Meu querido Amigo Carlos Loures Perguntou-me se estaria disponível para comentar este vídeo sobre as cidades fantasmas na China, vídeo este que já recebi das mais diversas fontes, de direita e de esquerda. Estranho, pensei. Nunca mais liguei ao assunto até este pedido que com muito carinho recebi e ao seu pedido acedi. Mas agora lamento, a promessa não cumpri.
Com efeito, iremos apresentar creio que dentro da próxima semana, a quarta série de textos sobre Globalização e desindustrialização. Nestes textos falaremos de paisagens transformadas, desertificadas no Ocidente, superpovoadas na China, o contrário do filme.
Nesta série falaremos, por um lado de ”radiografias ou de ressonâncias magnéticas feitas a pontos localizados e não localizados do neoliberalismo”, falaremos da fábrica Lejaby, um símbolo cruel da desindustrialização recentemente criado em França, falaremos da Apple, expoente máximo da internacionalização da produção, falaremos de um engenheiro Eric Saragoza, com três filhos que rapidamente ascendeu ao topo dos engenheiros na fábrica americana de iMac’s em ElkGrove e que até ao sábado tinha de trabalhar mas que gostaria de ver os seus filhos jogar futebol, falaremos desse engenheiro que depois desce tão rapidamente na escala das remunerações quanto tão rápida foi a deslocalização daa produção da Apple para a China e esta remuneração desce ao nível do trabalhador não especializado a limpar vidros, em casa, de iPhone, depois de despedido da Apple, falaremos das paisagens desertas da Carolina do Norte varridas pelos tsunami da globalização, em que de um dia para o outro famílias houve que deixavam de ter dinheiro para pagar a escola aos seus filhos. Disso tudo, falaremos. E, depois, falaremos da mistificação dos economistas à volta das bases da livre troca retomando o tema de duas cartas enviadas ao actual ministro da Economia e de uma outra enviada a Durão Barroso, Estaremos bem acompanhados, pelo Le Monde, pelo New York Times, pelo Atlantic, por Ralph E. Gomory, por William J. Baumol, por YuhanZhang, por Paul CraigRoberts, por Sen. Charles E. Schumer,por Maurice R. Greenberg,por Robert Scott, por um relatório do Senado francês, pela Brookings e, eventualmente, por Dani Rodrick.
E tudo isto para dizer o quê.?Queremos com isso descobrir o outro lado da crise, o da economia real e que a crise financeira criou, e esse lado está simultaneamente no neoliberalismo de bacocos ou de agentes que social e politicamente poderiam e deveriam ser acusados de criminosos e responsáveis pelas mortes que a crise na Europa já trouxe e por outro o neoliberalismo e o neo-imperalismo de alguns dos países emergentes, em que, relembrando Supiot, se encontra o pior do comunismo e o pior do capitalismo. Nestes países necessariamente estará a China.
Enquanto a Europa se entrega de mãos dadas à China vendendo-lhe as suas jóias da Coroa, por todo o lado na Europa, desde a Grã Bretanha ao país num canto da Europa é agora prantado, Portugal, enquanto Merkle à procura de vender maquinaria pesada para a construção de verdadeiras infra-estruturas na China ou mais automóveis Audi, Mercedes e BMW se desloca para a China a explicar o esquema de Ponzi que sob o seu poder a Europa irá criar, o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), enquanto as políticas de austeridade são verdadeiros vendavais a velocidades ciclónicas e a temperaturas de morrer gelado, a destruir décadas de construção europeia e talvez um século de civilização, enquanto em Portugal se morre atropelado na linha de comboio do Norte e o Primeiro Ministro diz que a austeridade será assim “ custe o que custar”, vêm-nos dizer com este filme que a China é um absurdo, a viver de cidades fantasmas!
Ninguém pode tomar a sério a provocação de que a China é afinal como cá, que também está a cair de pobre, estejam pois descansados, não haverá nada de mal se vendermos eventualmente Sines aos chineses, eles cairão e depois retomaremos o que é nosso.
Não, os textos que vos iremos mostrar dizem-nos o contrário, di-lo Steve Jobs quando responde a uma inquirição de Obama sobre a possibilidade dos empregos que produzem os iPA,iPH da Apple poderem regressar aos Estados Undos e a resposta foi lapidar, mais ou menos assim : senhor Presidente, nunca mais, a menos que formem os engenheiros de que precisamos e, mesmo assim, apenas talvez “. Um país feito quase à velocidade da luz dispondo de engenheiros aos milhares para saciar a avidez de Steve Jobs não é um país que cresce a fazer cidades fantasmas. Mas já que falamos de fantasmas, aqui vos mando uma peça de verdadeiros fantasmas, a explicar bem o que é o neoliberalismo: à medida que a Europa se rendia aos países emergentes, era forçada a contrair pesados défices para suportar ou minimizar o desemprego de massa que se ia entretanto provocando. E assim se faziam fantasmas e de tudo isso ficaram os coelhos e os desempregados. Destes fantasmas vos fala esta peça, dos coelhos vos falará quem os apanhar!
Aeroportos fantasmas
| 16.01.12 | 14h38
É a história de uma pista de aterragem, habitada por uma colónia de coelhos, um terminal sem bagagens nempassageiros com controladores de tráfego aéreo que não têm nada para controlar.É a história dos aeroportos sem aviões. Uma história, em Espanha, que não deixa de se estar a repetir.
Em 9de Janeiroàs 8 horas, o último avião da companhia AirNostrum descolou do aeroporto de Badajoz, na Extremadura e com eledesaparecia a únicaactividade comercialregular da zona.A culpa é da crise, “que afectouo mercado interno espanhol”,afirma a filial da Ibéria. “O problema é estrutural, corrige o economista Germa Bel, daUniversidade de Barcelona”. “A Espanha não definiu a suapolítica de transportes em função daprodutividade edarentabilidade mas tomou as suas decisõesem função de critérios territoriais e administrativos”.
É verdade, o número de passageiros para Badajoz, uma cidade de 150.000 pessoas localizado na fronteira com Portugal, continuou a descerdesde 2007, atingindo 56.000viajantes em 2011, mas o número de passageiros , de toda a maneira,nunca excedeu 90 000 passageiros por ano…
Na Espanha, cada capital de província que desejasse terum aeroporto poderia contar com o apoio do governo e do Ministério do financiamento do equipamento. Hoje, as consequências desta políticacustam caro. “O problema não é apenas o de que o investimentonunca seráamortizado, dadoque a dívida acumulada da AENA (empresa pública responsável pela gestão dos aeroportos) é 14 mil milhões de euros, mas muitas vezes até mesmo a própria manutenção de infra-estruturas não é rentável”, acrescenta este economista.
Se a rede AENA transporta cerca de 200 milhões de passageiros por ano, 16 dos seus 49 aeroportos, que não chegam a 100 000 passageiros anuais, estão ameaçadas pelas políticas de crise e da austeridade.
Como o aeroporto de Badajoz, que esperaretomar o serviço, atraindo novas companhias, mas que de momento, apenas se adiciona à lista de aeroportos espanhóis sem aviões. O quinto num ano, depois dos de Ciudad Real, Reus, Huesca e Castellón.Quanto aos seus perto de20 ou pouco mais empregados, estesquestionam-se sobrequal será seu destino.
Sem dúvida o mesmo que o dos empregados de Huesca. Esta cidade de 53.000 habitantes, situada na entrada dos Pirenéus centrais,equipou-se, em 2007, com um reluzente aeroporto de 40 milhões de euros, onde maisnenhuma empresa comercial opera, desdea saída de Pyrenair, em Abril de 2011. Não é possívelrentabilizarvoos paracerca de 6.000 passageiros anuais que frequentam estes lugares, quando o governo admitia, previa, cerca de 160 000. Mas no terminalfantasma, uma trintena de empregados continuama fazer o papel defiguras errantes ..
O aeroporto catalão de Reus, localizado a 100 km ao sul de Barcelona,está tambémdeserto, desde a saída da Ryanair em Novembro, por causa de uma baixano tráfego (menos 16% em 2010). Quase 80 pessoas encontravam-sedesempregadas. Mas no terminal refeito de novo,são cerca de 50empregados, funcionários da AENA,que fazem ainda figura de errantesna esperança de que o tráfego retome como previsto em Abril .
Para isso, aCatalunha teve querenegociar oseu contrato”publicitário” com a companhia irlandesa de baixo custo. A região prometeu-lhe8 milhões de euros por ano até 2016, de acordo com o jornal El Pais, para a “promoção do turismo” destedestinoassim como um campo livre para que estacrieum hangar e, possivelmente, um hotel. Uma forma de subsídio disfarçado(proibida pela União Europeia) em trocada qualRyanairse compromete a manter o tráfego em Reus e a transportarcerca de 3 milhões de passageiros por ano numoutro aeroporto catalão, o de Girona.
Girona, precisamente, foi o modelo que queria seguir o aeroporto privado de Ciudad Real, em Castela – La Mancha. Pensado como um aeroportocomplementarde Madrid-Barajas, a 200 km a sul da capital espanhola, este esperava receber 2,5 milhões de passageirospor ano. Mas desde a sua inauguração, em Dezembro de 2008,recebeuapenas 100.000. Com uma pista longa de 4 km, para que aí possam pousaro Airbus A380, custou a bagatela de 500 milhões de euros. Hoje, emliquidação judicial, o aeroportoviu, em Outubro de2011, descolar oúltimo aviãoda empresa Vueling, quando ocontrato de publicidade de mais de 2 milhões de euros assinado com o governo de Castela – La Mancha terminou.
E, por fim,em Castellón, cidade localizada a 75 km ao norte de Valência, um outro aeroporto privado está a dar que falar dele . Desde a sua inauguração, em Março, ninguém viu a sombra de um avião. E por boas razões: o Aeroporto nem sequer se deu ao trabalho de solicitar a licença de autorização de voo, uma vez que a empresa que se deveria encarregar da gestão desistiu.Numa espécie de vingança as pistas foram invadidas porcoelhos que se vão reproduzir pacificamente bem protegidos dos caçadores. Mas nada de pânico quanto ao assegurar das descolagens e aterragens dos aviões fantasmas, o Aeroporto comprado oito falcões e outros tantos furões. Que irão caçar coelhos.
