte dos EUA e dos seus cães de guerra ocidentais. Que os Verdes Alemães, que estão entre os europeus que mais ardentemente defendem o neo-liberalismo e a guerra, tenham querido participar deste assalto revela mais sobre como têm evoluído do que os méritos ou deméritos da intervenção em si.
Os limites do esquálido protectorado que o ocidente se prepara para criar estão a ser determinadosem Washington. Mesmoaqueles líbios que, em desespero de causa, apoiaram os bombardeamentos da NATO, poderão – tal como os seus equivalentes iraquianos – viver o suficiente para lamentarem a opção que fizeram.
Tudo isto vai levar a uma terceira fase: um furor nacionalista crescente que se vai espalhar e chegar à Arábia Saudita, e aqui, não duvidem, Washington fará tudo o que for necessário para manter no poder a família real saudita. Perder a Arábia Saudita é perder os estados do Golfo. O assalto à Líbia, muito facilitado pela imbecilidade de Khadafi em todos os aspectos, foi estudado para obstar à iniciativa que constituíam as manifestações de rua ao aparecer como feito pelos defensores dos direitos humanos. Os bahrainitas, egípcios, tunisinos, sauditas, iemenitas não estão convencidos, e mesmo na Europa-América há mais quem se oponha a esta última proeza do que quem a apoie. Os conflitos não terminaram, de modo nenhum.
O poeta alemão do século XIX Theodor Däubler escreveu assim:
O inimigo é a nossa própria insegurança encarnada
E acossar-nos-á, e nós acossá-lo-emos perseguindo o mesmo alvo
O problema hoje em dia com esta maneira de ver as coisas é que quem é o inimigo muda demasiadas vezes, ao sabor das necessidades da política norte-americana. Ontem Saddam e Khadafi eram amigos, e os serviços secretos ocidentais ajudavam-nos regularmente a lidar com os seus inimigos. Estes últimos passaram a ser amigos e os primeiros tornaram-se inimigos. E deste modo continua a confusão ao nível planetário. O assassinato de Osama Bin Laden foi saudado pelos líderes europeus como se o mundo tivesse ficado mais seguro. É uma história da carochinha.
O ultimo livro de Tariq Ali “The Obama Syndrome: Surrender at Home, War Abroad’ foi publicado pela Verso.
