… as estratégias de localização das empresas : os choques da globalização
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A França, como outros países desenvolvidos têm estado a sentir uma deterioração da competitividade, daí resultando um crescente défice do comércio exterior e deslocalizações. À semelhança de outros países desenvolvidos, a França enfrenta um duplo desafio: o que foi lançado pelos países emergentes que beneficiam de vantagens de custos e o que foi lançado pelos países desenvolvidos entre os quais e em primeiro lugar está a Alemanha, cujas empresas compensam a atonia da sua procura interna com o estarem a conquistar mercados externos. A teoria do comércio internacional e a teoria da localização, mas também a experiência, ensina-nos que a recuperação da sua competitividade implica que as empresas mais se empenhem mais intensamente na I&D e na internacionalização das suas actividades, exportando e investindo mais e em externalizando mais no estrangeiro. O sucesso desta estratégia está estreitamente ligado à capacidade dos países desenvolvidos em aumentarem de maneira coordenada as respectivas procuras internas, garantindo a realização de ganhos mútuos e justos.
As nações não competem umas com as outras como o fazem as empresas.
Uma empresa mais competitiva do que a sua concorrente tira-lhe quota de mercado e reduz-lhe a rentabilidade. Um Estado-nação que se torna mais competitivo, aumenta a sua taxa de crescimento e a sua taxa de emprego, não obtém necessariamente esta vantagem à custa dos outros Estados-nação. Antes, pelo contrário, é também bastante possível que isto aconteça também para vantagem deles. Este é o sentido a dar à existência de benefícios mútuos no comércio internacional. A competitividade de um território não é comparável à de uma empresa, mesmo se a tentação existe para um país incentivar as suas empresas, reduzindo os custos do trabalho e os impostos. Reconhecer o que faz a “verdadeira” competitividade dos Estados-nação permite dar o seu justo lugar às estratégias desenvolvidas por empresas que respondem aos requisitos de redistribuição espacial das actividades e às condições macroeconómicas prevalecente nos diferentes países parceiros nas trocas internacionais.
Em suma, existe um mercado das localizações mas este não se conclui necessariamente por vencedores e perdedores. A escolha das localizações pode levar para os territórios em causa ganhos comuns e equitativamente repartidos, desde que cada um deles, produzindo nos mesmos ramos, ofereça bens e serviços diferenciados. Mas há quanto a isto uma condição que nunca foi claramente enunciada: que os países em causa têm um nível de desenvolvimento comparável envolvendo estruturas de preferências do consumidor final semelhantes e que a procura interna de cada um deles contribua para o crescimento de todos. Nesta hipótese favorável, as localizações de empresas, que muitas vezes têm uma origem aleatória, obedecem a estratégias de reforço baseadas na exploração de rendimentos crescentes e na ocupação de nichos característicos da concorrência monopolística. A abertura ao comércio internacional favorece a selecção das empresas mais eficazes e, por consequência, o crescimento. A internacionalização passa, antes de tudo, pelo desenvolvimento das exportações de mercadorias. As estruturas de exportação de cada país, por ramo de actividade e por destino geográfico, são semelhantes na medida em que eles estão posicionados nos mesmos ramos de actividade.
Entre os países desenvolvidos e os países emergentes, pode haver vencedores e perdedores nas trocas como resultado da transferência de actividades dos primeiros para os segundos. As diferenças de desenvolvimento levam os países emergentes a adoptar estratégias de exportação baseadas nas vantagens de custos em áreas onde a procura emana principalmente dos países desenvolvidos e em atrair indústrias que anteriormente estavam localizados nos países desenvolvidos. Um conflito existe então entre os dois grupos de países, alimentado pelas estratégias das empresas dos países avançados que jogam sobre as diferenças de potencial e se envolvem numa fragmentação da actividades que envolvem investimentos e a externalizar certas actividades nos países emergentes. Um conflito do mesmo tipo também pode existir entre países desenvolvidos quando alguns deles escolhem contrair a sua procura interna e basear o seu crescimento em estratégias de criação de excedentes comerciais. Neste último caso, as empresas de exportação desenvolvem uma estratégia consistindo em externalizar a fabricação de componentes dos seus produtos em países com salários baixos. A indústria francesa enfrenta este duplo conflito pelo facto de que as suas empresas têm um atraso relativo na descoberta de novos nichos tecnológicos, bem como na internacionalização das suas actividades produtivas.
Competitividade partilhada e localização
A eficácia produtiva de uma nação é, a médio ou longo prazo, sempre subordinada à das outras nações. A sua competitividade, se queremos manter este termo para designar o desempenho global, vai a par com a existência de ganhos mútuos nas trocas internacionais. Quando estes ganhos são distribuídos equitativamente, nenhum país tem interesse em levantar barreiras ao comércio e as empresas localizadas em cada um destes países podem beneficiar da dimensão dos mercados que se tornaram internacionais, fazendo a escolha da exportação.
(Continua)
