Aristides de Sousa Mendes – Uma Pedra Lapidada.
A Pedra Bruta
Surgia em Portugal uma pedra ainda em estado bruto, a 19 de Julho de 1885, mais precisamente em Cabanas de Viriato que pertence ao concelho de Carregal do Sal, a meio caminho entre as cidades de Coimbra e Viseu. Ninguém imaginava que dali sairia o maior Diamante da época.
Aristides de Sousa Mendes formou-se em Direito em 1907, juntamente com seu irmão gémeo, César, pela Universidade de Coimbra. Ambos seguem carreira diplomática. Ele passa por diversos países, como Cônsul de Portugal. Mas foi em 1940, quando foi Cônsul em Bordéus, que ele se depara com o maior dilema de toda sua vida: obedecer a Salazar ou obedecer à sua consciência? Foi então que ele, na manhã de 16 de Junho, decidiu: “Vou salvá-los a todos”. Assim, durante um curto intervalo de dias, Aristides concede cerca de 30 mil vistos, dentre esses, 10 mil para Judeus. Estava exausto, sem comer e dormir. Tudo o que fazia, com a ajuda de seus filhos, era assinar passaportes. E foi assim que ele foi considerado o homem que mais salvou vidas durante o Nazismo. Católico fervoroso, pronunciou frases como estas:
“Só agindo desta maneira, de acordo com a minha consciência, serei digno da minha fé de cristão”.
“Se tantos judeus estão a sofrer por causa de um católico (Hitler), é justo que um católico (Aristides) sofra por tantos judeus”.
“Prefiro antes estar com Deus contra os homem, do que com os homem e contra Deus.”
Considerado como louco e traidor, ele é afastado de suas funções e obrigado a voltar para Lisboa. Logo a seguir é aberto um Processo Disciplinar para apurar a desobediência do Cônsul. Em Agosto, Salazar destituiu-o de seu cargo e depois seu rendimento foi cortado. Ele ainda preparou sua própria defesa, alegando que fez o que fez por um “Acto de Consciência”, e que não estaria infringindo nenhuma lei, pois foi um “acto humanitário”, e isso a Constituição garantia. Depois cita o artigo 8º da Constituição – o qual diz que ninguém pode ser perseguido pelas suas crenças. Mas sua defesa foi em vão, seus recursos negados e sua punição severa. Com uma família numerosa (14 filhos) ele vê-se em sérias dificuldades financeiras. Foi a Comunidade Judaica de Lisboa que o amparou, garantindo-lhe uma ajuda mensal e que suas refeições fossem feitas na cantina, junto com os refugiados judeus.
Finda-se a II Guerra. Hitler suicida-se. E, o mesmo Salazar que não respondera a nenhum dos inúmeros telegramas de Aristides, envia agora um telegrama de condolências pela morte do líder Nazi. E ainda decreta luto oficial em Lisboa por dois dias, com a bandeira a meia haste. E, em 16 de Maio de 1945, é proferido o “Discurso da Paz”, no qual Oliveira Salazar afirma que fez o que pôde para ajudar os refugiados e lamentou não ter podido fazer mais. Essas palavras deixaram Aristides tremendamente revoltado com a tamanha desfaçatez do líder fascista.
Os últimos anos de sua vida foram muito difíceis. Fica viúvo. Depois vê seus filhos emigrarem um a um para os EUA, com a ajuda da comunidade judaica, já que em Portugal sofriam severas perseguições. Por fim perde todos seus bens. Em 3 de Abril de 1954 morre Aristides de Sousa Mendes, devido a uma trombose seguida de uma pneumonia. Morreu na miséria, sem ter sequer um fato para vestir. Foi enterrado com um hábito franciscano. Não presenciou a tão desejada reabilitação de sua carreira, tão pouco algum reconhecimento público pelos seus actos de heroísmo.
A “Lapidação”
Lapidação se refere ao processo de tornar uma pedra bruta em pedra preciosa. Para ser lapidada, a pedra precisa sofrer desgastes, pressões, perder arestas, para fazer sobressair o seu brilho e aumentar o seu valor. Todo o percurso de vida do Diplomata, até chegar ao fatídico momento em Bordéus, serviu como um longo processo de lapidação de seu carácter e sua consciência.
Há também um outro sentido para a palavra lapidação: refere-se à forma de execução por apedrejamento dos condenados à morte. É uma maneira antiga e cruel de matar lentamente, mantendo muitas vezes o réu consciente. Infelizmente Aristides teve que passar também por essa lapidação.
Segundo José de Castro: “A pedra que Salazar mandara colocar sobre o processo estava lá para ficar.” Sim, houve uma pedra mortífera no meio do caminho de Aristides de Sousa Mendes, fruto do furor do líder fascista pela desobediência de um Cônsul.
Eu pretendo investigar em meu Doutoramento como a figura de Aristides de Sousa Mendes está representada hoje na memória colectiva dos portugueses e estudar alguns traços de sua personalidade, tais como: o altruísmo, a coragem, o senso de justiça.
Porém, em minhas observações preliminares e entrevistas informais, tenho constatado alguns factos pouco animadores:
1ª – Muitos jovens desconhecem quem foi Aristides e o que ele fez. Refiro-me aqui a jovens universitários, licenciados e uns ate já pós-graduados.
2ª – Ouvi uns relatos de pessoas que têm algum conhecimento da história do Cônsul de Bordéus. Porém, eles acabaram por confessar que duvidam de que Aristides tenha de facto salvado a vida de 30 mil pessoas. E, pasmem, ainda dão os créditos de sua bravura a Salazar, justificando que se não fosse a política de neutralidade de Portugal, os vistos de Aristides não teriam atingido êxito algum. Como se Salazar, de certa forma, tivesse acobertado e protegido o diplomata.
3ª – Já li relatos como este: “É possível que seja herói, mas o que eu acredito mesmo é que cada um dos 30.000 judeus (os judeus sempre foram muito abastados), lhe pagou o favor. E se assim foi, de portugueses que vão contra a lei, em troca de dinheiro, ainda temos e sempre tivemos.” São ideias como esta, sem nenhuma base de informação de dados reais, que circulam na mentalidade de alguns portugueses. Toda a frase está incorrecta. Primeiro: das 30 mil pessoas que Aristides salvou, 10 mil é que eram judeus. Segundo: nem todo judeu é abastado como muitos pensam. E terceiro e mais importante: Aristides nunca ganhou absolutamente NADA! Nenhum centavo por suas assinaturas. Muito pelo contrário, ele só perdeu. Perdeu sua carreira e todos os seus bens.
4º – Uma das grandes referências da vida de Aristides encontra-se hoje em ruínas. Conhecida como a Casa do Passal, em cabanas de Viriato – foi o local onde ele viveu, e, depois do seu retorno de Bordéus serviu inclusive de abrigo para várias famílias de judeus que não tinham para onde ir. Este valioso prédio histórico aguarda dos órgãos públicos a liberação da verba para se construir o Museu Aristides de Sousa Mendes, cuja finalidade será abrigar todos os registos da memória material e imaterial sobre o grande humanitário português. Porém a casa está muito degradada e as vigas de sustentação já se encontram em estado adiantado de deterioração, podendo a qualquer momento desabar.
Pois bem, estes quatro motivos supracitados têm-me causado uma inquietação que beira a revolta. Como é possível que a geração actual não saiba quem foi e nunca tenha escutado sobre Aristides? E, como crer que alguns da geração do 25 de Abril desconheçam e deturpem os fatos históricos a este ponto? Parecem menosprezar os actos humanitários do Cônsul, e o que é mais grave, justificam nas entrelinhas que Salazar seria o merecedor do título de Aristides. E, enquanto isso, a Casa do Passal espera… Mas até quando suas pedras de sustentação podem aguentar?
Acredito que estes tristes factos, no fim de contas, estão todos interligados a uma única causa: há em Portugal o que eu chamo de “herança maldita de Salazar”. Suas ideias fascistas não acabaram no 25 de Abril, muito menos com sua morte. A sua punição foi levada a cabo além da morte de Aristides. Os anos de silêncio sobre a figura de Aristides, decretado pela pedra salazarista, explicam em boa parte o desconhecimento desse herói pela geração actual. Assim, a execução por lapidação perdura post-mortem. E, cada vez que alguns destes quatro motivos acima são evidenciados, é como se fosse atirada mais uma pedra à memória do nosso herói.
Seria então errado questionar que:
– Os simpatizantes das ideias salazaristas continuam a actuar, no “backstage” da nossa trama social, e, como sombras, subtilmente, evocam fantasmas com pedras em punho, para dilacerar a luz da história e aterrorizar os actores da democracia?
– Até que ponto estariam esses fantasmas impedindo o aparecimento de novos Aristides?
Enquanto a memória desse grande humanitário português não for devidamente (re)conhecida, honrada e recordada, a pedra de Salazar irá continuar como uma sombra sobre a história de Aristides de Sousa Mendes. É preciso coragem para remover todo e qualquer vestígio dessa pedra, para que outras novas pedras sejam elevadas. Não mais pedras que ferem, nem tão pouco pedras que silenciam. Serão pedras que conclamam a honra e coragem de um homem que foi acima de tudo justo e bom!
O Raro Diamante
Antes uma pedra fez sombra, tentando ofuscar a luz de Aristides de Sousa Mendes. Agora, é chegada a hora de trazer o brio de sua vida ao reconhecimento público, com pedras que construam fortalezas e memoriais ao herói português.
Pedras como as que todos os anos muitos judeus deixam depositadas sobre o túmulo de Aristides. É um costume judaico colocar pedras no lugar de flores. Pedras que simbolizam o respeito e eterna gratidão pelo homem que cumpriu a mais nobre das missões: salvar vidas. E, como está escrito no Talmud: “Quem salva uma vida, salva a humanidade inteira”.
Foi também a comunidade judaica a prestar-lhes a primeira homenagem. Em 1961 são plantadas árvores no jardim do Museu Yad Vashem (Memorial às Vitimas do Holocausto), em Jerusalém. A mesma instituição em 1966 entrega à filha de Aristides a “Medalha de Ouro dos Justos”, título máximo que significa “Justo entre as Nações”. Ele é o único português a obter tal homenagem.
Mas só em 1988 que é aprovado pela Assembleia da República o projecto lei que reintegra Aristides de Sousa Mendes à carreira diplomática à título póstumo, com a promoção de Embaixador. Foi preciso esperar ainda 14 anos após o 25 de Abril para que a pesada pedra que Salazar pôs em cima de Aristides começasse a ser destruída, e ser feita a tão sonhada justiça à sua figura.
A primeira homenagem ao Cônsul de Bordéus em Portugal ocorre no Algarve, em Maio de 1993, no Cemitério e Museu Judaico de Faro, com a presença do então Presidente de Portugal, Dr. Mário Soares. Foram lá plantados 18 ciprestes e dedicados ao Diplomata herói, pois no judaísmo o numero “18” é escrito em hebraico por Chai (חי), que significa VIDA.
Depois uma série de homenagens, das mais variadas formas, tem acontecido no mundo inteiro e também em Portugal. Aristides de Sousa Mendes vira nome de rua em Bordéus, vários livros são escritos sobre sua vida, documentários realizados, peças teatrais encenadas, exposições, bustos, lápides, condecorações… E, é Portugal quem produz o primeiro filme sobre o seu herói. “O Cônsul de Bordéus” ainda não tem data para estrear em Portugal, mas já foi exibido na Semana de Cinema Português de Israel e no Festival de Cinema de Goa (Índia).
«Se nós temos algum herói moderno é Aristides de Sousa Mendes, uma personalidade fascinante e que foi esquecido por razões políticas e por laxismo nacional», disse à Lusa o realizador Francisco Manso quando iniciou a rodagem do filme, em Viana do Castelo.
Esperemos também que em breve seja finalmente restaurada a Casa do Passal, onde dará lugar ao Museu Aristides de Sousa Mendes e toda sua história preservada e divulgada como deve ser. As pedras desgastadas pelo tempo serão restauradas e fortificadas, criando o alicerce de uma nova era em Portugal. Era em que todos os portugueses conhecerão sobre esse fascinante homem. Era em que todos se possam orgulhar e se inspirar nele, para que, mais a frente, tenhamos outros tantos justos como foi Aristides – o Cônsul de Bordéus, a Pedra Lapidada, o Rochedo de Israel.
“Tenho de testemunhar a profunda admiração que as pessoas têm por si em todos os países onde exerceu as funções de cônsul. O senhor é para Portugal a melhor das propagandas, é uma honra para a sua pátria. Todos aqueles que o conheceram louvam a sua coragem, o grande coração, o espírito cavalheiresco … se os Portugueses se parecem com o cônsul-geral Mendes, são um povo de cavalheiros e de heróis”.
Trecho da carta da escritora Gisèle Allotini, dirigida a Aristides de Sousa Mendes.
Fontes de Referência:
http://amigosdesousamendes.blogspot.com/
http://www.esas.pt/jaca/docs/Aristides.pdf
Documentário da RTP – “Aristides de Sousa Mendes, o Cônsul Injustiçado”
