Desindustrialização, Globalização, 3ª Série – 6ª Parte – A competitividade dos territórios e … – V. Por Jean-Luc Gaffard.

… as estratégias de localização das empresas: os choques da globalização 

 

 

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

 

(Conclusão)

 

 

O relatório do Conseil d’analyse économique sobre os resultados das exportações da Alemanha e a França (Fontagné e Gaulier, 2008) é bastante esclarecedor sobre a natureza das questões. Em primeiro lugar, este relatório destaca a semelhança das estruturas sectoriais e estruturas geográficas em ambos os países. Ele também sublinha a semelhança dos tipos de produtos exportados a níveis finos da nomenclatura dos ramos de actividade. Por último, sublinha a semelhança das mercadorias exportadas de um país para o outro a estes nos mesmos níveis de nomenclatura. A partir desta observação inicial, daqui resulta como uma hipótese, que as diferenças de desempenho na exportação, que se tornaram nitidamente muito mais sensíveis nos anos 2000, têm mais a ver com o comportamento das empresas do que com o tipo de especialização em termos de produto ou destino. O estudo dos dados das empresas, contidos no mesmo relatório, confirma esta hipótese. As empresas francesas são tão numerosas na exportação quanto as empresas alemãs mas o peso médio das exportações na sua produção total é menor. Se a França tem mais empresas com uma intensidade fraca de exportações e tantas empresas com uma alta intensidade como a Alemanha, ela tem em média menos empresas com uma intensidade média. As empresas francesas de facto obtêm menos bons resultados em matéria de produtos tecnológicos e de produtos do topo de gama.

  

O “turnover”, ou seja, a importância da criação e desaparecimento dos fluxos comerciais, é mais elevado em França do que na Alemanha, o que significa que as empresas, francesas se elas criam mais oportunidades, perderam também mais mercados. As empresas francesas importam menos bens intermediários, a produção de bens finais produzidos no exterior ganhou relativamente mais importância que a externalização da produção de bens intermediários no exterior. Esta diferença tem-se alargado uma vez que a Alemanha, cuja parte das importações de bens intermediários no total das importações aumentou significativamente, importa cerca de 75% de bens intermediários a mais do que a França em meados dos anos 2000 contra 45% a mais o que ocorria assim no final da década de 90.


Esta situação demonstra as fraquezas das empresas francesas relativamente às empresas alemãs (OFCE 2010, ISGEP, 2008). Elas gastam menos em R&D. Como resultado, a parte das suas exportações de alta tecnologia (com forte intensidade em R&D), da ordem de 22%, não aumentou, enquanto a parte destes produtos no produto interno bruto duplicou nos dez anos anteriores à crise (passando de 10 a 20% do PIB). Elas servem em média menos os mercados de exportação. Estas não têm realizado uma segmentação internacional do seu processo de produção que lhe teria permitido manter no território nacional uma produção competitiva de bens finais. Essas falhas explicam em parte o défice do tamanho das empresas francesas assim como as suas margens cujo efeito é cumulativo degradando a capacidade de investimento. A similitude das especializações geográficas e estruturais é aqui sinónimo de concorrência directa e de eliminação parcial das menos eficazes sobre mercados com fraco crescimento.


As diferenças de resultados, claramente associadas com diferente organização industrial e de estratégias de R&D aumentaram num contexto de enfraquecimento, porém assimétrico, da procura interna. Disso é um testemunho o facto de que a degradação relativa dos resultados das empresas francesas data do início dos anos 2000 e corresponde a um período em que as exportações vieram na Alemanha substituir a procura interna como o motor do crescimento alemão. As empresas francesas perdem mais acções para mercados europeus não-Europeu dos mercados de exportação. Isso é especialmente verdadeiro de gama alta e produtos de produtos de alta tecnologia. Esta observação provavelmente não está relacionada com a fraqueza relativa da procura interna alemã. As empresas francesas perdem mais quotas de mercado nas suas exportações sobre os mercados europeus que sobre os mercados não-europeus. Isto é particularmente verdadeiro em produtos de topo de gama e dos produtos de alta tecnologia. Esta verificação provavelmente estará relacionada com a fraqueza relativa da procura interna alemã.


Dito de outra maneira, o sucesso das empresas francesas na concorrência internacional assenta, é verdade, numa reconfiguração das estratégias das empresas e das políticas industriais, mas depende também de uma coordenação internacional das políticas económicas, com vista ao suporte da procura global, com especial importância ao nível europeu.


Reencontrar a competitividade das empresas francesas e do site França requer políticas que visem estimular directamente as empresas para que elas invistam mais em R&D e na exploração de novos mercados, mas exige também um apoio na procura interna dos países desenvolvidos e, em particular, da Alemanha, para se manter no contexto de desenvolvimento das trocas intra-ramo, favorecendo o acesso aos rendimentos crescentes. Dito por outras palavras, o sucesso das empresas francesas na concorrência internacional assenta, é certo, na reconfiguração das estratégias das empresas e das políticas industriais mas não é independente de uma coordenação internacional das políticas económicas destinadas a apoiar a procura global, e em primeiro lugar a procura a nível europeu.

 

Referências bibliográficas:


Fontagné L. et G. Gaulier, 2008, Performances à l’exportation de la France et de l’Allemagne,

Rapport du Conseil d’Analyse Economique, n° 81.

Gaffard J-L. et F. Saraceno, 2008, « Tariffs, Trade and Unemployment in a Disequilibrium

Model: issues and policies », Journal of Evolutionary Economics, 18 (2).

Gaffard J-L et F. Saraceno, 2012, « International Trade and Domestic Distortions », Journal of Evolutionary Economics, à paraître.

Gomory R.E. et W.J. Baumol, 2000, Global Trade and Conflicting National Interests,

Cambridge Mass., the MIT Press.

Grossman G. M. et E. Helpman, 1991, Innovation and Growth in the Global Economy,

Cambridge Mass., MIT Press.

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ISGEP, 2008, « Understanding Cross-Country Differences in Exporter Premia: Comparable Evidence from 14 Countries », Review of World Economy, 144, pp. 596-635.

Krugman P. R., 1990, Rethinking International Trade, Cambridge, Mass., MIT Press.

Melitz M., 2003, « The Impact of Trade on Intra-Industry Reallocation and Aggregate

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Melitz M. et G. Ottaviano, 2005, « Market Size, Trade and Productivity », NBER Working Papers, n° 11393.

OFCE, 2011, L’industrie manufacturière française, Paris, La Découverte.

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