(Continuação)
A vida sexual das crianças é de grande liberdade e existe a possibilidade de relações amorosas entre elas, seja de plaisanterie, sedução, brincadeira, ou ainda, de juntar os corpos em fellatio, esfregar um com o outro, masturbação em grupo, ou a uma penetração possível – a criança de três, quatro ou mais anos, tem erecção, prazer e orgasmo, como diria Klein na sua teoria meta psicológica já citada[1], embora não tenha ejaculação, esfregam os corpos como vêem fazer aos adultos com quem moram. Para entender essa vida sexual parece-me necessário explicar dois factos: a classificação por idades entre os Kiriwina; como é que acontece entre nós, como está permitido termos relações sexuais antes do ritual do matrimónio, ou apenas no dia do matrimónio, e nunca durante a época do contrato de compromisso para o matrimónio ocidental?
Entre nós, os tempos têm mudado, especialmente entre 1895 e a actualidade. O que Freud diz de sexualidade infantil é diferente das análises de hoje.[2] Quer Freud, quer Ferenczi, apesar de se dizer que inventaram a sexualidade infantil a partir de um código de comportamento retirado da vida adulta, analisam no entanto o abuso da sexualidade infantil, como, aliás, se prova pelos factos de pedofilia, o encerramento de Instituições, as acusações a homens detentores de poder politico na sociedade, o tráfico de crianças entre países e famílias, a prostituição infantil, demonstrando largamente que os textos sobre abuso infantil destes autores não estavam nada longe do real e dos danos que causavam. Diz Freud que o desenvolvimento da sexualidade infantil leva, no limite, à “ansiedade de castração”. A comparação do que a criança vê entre os adultos e o seu próprio corpo e as possibilidades dentro da sua libido erótica, faz com que o mais novo tenha medo desse adulto que pode violar o seu corpo, fisicamente falando, como Richard relata a Klein. Não existe apenas desejo infantil, excitação ou necessidades genitais precoces, mas também comportamento infantil na procura de prazer com adultos, como sugar o pénis de um homem adulto até à ejaculação, acariciar uma vagina ou brincar com corpos de adolescentes, como eu próprio presenciei no meu trabalho de campo, para prazer de ambos. É o que o analista designa por sexualidade oral ou anal, entre nós não permitida, mas ritual entre outros grupos[3]. A sensação de angústia do adulto, tem o seu começo na idade infantil, nas brincadeiras de masturbação em grupo, com amigos ou com adultos, como acontece nos factos observados, especialmente de homens novos com crianças que procuram o seu corpo, viúvas a temer gravidezes não desejadas, sucção de pénis que ejacula e outras actividades eróticas da libido[4]. Actividades que acontecem especialmente em actividades rituais e festivas, na altura em que o adulto usa drogas que rebaixam as suas pulsões éticas e a criança confia nele por não conhecer essas diferenças entre a vida quotidiana e de trabalho ou em família, e a vida solitária, quando o adulto não resiste conter a sua pulsão erótica e penetra na criança, pelo ânus ou pela boca. Penetração que a criança aceita ao pensar que é emotivamente evidente e permitida, especialmente se o adulto é da sua confiança, conhecimento e proximidade emotiva sentimental, como parentesco, filiação e outras já referidas para outros grupos sociais, tentando ignorar o nosso, hoje em tribunal, enquanto muito adulto anda pelos campos das neuroses.
(Continua)
1] Klein, Melanie, especialmente os ensaios do volume Inveja e gratidão e Narrativa da análise de uma criança, Imago, Rio de Janeiro, 1991 ou a colecção Payot dos anos 80 e 90, Paris. Também, a História do pequeno Hansde Freud, notas 39 e seguintes, Capítulo II deste texto.
[2] Freud, Sigmund, para além dos textos citados de 1906 e 1913, especialmente as Histórias mencionadas do Caso do pequeno Hans e o Caso do pequeno Arpád – retirado da análise de Ferenczi, dos seus textos sobre abuso de crianças Analyse d’enfant avec les adultes http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Sandor+Ferenczi+Analysis+Arp%C3%A1d&btnG=Pesquisar&meta= , ver 1905 Teoria da sedução na sexualidade infantil ou Ritual Abuse em http://directory.google.com/Top/Society/Issues/Children,_Youth_and_Family/Child_Abuse/Sexual_Abuse/
[3] Freud, Sigmund, em Website http://directory.google.com/Top/Society/Issues/Children,_Youth_and_Family/Child_Abuse/Sexual_Abuse/ , bem como em Totem e Taboo e 1905: O abandono da infância a sexualidade ou Drei Abhandlungen zur Sexuakltheorie Website em alemão, com texto: http://www.iep.utm.edu/f/freud.htm#Infantile%20Sexuality ou teoria tripartida, retirada das ideias de Platão, as análises clínicas e as suas conclusões do Id, Ego e Superego, onde o ego da criança fica erotizado. Ver Website http://www.iep.utm.edu/f/freud.htm#Neuroses%20and%20The%20Structure%20of%20the%20Mind ou
http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Freud+Drei+abhandlungen+zur+Sexualtheorie&btnG=Pesquisar&meta= Versão inglesa de 1905: Sexual aberrations, Penguin, Londres. Website com texto e debates: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Sigmund+Freud+Sexual+Aberrations&btnG=Pesquisar&meta=
[4] Freud, 1926, Signal d’angoise Website http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Freud+Signal+angoisse&spell=1
