Se há coisas das quais gosto mesmo, passear é uma delas. Melhor: viajar!
Viagens são passeios longos e demorados onde se calhar não voltaremos, mesmo que não se saia do sofá. Ir, já é mais difícil, mas viajar, é uma questão de nos pormos a isso.
Uma vez fui a África. Fomos. Não aquela em que se passa mal, que está em guerra . Não àquela da fome e da doença. Não à da violência e falta de amor.
Fomos à que deixa saudades e vontade de lá ficar. Foi um ir, e foi um prazer.
E foi a esta África, pois não sei se teríamos a coragem, a dignidade e o coração para aguentar outra.
Foi a uma África onde é preciso pouco ter para se ter e ser feliz.
Se o dia começava cedo, a noite também não tardava a chegar. Não fazia frio e até a chuva era quente e sabia bem.
O mar era índico, indígo, azul, cheio de peixes coloridos. As praias era brancas e douradas e eram só nossas.
As árvores que não serviam para nada, serviam para tudo. As outras davam frutas, doces, perfumadas, saborosas, de todas as cores. As palmeiras e coqueiros tinham degraus e davam garrafas.
As sebes de buganvílea pintavam as estradas de alcatrão preto ou saibro laranja.
O motorista do autocarro esperava por nós, e ninguém reparava se íamos de chinelos à cidade.
Hoje não tinha sido o último dia para entregar o trabalho, hoje tão pouco, e amanhã logo se veria.
As crianças brincavam na rua, com coisas nenhumas, e mesmo assim jogava-se à bola e saltava-se à corda. Riam e corriam em bando, e dançavam ao ritmo dos pés e das mãos e dos tambores.
Roupas velhas, panos vermelhos, missangas verdes e amarelas. Colares e pulseiras. Madeiras perfumadas e malaguetas. Lagostas, caranguejos, ananás e mangas doces como mel, bananas encarnadas e cocos verdes, com água a sair à pressão.
África é safari e viagem. Pelas savanas adentro, debaixo de um sol quente, por estradas escarlates e poeirentas, a sentir o pó na cara e no cabelo, e não se sentir sujo. É ouvir os sons do calor, e as cigarras.
É elefantes e leões preguiçosos, zebras e girafas, à sombra do baoba. São lagartos azuis a correrem atarantados.
É almoços e jantares faustosos no meio do fim do mundo, com o pouco que há e ainda sobra.
É chegar à noite e dormir debaixo das estrelas, numa cama gigante de lençóis macios bordados de flores naturais acabadas de colher, depois de um bom banho.
E outras coisas que não me passaram à frente dos olhos, mas não quis ver, para não recordar.

