(Conclusão)
Viragem social-liberal
A partir dos anos 70, o compromisso social-democrata é confrontado com a forte progressão do neoliberalismo nos Estados Unidos e no Reino Unido e com o aparecimento de novas problemáticas no campo das ideias à esquerda. A social‑democracia enfrenta esses desafios com um triplo eixo programático: um eixo clássico que se preocupa com a justiça social, o emprego e o crescimento económico. Um segundo eixo tenta agarrar os temas post-materialistas e anti-autoritários mais populares na opinião pública (defesa do ambiente, segurança alimentar, liberdade sexual, a igualdade homem-mulher). O terceiro eixo é de inspiração neoliberal (estabilidade monetária, compressão das despesas públicas, privatizações, baixa dos impostos, Estado social mais reduzido mas “activo”) [2].
Depois das breves experiências keynesianas do PS francês (1981-1982) e do PASOK grego (1981-1984), os partidos social-democratas no poder no sul da Europa aplicam políticas de desinflação competitiva sob a pressão da concorrência internacional. O seu custo social é muito pesado (elevadas taxas de desemprego, deterioração do Estado Providência e dos serviços públicos). A conversão de facto ao neoliberalismo é primeiramente ignorada ou negada (Lionel Jospin falou do ” parênteses de rigor” em 1982) [3]. Com a chegada ao poder de uma geração de líderes estranhos à cultura social-democrata tradicional (Tony Blair, Gerhard Schröder), o revisionismo social-democrata é reconhecido, ou mesmo reivindicado [4].
Na década de 90, Tony Blair chama de “terceira via” a nova síntese social-democrata [5]. Anthony Giddens, o seu criador, posiciona-a como equidistante entre o neoliberalismo e a “velha” social-democracia keynesiana. Se ele se demarca do ultraliberalismo de Hayek, este novo compromisso rejeita antes do mais o intervencionismo do Estado e as políticas redistributivas da social-democracia dos anos 60-70. O governo da esquerda plural de Lionel Jospin (1997-2002), apesar de um discurso de esquerda mais tradicional e das políticas combatidas pelos defensores da ortodoxia neoliberal (redução do tempo de trabalho), não se afastou de maneira significativa do tipo social-liberal. Este governo tem elogiado as virtudes da modernidade, da competência e da responsabilidade e procurou o apoio de várias categorias sociais através de políticas de “agradar a todos “: (35 horas, criação de emprego, cobertura médica universal, Pacs, paridade homem-mulher, baixa dos impostos, privatizações, aceitação do Pacto de Estabilidade e Crescimento…). A esquerda plural não evoluiu fora deste quadro neoliberal geral que ela amenizou com as suas medidas neokeynesianas.
O impasse da terceira via
Depois de ter havido entre 1997 e 2002 até 12 governos na União Europeia (UE), a social- democracia está hoje na parte baixa da onda. Quatro países escandinavos em cinco – o coração da social-democracia – são regidos por formações políticas conservadoras. Na Alemanha, o SPD, aliado aos democratas-cristãos, está no ponto mais baixo das sondagens; o Partido Trabalhista britânico é também altamente impopular. Os partidos da oposição também não se saem muito melhor (incluindo o PS em França). O declínio social-democrata é profundo e parece duradouro. O descrédito atinge sobretudo o projecto liberal tecnocrático de tipo “terceira via”. A “via blairista” levou a social-democracia a um impasse político, ideológico e eleitoral [6]. A social-democracia dos anos 90 fez escolhas em ruptura com as suas ideias e com as suas políticas tradicionais: adopção de políticas neoliberais no plano económico e orçamental (continuação das privatizações, apoio à desregulamentação do mercado comunitário, dumping fiscal para atrair os investimentos); desmantelamento do Estado social (flexibilidade do mercado de trabalho, restrições impostas às políticas industriais, redução das prestações sociais); adopção de valores post materialistas próprios das categorias de capitais culturais e económicos mais elevados e políticas cada vez mais restritivas quanto à imigração e ao endurecimento na política de segurança para com os infractores. Alguns sociais-democratas apresentam-se como os gestores ” mais eficazes do capitalismo ” [7]. Eles acompanharam a subida em força do capitalismo financeiro no mundo (globalização) e na Europa (integração Europeia).
As políticas ditas de “terceira via” contribuíram para o aumento das desigualdades na Europa. Desde os anos 80, a parte dos salários no rendimento nacional passou de 72,1% para 68,4%. Depois da década de 90, a taxa de actividade aumentou de 61,2% para 64,5%, o que significa que um maior número de activos partilham um volume menor de riqueza. De acordo com o índice de Gini, as desigualdades sociais tem aumentado bastante desde a década de 80. A “Europa social” não passou da fase de slogan, e ela é rejeitada até por formações pertencentes ao Partido Socialista Europeu. A UE é uma zona de profundas desigualdades: 20% dos mais pobres recebem 4,5% do PIB na UE, contra 8,1% na Índia e contra 5,1%.nos Estados Unidos.
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Na Alemanha (Die Linke), na Itália (Rifondazione Communista, antes da sua ligação ao governo de Veltroni), nos Países Baixos (Socialistische Partij) e em França (o novo partido Anticapitaliste), formações “da esquerda da esquerda”, seduzem as categorias populares abandonadas pelos partidos social-democratas. A reorientação extrema que operou a social-democracia desde a década de 80 coloca-a hoje numa posição insustentável: à direita, é cada vez mais difícil distingui-la das formações conservadoras ou liberais. À esquerda, esta é cada vez mais sujeita à concorrência feita por formações que empunham melhor que ela os ideais de justiça social e da redistribuição do rendimento. A democracia nasceu à esquerda. Ela não poderá colocar um fim ao seu irresistível destino a não ser que se reposicione claramente à esquerda.
O capitalismo está em crise, hoje. A má gestão financeira e o fracasso das políticas neoliberais têm amplamente desacreditado este modo de produção. Contudo, nenhum partido social-democrata na Europa parece estar à altura de questionar o posicionamento “social-liberal” herdado da década de 90. Algumas destas formações são mesmo defensoras dos interesses capitalistas contra os povos que sofrem (Grécia, Espanha). Nenhuma destas formações manifestou o desejo de regressar às a décadas de acompanhamento social dum capitalismo cada vez mais prejudicial para os povos e para o ambiente. A social-democracia aparece como uma força do passado num mundo que se move e que tem sede de justiça social.
Philippe Marlière *
* Maître de conférences en science politique à University College London (université de Londres).
[1] R. Ladrech, P. Marlière (dir.), Social democratic parties in the European Union. History, organization, policies, Macmillan, Basingstoke, 1999.
[2] G. Moschonas, In the name of social democracy. The great transformation : 1945 to present, Verso, Londres, 2002.
[3] P. Marlière, « Le modèle social-démocrate en question », Universalia 2003, Encyclopaedia Universalis, Paris, 2003, pp. 97-102.
[4] Fondation Jean-Jaurès, « Blair-Schröder. Le texte du Manifeste, les analyses critiques », in Les Notes de la Fondation Jean Jaurès, no 13, août 1999.
[5] A. Giddens, T. Blair, La Troisième voie. Le renouveau de la social-démocratie, Seuil, Paris, 2002.
[6] P. Marlière, La Social-démocratie domestiquée. La voie blairiste, Editions Aden, Bruxelles, 2008.
[7] P. Marlière, « Manifestes pour une social-démocratie de marché : Anthony Giddens, Tony Blair et le débat sur la Troisième voie », in Les Temps modernes, no 605, août-sept.-oct. 1999, pp. 161-180.
*Philippe Marlière est professeur de science politique à University College London (université de Londres). Dernier ouvrage : La Social-démocratie domestiquée. La voie blairiste, Bruxelles, Ed. Aden, 2008.
De textos publicados por Mediapart e por Contretemps
