Cara Augusta
Ainda eu estava a pensar se tentaria esclarecer algumas incorrecções científicas em temas médicos surgidas no blogue e já tu avançavas com uma didáctica explicação dos mecanismos elementares da imunologia com que concordo absolutamente (como não podia deixar de ser). Também perfilho a tua reserva quanto ao peso, por vezes excessivo, dos grandes grupos farmacêuticos em algumas decisões de saúde pública nacional e internacional. Essas reservas tiveram aliás vencimento em medidas correctivas que a OMS veio a tomar na sequência da campanha contra a pandemia gripal (a começar nos critérios para a sua definição), em que passou a ser proibida a acumulação de certos cargos com posições de chefia ou aconselhamento de multinacionais do sector.
Quanto à opinião sobre os méritos de programas nacionais de vacinação também convirjo obviamente nas suas vantagens e, a bem do rigor científico, terá de dizer-se que todos os argumentos até hoje adiantados se têm revelado inválidos.
A favor lembraste bem os casos virais da raiva e da poliomielite (que profissionalmente conheço bem). No caso da raiva, uma vacina administrável já após o risco de contágio, é óbvio que nenhuma imunidade natural poderia contribuir para a produção de anticorpos específicos sem a inoculação duma estirpe (imunologicamente similar) que estimule a resposta neutralizadora. No caso da polio o que uma campanha bem orientada deve fazer é determinar a idade a partir da qual o nível de anticorpos presentes nas crianças (maternos ou estimulados pelo meio) já não é considerado suficiente para estabelecer a partir daí a idade de vacinação (tive o privilégio de fazer em 1960 provavelmente o primeiro pequeno estudo nesse sentido em Portugal).
A persistência de doenças apesar das vacinas obriga a uma análise fina que não se compadece com conclusões apressadas, senão dogmáticas. O sucesso na erradicação da varíola e até o relativo insucesso na pretensão de acabar com a parilisia infantil infecciosa (que a situação política centro-africana impediu) provam que tais campanhas são (e serão) passíveis de êxito. E certamente ninguém contrariará a necessidade de cada vez maior investigação (felizmente com alguns importantes contributos portugueses) na procura de vacinas contra a malária (ou mesmo a SIDA) porque a própria existência de indivíduos imunizados contribui para atrasar a propagação da endemia a novas áreas. Refiro intencionalmente a malária porque, se este é um campo onde medidas de sanidade pública (eliminação de pântanos, extermínio de insectos, etc) são igualmente extremamente importantes (mesmo decisivas), a diminuição de indivíduos infectados e potencialmente infectáveis terá também um peso determinante na erradicação (?) da moléstia.
Uma última palavra para os argumentos menos válidos.
A associação do tiomerosal presente na vacina contra o sarampo, a rubéola e a parotidite com o aparecimento de autismo nas crianças está hoje formalmente negada por falta absoluta de provas, sendo até o autor do primeiro “alerta” na Lancet (Dr. Andrew Wakefield) condenado pelo Conselho Geral de Medicina de Inglaterra por “comportamento profissional impróprio grave”, proibindo-o de exercer.
Já a presença de certos adjuvantes nas vacinas como potenciadores da acção imunogénica continua a suscitar um debate a seguir. A presença de esqualeno na vacina contra o Bacillus anthracis como elemento contributivo para a Síndrome da Guerra do Golfo, p.ex., relembra a necessidade duma monitorização apertada dos critérios de inocuidade dos produtos vacinais, sem obviamente ceder a interesses estranhos à saúde pública.

Obrigada, Rui, pela tua opinião que, como sabes, muito prezo.