DIÁRIO DE BORDO, 30 de Janeiro de 2012


 

 

Não é exagero ou inadequado comparar a época difícil em que estamos com uma tempestade ao nível mundial, e que parece querer durar muitos anos. A nossa Argos continua defrontando mares alterosos, e a ser sacudida por vagas e correntes de todos os tipos. É próprio do mau tempo que estamos atravessando.

 

Um dos aspectos mais dolorosos da vida do nosso país é o dos idosos isolados, que morrem em casa, e só são encontrados tempos depois. Na televisão informaram que, durante o corrente mês de Janeiro, já houve 17 casos, 12 dos quaisem Lisboa. Lamentavelmente é possível que haja mais casos, que ainda não foram detectados. Com certeza que este problema não ocorre exclusivamente em Portugal, mas não é de modo nenhum excessivo ou alarmismo afirmar que entre nós pode chegar a proporções inimagináveis.

 

O empobrecimento da população, causado pela crise económica e pelas más políticas governamentais, afecta imenso os laços de solidariedade tradicionais, e obsta à criação de respostas adequadas às novas realidades. A família alargada perde cada vez mais o seu peso na sociedade portuguesa, e as famílias nucleares e os indivíduos isolados, na sua maioria lutam com dificuldades para assegurar a subsistência própria.

 

Terá sido positivo que se tenha feito um levantamento de situações de idosos isolados, usando as forças policiais. Ao fim e ao cabo foram detectadas situações de risco. Mas não chega. Há com certeza muito mais situações de isolamento do que as encontradas, tem de se considerar à partida. Depois, há que tomar medidas. Estas têm de ser equacionadas respeitando a privacidade e o livre arbítrio de cada um, e simultaneamente procurando a melhor maneira de assegurar que as pessoas têm onde recorrer em caso de doença ou de outras carências.

 

As medidas a tomar, para serem eficazes, terão de assentar numa prestação dinâmica e alargada dos serviços públicos (incluindo os que estão classificados como privados, como as instituições particulares de solidariedade social – IPSS), com relevo para as autarquias, e também para os serviços de saúde e de segurança social (incluindo as IPSS e outros equiparáveis), e também no espírito comunitário das populações. A este respeito, com toda a consideração que merecem as pessoas que neles trabalham, há que chamar a atenção para que as reformas (melhor dito chamadas reformas) efectuadas ao longo dos anos nos serviços têm sido sobretudo no sentido de cortes no pessoal e redução de despesa, e pouco mais, que têm afectado gravemente a sua operacionalidade. Os serviços que estão no terreno são os mais afectados. E o espírito comunitário, tanto nas zonas urbanas como nas rurais, onde existia tende a desaparecer, e não se tem acautelado o seu fomento nas zonas onde falta.

 

O nosso país tem envelhecido rapidamente. A crise não vai passar tão cedo, basta olhar para a incompetência dos governos que se têm sucedido, e para as tensões internacionais, na Europa e no resto do Mundo. É urgente que se pense, a todos os níveis, até do relacionamento entre cidadãos, em novas maneiras de abordar este problema.

Leave a Reply