FAZ HOJE DUZENTOS ANOS QUE NASCEU CHARLES DICKENS. Por João Machado

Charles Dickens (1812 – 1870) foi sem dúvida o maior famoso escritor inglês do século XIX. Para Walter Allen (1911 – 1995), escritor, ensaísta e crítico literário, autor de The English Novel, ele foi o maior romancista inglês de sempre. Georges Orwell (1903 – 1950) achava que ele não tinha uma ideia clara sobre o funcionamento da sociedade, e descrevia as pessoas e as situações de modo a cativar o lado sentimental das pessoas, transmitindo apenas uma percepção emocional dos vícios da sociedade. Contudo reconhecia-lhe uma capacidade excepcional de cativar o lado humanitário das pessoas de todos os meios e de todas as classes sociais, e que assim contribuiu poderosamente para generalizar o conhecimento do que foi a realidade social inglesa sob a Revolução Industrial, com relevo para o sofrimento da população mais pobre.

O grande sucesso de Dickens deve-se sem dúvida a que conseguiu ser simultaneamente um escritor sério e um escritor que entretinha o público, como também assinala Walter Allen. Começou a sua carreira a escrever histórias curtas para revistas. A Dinner at Poplar Walk  sai em 1933, numa revista. O seu sucesso foi rapidíssimo. O seu primeiro romance, The Posthumous Papers of the Pickwick Club, foi publicado em 1837, mas tinha saído anteriormente em fascículos numa revista, o Monthly Magazine, durante os doze meses anteriores. A sua popularidade atravessou logo o Atlântico. Os fascículos de The Old Curiosity Shop (1841) eram aguardados em Nova Iorque por multidões no cais. As pessoas em terra perguntavam para o navio se a heroína, a Little Nell, já tinha morrido.  Dickens escreveu ao todo quinze romances, o último dos quais, The Mystery of Edwin Drood (1870), não conseguiu acabar, tendo sido publicados apenas seis dos doze fascículos previstos. De salientar que Barnaby Rudge (1841) e Tales of Two Cities (1859) são romances históricos.

Para além das histórias curtas e dos romances, Dickens também escreveu para o teatro, inclusive para o teatro musicado. São referidas influências do teatro na sua obra, resultantes sem dúvida de uma tentativa, na sua juventude, de participar numa peça de teatro, de que teve de desistir por motivos de saúde.

Todos os romances de Dickens foram previamente publicados em fascículos, o que permitiu que fossem lidos por largos sectores do público, parte dos quais não lhes conseguiria ter acesso de outro modo. Alguns críticos referem que era obrigado a planear as suas obras (ele fazia-o com grande cuidado) levando em conta esse facto, e assim tinha de moldar o enredo de modo a, em cada fascículo, o leitor encontrar como que um enredo menor que encaixasse no mais geral. Mas o mais notável da sua obra, são os personagens. Mesmo os que nunca o leram, ouviram falar de Scrooge, personagem que parece tirado do imaginário popular (provavelmente, foi).  T. S. Elliot (1888 – 1965) afirmou que os personagens de Dickens eram tão reais por serem únicos.

Dickens foi sem dúvida muito influenciado na sua obra pelos problemas da sua infância. Em David Copperfield (1849), talvez o seu romance mais famoso, fez um pouco a sua autobiografia. Leitor entusiasta, tem também a influência de escritores britânicos do século XVIII, como Defoe (1660 – 1731), Fielding (1707 – 1754), e Smollett (1721 – 1771). E mais, os críticos assinalam a influência de Cervantes nos Pickwick Papers. Não cabe numa simples crónica um resumo do rasto que deixou, não só na literatura, como no cinema e no teatro, e em todo o mundo das artes. E no mundo em geral.

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