… as estratégias de localização das empresas – : os choques da globalização
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
(Continuação)
Ganhos mútuos e equitativamente distribuídos
Os rendimentos crescentes e a aprendizagem estão no centro do sistema industrial e são a verdadeira razão das vantagens nas trocas internacionais. A especialização nas trocas internacionais é uma forma de divisão do trabalho que permite aceder às economias de escala e constituem uma fonte de crescimento. Também a vantagem absoluta bem pode prevalecer sobre as vantagens comparativas na organização de comércio.
A teoria das vantagens comparativas ensina-nos que cada país tem a vantagem em se especializar na produção do bem que produz a um custo relativo menor: em equilíbrio não há, então, em princípio, nenhum interesse mútuo em que um país capte a totalidade de todas as actividades. Esta teoria, que é a justificação das virtudes da livre-troca sem qualquer intervenção pública, é concebida num contexto muito particular: os rendimentos são constantes, não há nenhum progresso técnico nem aprendizagem. Isto não corresponde de modo nenhum à realidade do mundo industrial dos nossos tempos. Os rendimentos não são constantes: na verdade, os ganhos de produtividade existem e são eventualmente muito diferentes de um sector para outro e de um país para outro, dependendo de sua especialização. Se imaginarmos que a especialização saída das vantagens comparadas oferece seguramente benefícios para todos, mas vantagens fortemente diferenciadas em termos de potenciais ganhos de produtividade, é provável que os países menos beneficiados tentarão escapar durante algum tempo a uma concorrência destruidora para se dotar de uma capacidade geradora de ganhos de produtividade. Este é o significado do proteccionismo educador, em princípio temporária.
No entanto, a existência de rendimentos crescentes num contexto de concorrência monopolística oferece a possibilidade de ganhos nas trocas, não somente mútuos mas também equitativamente distribuídos (Krugman, 1990). Estes são os mesmos tipos de bens em que os países estão especializados para que uns e outros tenham o mesmo potencial de crescimento. Além disso, os ganhos alcançados vão para todos os factores de produção: nenhum deles é favorecido em detrimento dos outros. Evidentemente, nada disto é automático. Os rendimentos crescentes têm esta propriedade de que bem podem ampliar as diferenças nos resultados obtidos, em termos de produção e rendimentos entre regiões ou países ou tornar possível uma maior igualdade entre eles. Os rendimentos crescentes juntamente com a diferenciação de produtos permitem que uma ampla gama de mercadorias seja produzida em condições de fortes ganhos em produtividade para cada produtor em cada país.
O comércio internacional tem, naturalmente, como efeito a introdução de concorrência entre as empresas inovadoras de diferentes países (Grossman e Helpman, 1991, pp. 243-246). Mas esta concorrência cria fortes incentivos para cada uma destas empresas para projectar e produzir bens que são únicos na economia mundial ou, por outras palavras, a participar numa concorrência monopolista. Esta escolha em procurar nichos tecnológicos, obviamente, tornou-se credível pelo aumento da dimensão do mercado aberto a cada empresário participante. O aumento na variedade de bens e serviços produzidos assim como a diferenciação que se lhes segue não excluem a concorrência entre as empresas cujos lucros são, portanto, mantidos a níveis normais. Em situação de equilíbrio, há convergência das taxas de inovação e, assim, também das taxas de crescimento. O aumento da variedade permite um aumento do nível de utilidade de cada consumidor em cada país.
Selecção de empresas e localizações
A localização inicial de actividades que não seja devida á existência de dotações de factores primários (Seattle ou Toulouse para a aeronáutica, o Silicone Valley para os computadores, Detroit ou Sochaux para os automóveis, a City de Londres para os serviços financeiros, por exemplo) é um fenómeno frequentemente aleatório que responde à implementação de competências empresariais específicas. O reforço desta local é, no entanto, endógeno e cumulativo. Resulta, assim, de um mecanismo de selecção das empresas.
Quando as suas actividades se inscrevem num contexto de rendimentos crescentes e concorrência monopolista, as empresas procuram servir os mercados internacionais.
Esta estratégia de exportação é a condição do seu sucesso ao mesmo tempo que é a chave fundamental do mecanismo da selecção. As empresas devem exportar para ganhar partido das economias de escala. Aquelas que o conseguem fazer, ou seja, que têm sucesso são aquelas que, muitas vezes, são de grande dimensão e cuja produtividade é a mais elevada precisamente porque são elas que têm a capacidade de cobrir os custos fixos de entrada em mercados estrangeiros (Melitz, 2003). A redução destes custos fixos de exportação pode promover a entrada de um número maior de empresas, reforçar o grau de concorrência entre elas e, assim, reduzir a sua taxa de margem. Mas, simultaneamente, a selecção entre as empresas será mais forte na medida em que as empresas não exportadoras serão eliminadas dado que não conseguem obter as margens suficientes (Melitz e Ottaviano,) 2005.
Em suma, o comércio internacional e a especialização que dela é resultante estão na origem de um aumento no desempenho médio das actividades produtivas e do resultado geral dos territórios onde estes estão localizados. As localizações ordenam-se em condições que garantam uma competitividade partilhada das diferentes nações envolvidas nas trocas internacionais para benefício dos consumidores finais. Há, no entanto, uma condição geral para isso e que é pouco explicitada: as economias devem estar suficientemente próximas umas das outras em termos de rendimento per capita e, consequentemente, em termos da contribuição da procura interna própria a cada país para o crescimento do conjunto das nações participantes. Este cenário que tem amplamente prevalecido até um passado recente, entre países desenvolvidos, e em particular na Europa, entre a França e a Alemanha está agora ameaçado.
Conflitos internacionais e fragmentação espacial das actividades
Quando os países estão empenhados em estratégias que visam fundar o seu crescimento sobre a criação de excedentes comerciais, como é o caso dos países emergentes como sendo a única solução para se desenvolverem ou como é o caso dos países avançados, confrontados com uma forte recessão, todos eles tentam transpor os efeitos sobre os seus vizinhos, as empresas dos países desenvolvidos são mais propensas a implementar estratégias de fragmentação de actividades a nível internacional, o que implica investimentos e externalização para os países emergentes. Os conflitos de interesses entre países assumem então uma grande dimensão e são susceptíveis de enfraquecer o crescimento de alguns quando não é o crescimento de todos que é prejudicado.
(Continua)
